{"id":3140,"date":"2025-05-08T10:47:26","date_gmt":"2025-05-08T13:47:26","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=3140"},"modified":"2025-05-08T10:47:27","modified_gmt":"2025-05-08T13:47:27","slug":"quando-a-ciencia-tem-voz-de-mulher-a-trajetoria-de-erica-nunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/05\/08\/quando-a-ciencia-tem-voz-de-mulher-a-trajetoria-de-erica-nunes\/","title":{"rendered":"Quando a ci\u00eancia tem voz de mulher: a trajet\u00f3ria de \u00c9rica Nunes"},"content":{"rendered":"\n<p><em>S\u00e9rie \u201cmulheres na ci\u00eancia\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Gabriela Vasconcelos, Giuliana Ribeiro e Kau\u00e3 Rocha (Focas na Ci\u00eancia e Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"812\" height=\"607\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-08-at-10.05.42.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3141\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-08-at-10.05.42.jpeg 812w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-08-at-10.05.42-300x224.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-08-at-10.05.42-768x574.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 812px) 100vw, 812px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gabriela Vasconcelos (\u00e0 esquerda), Giuliana Ribeiro (ao centro), Kau\u00e3 Rocha, \u00c9rica Nunes e sua filha Ana J\u00falia &#8211; Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s das publica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e dos gr\u00e1ficos meticulosos, h\u00e1 tamb\u00e9m ci\u00eancia feita de madrugada, entre terapias infantis e cadernos de anota\u00e7\u00f5es. Uma ci\u00eancia que se costura no cotidiano e rompe com o ordin\u00e1rio. \u00c9rica Nunes, educadora e pesquisadora, \u00e9 uma dessas mulheres que n\u00e3o esperaram autoriza\u00e7\u00e3o para pertencer \u00e0 ci\u00eancia: ela entrou com os dois p\u00e9s e um cora\u00e7\u00e3o inquieto.<\/p>\n\n\n\n<p>Na penumbra acolhedora de uma sala de r\u00e1dio universit\u00e1ria, n\u00f3s, estudantes de Jornalismo, escutamos. Escutar \u00e9 diferente de ouvir. Escutar exige presen\u00e7a \u2014 e \u00c9rica Nunes \u00e9 pura presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 microfones ligados, mas cada palavra dela soa como se atravessasse ondas de uma frequ\u00eancia mais densa: a da experi\u00eancia. Ela fala com as m\u00e3os, com os olhos, com sil\u00eancios entre as frases. Pesquisadora, mulher, m\u00e3e, professora, <em>m\u00e3eprofessora<\/em>. Aqui, ela \u00e9 verbo: ela pesquisa, ela ensina, ela rompe.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9rica chegou sem jaleco, mas com um curr\u00edculo de viv\u00eancias e um olhar afiado sobre o que significa fazer pesquisa no Brasil \u2014 e ser mulher nesse processo. Professora da rede municipal de Sorocaba, mestre em Educa\u00e7\u00e3o e doutoranda no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Uniso, m\u00e3e de Ana J\u00falia, de 16 anos, e Luiz Augusto, de 12 anos \u2014 ambos dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) \u2014 ela fala com a fluidez de quem j\u00e1 transformou sua trajet\u00f3ria em m\u00e9todo cient\u00edfico. N\u00e3o por hero\u00edsmo ou por voca\u00e7\u00e3o, mas por convic\u00e7\u00e3o. \u201cA palavra \u2018cotidiano\u2019 \u00e9 o que vem me motivando at\u00e9 hoje\u201d, disse logo nos primeiros minutos. E esse cotidiano n\u00e3o \u00e9 obst\u00e1culo. \u00c9 mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua trajet\u00f3ria, pesquisa e vida n\u00e3o se separam. \u00c9rica foi introduzida \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ainda na gradua\u00e7\u00e3o, estudando acessibilidade arquitet\u00f4nica nas escolas. Mas foi na conviv\u00eancia com os filhos que a pr\u00e1tica se aprofundou. Ela n\u00e3o romantiza essa experi\u00eancia, tampouco a apresenta como sacrif\u00edcio. Ao contr\u00e1rio: transforma cada gesto em ferramenta de observa\u00e7\u00e3o, cada adapta\u00e7\u00e3o em