{"id":288,"date":"2017-09-29T13:10:00","date_gmt":"2017-09-29T13:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2017\/09\/29\/um-olhar-alem-do-espelho\/"},"modified":"2017-09-29T13:10:00","modified_gmt":"2017-09-29T13:10:00","slug":"um-olhar-alem-do-espelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2017\/09\/29\/um-olhar-alem-do-espelho\/","title":{"rendered":"Um olhar al\u00e9m do espelho"},"content":{"rendered":"<div style=\"clear: both; text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-ZV90SJO4aJQ\/Wc4-KwtSYOI\/AAAAAAAAGWw\/Vj3r97rx-qAZ9EWVyPSJnwD7S9njl0HCACLcBGAs\/s1600\/nicolas.jpg\" style=\"margin-left: 1em; margin-right: 1em;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"900\" data-original-width=\"720\" height=\"320\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-ZV90SJO4aJQ\/Wc4-KwtSYOI\/AAAAAAAAGWw\/Vj3r97rx-qAZ9EWVyPSJnwD7S9njl0HCACLcBGAs\/s320\/nicolas.jpg\" width=\"256\" \/><\/a><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Trans-for-mar: Fazer adquirir ou adquirir novo aspecto, nova forma, novo car\u00e1ter; Fazer mudar ou mudar de uma condi\u00e7\u00e3o a outra. Para quem \u00e9 transg\u00eanero, no entanto, o ato de se transformar vai muito al\u00e9m desses significados encontrados em dicion\u00e1rios: transformar-se \u00e9, acima de tudo, encontrar-se; \u00e9 transcender.<br \/>Para Ella Vieira, formada em G\u00eanero e Sexualidade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), transg\u00eaneros s\u00e3o aquelas pessoas que n\u00e3o se identificam com o g\u00eanero designado no nascimento. No entanto, o psic\u00f3logo e mestre em Educa\u00e7\u00e3o Sexual pela Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho (UNESP), Tom Rodrigues, explica que n\u00e3o existe um momento certo da vida para que essas pessoas comecem a questionar os g\u00eaneros aos quais foram \u201cencaixadas\u201d. \u201cMas \u00e9 comum que, desde a inf\u00e2ncia, essas pessoas n\u00e3o se identifiquem com o g\u00eanero que foi compulsoriamente imposto a elas e queiram mudar\u201d, completa. Foi o caso de Noah Renard, 18, cuja transgeneridade despertou logo na inf\u00e2ncia. \u201cCom uns quatro anos ou mesmo antes j\u00e1 me sentia \u2018diferente\u2019\u201d.&nbsp;<\/div>\n<table cellpadding=\"0\" cellspacing=\"0\" style=\"float: left; margin-right: 1em; text-align: left;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-POHKlGpuRFM\/Wc4-LGuAd3I\/AAAAAAAAGW0\/J3wi4bsiwl84VCvOmNFX8N8VXn0eMQ-qQCEwYBhgL\/s1600\/noah.jpg\" style=\"clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"1440\" data-original-width=\"1426\" height=\"320\" src=\"https:\/\/2.bp.blogspot.com\/-POHKlGpuRFM\/Wc4-LGuAd3I\/AAAAAAAAGW0\/J3wi4bsiwl84VCvOmNFX8N8VXn0eMQ-qQCEwYBhgL\/s320\/noah.jpg\" width=\"316\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: left;\">&nbsp;Noah Renard<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<span style=\"text-align: justify;\">Tom Rodrigues destaca, ainda, que a adolesc\u00eancia \u00e9 outra fase importante para as descobertas. \u201c\u00c9 nesse momento que nascem os caracteres secund\u00e1rios do corpo, e h\u00e1 o despertar para sexualidade\u201d. Para Alice Vilas Boas, 21, os questionamentos tiveram in\u00edcio por volta dos 13 anos, quando n\u00e3o conseguia entender o porqu\u00ea das amigas desenvolverem seios, e ela n\u00e3o. \u201cFoi quando comecei a me entender em um corpo e identidade de g\u00eanero diferentes daquilo que tinha ganhado socialmente\u201d, conta. J\u00e1 para N\u00edcolas Oliveira, 23, que sempre se sentiu desconfort\u00e1vel num corpo feminino, era comum n\u00e3o gostar do via no espelho. \u201cMe sentia diferente das outras garotas. Veio, ent\u00e3o, aquela parte do crescer e \u2018criar corpo\u2019. Foi quando parei de olhar no espelho, porque n\u00e3o gostava do que via. N\u00e3o era aquilo que queria. N\u00e3o era eu\u201d.