{"id":3902,"date":"2025-08-28T15:37:37","date_gmt":"2025-08-28T18:37:37","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=3902"},"modified":"2025-08-28T20:22:59","modified_gmt":"2025-08-28T23:22:59","slug":"as-feridas-causadas-na-infancia-podem-durar-para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/08\/28\/as-feridas-causadas-na-infancia-podem-durar-para-sempre\/","title":{"rendered":"As feridas causadas na inf\u00e2ncia podem durar para sempre"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Especialistas alertam para os preju\u00edzos que o preconceito pode causar na forma\u00e7\u00e3o emocional e social das crian\u00e7as na fase mais importante do seu desenvolvimento, a primeira inf\u00e2ncia<br><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Rafaela Sallum (Ag\u00eancia Focas &#8211; Jornalismo Uniso)<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8330-1-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3922\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8330-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8330-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8330-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8330-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8330-1.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Manoel Francisco Filho &#8211;\nFoto: Espet\u00e1culo Carolinas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O \u201cM\u00eas da Primeira Inf\u00e2ncia\u201d ou &#8220;Agosto Verde&#8221;, estabelecido pela &nbsp;Lei Federal n\u00ba 14.617\/23, \u00e9 dedicado \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o dos direitos das crian\u00e7as de zero a seis anos no Brasil. O principal objetivo \u00e9 conscientizar a popula\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de uma inf\u00e2ncia protegida e sobre como essa fase da vida afeta o desenvolvimento f\u00edsico, emocional, cognitivo e socioemocional das pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo estudos da Unicef Brasil e do Centro Infantil de Desenvolvimento da Universidade de Harvard, o racismo estrutural afeta as pessoas desde o nascimento, interferindo na sa\u00fade e no desempenho educacional de crian\u00e7as negras e ind\u00edgenas. O professor da rede p\u00fablica de ensino e escritor Manoel Francisco Filho, 45 anos, concorda com os resultados das pesquisas e confirma essa percep\u00e7\u00e3o a partir de sua experi\u00eancia profissional e tamb\u00e9m pessoal. Ele conta que come\u00e7ou a escrever livros infantis por conta da sua filha, pois sentia dificuldade em achar bonecas com o mesmo tom de pele dela. Para o escritor, a literatura possibilita que a crian\u00e7a viva a inf\u00e2ncia sem os limites impostos pelo racismo. \u201cA perspectiva \u00e9 ressignificar a possibilidade de uma inf\u00e2ncia que permita a negritude em toda sua potencialidade, independente da cor da pele.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia \u00e9 um per\u00edodo fundamental para a forma\u00e7\u00e3o da identidade, da autoestima e do senso de pertencimento de uma pessoa. Os acontecimentos registrados na primeira inf\u00e2ncia influenciam diretamente na vida adulta, sejam traumas f\u00edsicos, psicol\u00f3gicos ou emocionais. Para a psicanalista Maria Tereza Ferreira, 45 anos, que tamb\u00e9m \u00e9 escritora, o racismo estrutural cria um ambiente onde as crian\u00e7as negras muitas vezes s\u00e3o percebidas como inferiores, o que impacta diretamente na sua autoestima. Isso pode levar a um sentimento de inadequa\u00e7\u00e3o e de n\u00e3o pertencimento, limitando sua capacidade de sonhar e de se projetar no futuro com potencial ilimitado. Por isso, a literatura infantil assume um papel t\u00e3o fundamental na constru\u00e7\u00e3o da identidade da crian\u00e7a, ainda mais em um pa\u00eds miscigenado como o Brasil em que, embora a maioria da popula\u00e7\u00e3o seja negra &#8211; pretos e pardos, de acordo com a classifica\u00e7\u00e3o do IBGE -, os padr\u00f5es valorizados s\u00e3o aqueles relacionados ao universo europeu, branco. Assim, por meio da literatura \u00e9 poss\u00edvel apresentar outras perspectivas e incentivar caminhos diversos para alimentar a imagina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, n\u00e3o se limitando, por exemplo, a uma ideia de \u00c1frica m\u00edtica, mas explorando a riqueza e a diversidade do continente africano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A import\u00e2ncia do brincar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cbrincar\u201d \u00e9 visto muitas vezes como um ato de lazer e acaba n\u00e3o recebendo a devida import\u00e2ncia que tem. Por meio de brincadeiras, as crian\u00e7as desenvolvem