metodologia. \u201cEu tive que produzir ci\u00eancia dentro da minha pr\u00f3pria casa\u201d, afirmou com tranquilidade. Uma ci\u00eancia que se constr\u00f3i no ritmo do tempo real, da escuta sens\u00edvel, das pequenas solu\u00e7\u00f5es que surgem da necessidade e se organizam como conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o mestrado, \u00c9rica escolheu a autoetnografia como m\u00e9todo. Fez da pr\u00f3pria trajet\u00f3ria campo de an\u00e1lise, articulando seu lugar como educadora e como m\u00e3e \u2014 mas sem hierarquias entre essas identidades. Ela prop\u00f4s o termo <em>m\u00e3eprofessora <\/em>como s\u00edntese de uma experi\u00eancia que n\u00e3o se divide, que atravessa. \u201cFoi uma quest\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o. Fiz a pesquisa de madrugada\u201d, contou. N\u00e3o como drama, mas como escolha poss\u00edvel dentro de uma estrutura que, muitas vezes, ainda falha em oferecer suporte real \u00e0s mulheres na academia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os filhos, Ana J\u00falia e Luiz Augusto, s\u00e3o parte ativa do processo que gerou artefatos pedag\u00f3gicos, reformula\u00e7\u00f5es de sala de aula e novas estrat\u00e9gias para tornar o ensino de fato acess\u00edvel. \u00c9rica n\u00e3o imp\u00f4s um modelo de aprendizagem \u00e0 filha \u2014 adaptou os meios para que ela se expressasse como \u00e9. Criou livros de feltro, jogos com velcro, repensou o uso do l\u00e1pis e do papel. \u201cQuando a Ana escrevia, ela n\u00e3o sabia utilizar o l\u00e1pis. Ent\u00e3o, n\u00f3s fizemos materiais com velcro. Ela usava para fazer pareamento de letras, identificar letras iniciais\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso n\u00e3o se deu por instinto ou improviso: foi pesquisa sistem\u00e1tica, embasada, conectada com uma pedagogia da diferen\u00e7a e com a filosofia da presen\u00e7a, como ela nomeia. Para \u00c9rica, ensinar \u00e9 reconhecer a exist\u00eancia do outro em sua inteireza. \u201cN\u00e3o \u00e9 simplesmente estar na escola e ensinar, mas \u00e9 o quanto essa presen\u00e7a rompe com o cotidiano que as pessoas levam diariamente como uma certeza.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da conversa, ela voltou \u00e0 import\u00e2ncia da coletividade \u2014 da forma\u00e7\u00e3o de redes de apoio, de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas, da atua\u00e7\u00e3o docente mais consciente e menos t\u00e9cnica. Sem apontar culpados, ela prop\u00f4s caminhos: reconfigura\u00e7\u00e3o das salas, forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de professores, constru\u00e7\u00e3o de materiais diversos. N\u00e3o para responder a um \u00fanico perfil de aluno, mas para reconhecer a pluralidade de modos de aprender.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua cr\u00edtica \u00e0 falsa ideia de inclus\u00e3o \u2014 aquela que se esgota na matr\u00edcula \u2014 n\u00e3o veio com den\u00fancia vazia, mas com proposi\u00e7\u00e3o concreta. \u201cA palavra \u2018inclus\u00e3o\u2019 \u00e9 utilizada, mas muitas vezes s\u00f3 para garantir o direito legal de estar na escola. Isso n\u00e3o garante perman\u00eancia nem aprendizagem.\u201d Para ela, incluir \u00e9 transformar estruturas, n\u00e3o ajustar o sujeito a um sistema imut\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A <em>m\u00e3eprofessora <\/em>tamb\u00e9m falou da ci\u00eancia em seu sentido pleno: pesquisa como pr\u00e1tica transformadora, como extens\u00e3o do pensamento cr\u00edtico, como ferramenta de acesso coletivo ao saber. E refor\u00e7ou que esse trabalho n\u00e3o pertence a um ideal de cientista isolado, de jaleco branco e tubos de ensaio. \u201cPrecisamos tirar esse cinema de que ci\u00eancia \u00e9 s\u00f3 para quem est\u00e1 num laborat\u00f3rio. \u00c0s vezes ela acontece em casa, na escola, na rua, nos hospitais, nos espa\u00e7os mais esquisitos e cotidianos poss\u00edveis.