<\/span><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A parte de assumir para si mesmo e para os outros a transgeneridade \u00e9 outra dificuldade enfrentada, principalmente, pela falta de informa\u00e7\u00e3o, como ressalta Cec\u00edlia, 20, que preferiu n\u00e3o se identificar. \u201cQuando me assumi para os meus pais, a \u00fanica informa\u00e7\u00e3o \u00e0 qual tinha acesso era sobre o \u2018ser gay\u2019. Ent\u00e3o, com quase 18 anos, me assumi como gay e at\u00e9 hoje \u00e9 um processo de desconstru\u00e7\u00e3o de mim mesma\u201d.<br \/>Alice Vilas Boas lembra que travestis e transexuais vivem numa sociedade despreparada para atender novas demandas. \u201cQuando comecei a sentir a vontade de me assumir foi a pior dificuldade pela qual passei, porque tudo o que \u00e9 relacionado a pessoas trans \u00e9 inviabilizado e tratado com descaso\u201d. No caso de Ametista Vieira, 21, ela acabou por ser expulsa de casa antes mesmo de se assumir como trans. \u201cEncontrei mais dificuldade ainda em me aceitar, porque j\u00e1 sabia de tudo que ia passar\u201d.<br \/><b>Processo de transforma\u00e7\u00e3o<\/b> &#8211; A transforma\u00e7\u00e3o faz parte da transgeneridade. Conforme o psic\u00f3logo Tom Rodrigues, algumas pessoas desejam fazer uma redesigna\u00e7\u00e3o genital, hormoniza\u00e7\u00e3o, utiliza\u00e7\u00e3o de pr\u00f3tese, al\u00e9m de obter novos documentos com o nome social. \u201cNo in\u00edcio, a mudan\u00e7a tende a estar relacionada \u00e0 experi\u00eancia corporal. Depois, vem a retifica\u00e7\u00e3o dos documentos. Mas \u00e9 um processo singular, que varia a cada pessoa&#8221;.<br \/>N\u00edcolas Oliveira, por exemplo, iniciou sua transforma\u00e7\u00e3o h\u00e1 pouco mais de um ano e meio. \u201cComecei mudando as roupas, depois o corte de cabelo, e, quando me senti preparado, fui para a fase de \u2018sair do arm\u00e1rio\u2019, mudar de nome, pronomes, ir ao psic\u00f3logo e procurar os m\u00e9dicos necess\u00e1rios para poder iniciar a hormoniza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/div>\n<table cellpadding=\"0\" cellspacing=\"0\" style=\"float: right; margin-left: 1em; text-align: right;\">\n<tbody>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/3.bp.blogspot.com\/-mxXUN9fZN94\/Wc4-K5trycI\/AAAAAAAAGW0\/a6f5BJ6I3WsgPuZYaHgkqrzExmtcwbYoACEwYBhgL\/s1600\/n%25C3%25ADcolas.jpg\" style=\"clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" border=\"0\" data-original-height=\"640\" data-original-width=\"384\" height=\"320\" src=\"https:\/\/3.bp.blogspot.com\/-mxXUN9fZN94\/Wc4-K5trycI\/AAAAAAAAGW0\/a6f5BJ6I3WsgPuZYaHgkqrzExmtcwbYoACEwYBhgL\/s320\/n%25C3%25ADcolas.jpg\" width=\"192\" \/><\/a><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: left;\">&nbsp;N\u00edcolas Oliveira<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div style=\"text-align: justify;\">Cec\u00edlia comenta que n\u00e3o se transformou porque, de certa forma, sempre foi a Cec\u00edlia. \u201cO que costumo falar para as pessoas, que me enxergam como uma pessoa diferente, \u00e9 que quando crian\u00e7a me impuseram uma socializa\u00e7\u00e3o masculina \u00e0 qual fui contra, e hoje tenho a liberdade de performar meus aspectos de feminilidade\u201d.<br \/>Ametista iniciou sua hormoniza\u00e7\u00e3o em 2016. \u201cFoi incr\u00edvel poder ser quem realmente eu era, e sempre fui mesmo sabendo como seria a minha viv\u00eancia. Tive muito apoio dos verdadeiros amigos\u201d. J\u00e1 para Paula, 19, o processo foi mais delicado, agravado pela falta de informa\u00e7\u00f5es em Sorocaba. Enquanto Alice aborda o processo doloroso e, ao mesmo tempo, libertador. \u201cSofri a transforma\u00e7\u00e3o de todas as maneiras. Mas por dentro estava me sentindo completa, sentindo o come\u00e7o de uma vida real\u201d, completa Alice.