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9rica Nunes deixou uma mensagem que ecoou forte: \u201cA ci\u00eancia precisa acontecer. As coisas mudam. N\u00f3s vamos pesquisar outras coisas, motivadas por outras pesquisas. A ci\u00eancia gira.\u201d E com ela giram mundos antes paralisados pela ignor\u00e2ncia, pelo preconceito, pela in\u00e9rcia institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>E se a ci\u00eancia gira, como ela diz, \u00e9 porque \u00e9 movida por perguntas. E as perguntas que \u00c9rica levanta partem do real: como ensinar quando o corpo aprende de outra forma? Como tornar o conhecimento tang\u00edvel a quem foi historicamente afastado dele? Como fazer da educa\u00e7\u00e3o um espa\u00e7o de pertencimento, e n\u00e3o de adequa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 lamento em sua fala. H\u00e1 rigor. H\u00e1 pol\u00edtica. H\u00e1 afeto como ferramenta pedag\u00f3gica. H\u00e1 consci\u00eancia do lugar que ocupa e da responsabilidade de ampliar esse espa\u00e7o para outras mulheres, outros pesquisadores, outras fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>No final da conversa, quando j\u00e1 eram quase 20h40 da noite, colocando os dois bra\u00e7os lado a lado, \u00c9rica nos mostrou suas tatuagens. \u00c9 a primeira palavra escrita por Ana J\u00falia, prometida como s\u00edmbolo do aprendizado conquistado \u2014 n\u00e3o por milagre, nem por imposi\u00e7\u00e3o, mas por continuidade. \u201cEu prometi que, quando ela escrevesse, eu tatuaria. E t\u00e1 aqui.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"811\" height=\"608\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-08-at-10.06.04.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3142\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-08-at-10.06.04.jpeg 811w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-08-at-10.06.04-300x225.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/WhatsApp-Image-2025-05-08-at-10.06.04-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 811px) 100vw, 811px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Giuliana Ribeiro<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00f3s, estudantes, ouvimos em sil\u00eancio. N\u00e3o sa\u00edmos com respostas prontas, mas com perguntas melhores.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque talvez essa seja a marca mais forte de \u00c9rica Nunes: ela pesquisa n\u00e3o para resolver, mas para abrir. Sua trajet\u00f3ria n\u00e3o oferece modelos a seguir, mas crit\u00e9rios para pensar. E, sobretudo, afirma uma ideia urgente: a ci\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 distante \u2014 ela mora onde h\u00e1 pr\u00e1tica, onde h\u00e1 v\u00ednculo, onde h\u00e1 escuta.<\/p>\n\n\n\n<p>E, naquela noite, estava ali: sentada numa cadeira qualquer, numa sala qualquer, dizendo com palavras inteiras que ningu\u00e9m precisa pedir licen\u00e7a para pensar o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Material produzido na disciplina \u201cAg\u00eancia Universit\u00e1ria de Not\u00edcias sobre Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o\u201d, sob orienta\u00e7\u00e3o da professora M\u00f4nica Ribeiro Gomes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rie \u201cmulheres na ci\u00eancia\u201d Por Gabriela Vasconcelos, Giuliana Ribeiro e Kau\u00e3 Rocha (Focas na Ci\u00eancia e Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,9,37,14],"tags":[30,41,29,28],"class_list":["post-3140","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-online","category-sorocaba","category-uniso","tag-focas","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/sorocaba\/\" rel=\"category tag\">Sorocaba<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3140","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3140"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3140\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3143,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3140\/revisions\/3143"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3140"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}