<br \/>O psic\u00f3logo ressalta que \u00e9 importante respeitar a transi\u00e7\u00e3o de cada um, porque se d\u00e1 de forma individual. \u201cO processo de fato pode ser muito doloroso e \u00e9, sobretudo, por uma sociedade transf\u00f3bica. Uma sociedade violenta, que agride das formas mais sutis at\u00e9 as mais agressivas, como espancamentos e mortes&#8221;, afirma o psic\u00f3logo.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><b>Viol\u00eancia<\/b> \u2013 Dados da Organiza\u00e7\u00e3o N\u00e3o-Governamental Transgender Europe (TGEu), publicados em 2016, apontam que 868 travestis e transexuais foram mortos nos \u00faltimos oito anos no pa\u00eds.&nbsp; N\u00famero que deixa o Brasil no topo do ranking dos pa\u00edses com mais registros de assassinatos de pessoas transg\u00eaneras. S\u00f3 em 2017, entre janeiro e setembro, o site \u201cQuem a homotransfobia matou hoje?\u201d, do Grupo Gay da Bahia (GGB), j\u00e1 registrou 136 homic\u00eddios contra travestis e transexuais no pa\u00eds.<br \/>N\u00edcolas se sente assustado com esses n\u00fameros, n\u00e3o s\u00f3 por saber que \u00e9 o pa\u00eds que mais mata, mas pela perspectiva de vida. \u201cTodo dia se l\u00ea uma mat\u00e9ria sobre alguma pessoa trans que foi assassinada. A gente acaba ficando com medo, mas tem sempre que manter a cabe\u00e7a erguida e continuar lutando. Sem luta n\u00e3o tem mudan\u00e7a\u201d. Noah sente tanto com medo quanto indigna\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 dif\u00edcil porque n\u00e3o existem campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o nas escolas e em nenhum meio de comunica\u00e7\u00e3o. Pessoas trans s\u00e3o sempre representadas de forma negativa ou c\u00f4mica. Todo o esfor\u00e7o que o movimento trans tem em informar e em punir pessoas transf\u00f3bicas \u00e9 substitu\u00eddo por atos preconceituosos\u201d.<br \/>Clarice Almeida, 23, se sente \u201cassustada e indignada\u201d. Cec\u00edlia acha p\u00e9ssimo. \u201cVoc\u00ea consegue se imaginar saindo de casa sem saber se vai voltar?\u201d, questiona. J\u00e1 Alice conta que quando descobriu o ranking de assassinatos ficou em p\u00e2nico por dois meses e n\u00e3o conseguia sair de casa sozinha. \u201cDepois, comecei a pensar e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que deveria enfrentar meu medo. Afinal, acordar sendo trans no pa\u00eds que mais mata travestis e transexuais do mundo \u00e9 uma vit\u00f3ria\u201d.<br \/>\u201cAp\u00f3s tanta coisa, hoje me sinto livre, mais feliz e at\u00e9 mais saud\u00e1vel\u201d, alega N\u00edcolas. Orgulho, felicidade, liberdade, realiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o palavras que passaram a fazer parte da vida dessas pessoas. \u201cSou orgulhosa da mulher que me tornei. \u00c9 importante saber que todas as formas de amor s\u00e3o maravilhosas, todas as express\u00f5es de g\u00eanero s\u00e3o incr\u00edveis e que todas as formas de ser s\u00e3o lindas\u201d, afirma Alice. \u201cSou muito mais a atriz da minha pe\u00e7a do que era antes. Eu era mais uma marionete vivendo sob os moldes da minha fam\u00edlia, e hoje consigo trilhar o meu caminho em busca da minha felicidade\u201d, finaliza Clarice.<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div style=\"line-height: 150%; text-align: left;\"><span style=\"font-family: &quot;times new roman&quot; , serif; line-height: 150%;\"><span style=\"font-size: x-small;\"><i>Texto e fotos: Beatriz Oliveira\/Ag\u00eanciaJor<\/i><\/span><\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trans-for-mar: Fazer adquirir ou adquirir novo aspecto, nova forma, novo car\u00e1ter; Fazer mudar ou mudar de uma condi\u00e7\u00e3o a outra.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-288","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uncategorized\/\" rel=\"category tag\">Uncategorized<\/a>","tag_info":"Uncategorized","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}