a coordena\u00e7\u00e3o motora, estimulada em atividades como correr, pular corda e jogar bola; a socializa\u00e7\u00e3o, incentivada com tarefas em grupos; e a forma\u00e7\u00e3o emocional, acionada pela imagina\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a em jogos de \u201cfaz de conta\u201d que ensinam os pequenos a lidar com seus sentimentos, incluindo a frustra\u00e7\u00e3o. Para a estudante do \u00faltimo semestre do curso de Terapia Ocupacional (TO), Rafaela Assaf Rivera, 21 anos, as brincadeiras realizadas durante o atendimento em seus est\u00e1gios de TO s\u00e3o de suma import\u00e2ncia. \u201cO brincar \u00e9 a principal ocupa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, porque \u00e9 a atividade mais significativa nesse per\u00edodo. Por meio das brincadeiras, a crian\u00e7a explora o mundo, experimenta pap\u00e9is, descobre suas habilidades e expressa emo\u00e7\u00f5es.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As brincadeiras d\u00e3o autonomia para as crian\u00e7as, pois elas aprendem a tomar decis\u00f5es, resolver problemas e experimentar novas possibilidades.&nbsp; O professor e escritor Francisco Filho concorda que \u201co brincar desvenda possibilidades, potencialidades que possibilitam viv\u00eancias para al\u00e9m da experi\u00eancia de um corpo, seja ele negro ou n\u00e3o. Quando uma crian\u00e7a tem a possibilidade de experienciar a diversidade ela se reconhece no outro, cria la\u00e7os emp\u00e1ticos e afetuosos se livrando das constru\u00e7\u00f5es imag\u00e9ticas racistas.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O direito ao brincar \u00e9 previsto por lei e \u00e9 considerado um dever do Estado, da fam\u00edlia e da sociedade, sendo essencial para o crescimento de todas as crian\u00e7as. Durante o brincar, as crian\u00e7as podem reproduzir atitudes do cotidiano e, para a estudante de TO Rafaela, quando surgem situa\u00e7\u00f5es de preconceito ou atitudes racistas, \u00e9 necess\u00e1rio investigar de onde a crian\u00e7a est\u00e1 trazendo isso. Muitas vezes as crian\u00e7as repetem uma fala sem entender seu real significado. \u201cNesses momentos, \u00e9 fundamental manter a calma, se a crian\u00e7a se assustar com a rea\u00e7\u00e3o do adulto, pode n\u00e3o conseguir explicar onde ouviu a fala. Dessa forma, ela talvez nunca mais repita a frase, mas tamb\u00e9m n\u00e3o entender\u00e1 o motivo porque n\u00e3o deve repetir.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"1024\" data-id=\"3913\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8842-1-576x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3913\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8842-1-576x1024.jpg 576w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8842-1-169x300.jpg 169w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8842-1.jpg 707w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rafaela Assaf Rivera-<br>Foto: arquivo&nbsp;pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"1024\" data-id=\"3914\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8841-576x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3914\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8841-576x1024.jpg 576w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8841-169x300.jpg 169w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8841-768x1365.jpg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8841-864x1536.jpg 864w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/IMG_8841.jpg 933w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Atividade de Terapia Ocupacional- <br>Foto: Arquivo pessoal, Rafaela&nbsp;Assaf&nbsp;Rivera.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A import\u00e2ncia da representatividade durante a inf\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A lei 10.639\/2003 tornou obrigat\u00f3rio o ensino de hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira e ind\u00edgena nas escolas e contribui para uma forma\u00e7\u00e3o mais inclusiva e que combate o preconceito racial. Por isso, as escolas precisam de materiais did\u00e1ticos adequados e de professores capacitados para desenvolver atividades que promovam a diversidade racial. A psicanalista Maria Tereza Ferreira ressalta a import\u00e2ncia da legisla\u00e7\u00e3o que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o (LDB). \u201cEssa lei [10.639\/2003] garante que as crian\u00e7as negras tenham acesso a refer\u00eancias positivas, conectando-se com a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e com a contribui\u00e7\u00e3o de personalidades negras para a constru\u00e7\u00e3o do Brasil. A promo\u00e7\u00e3o da diversidade cultural \u00e9 um passo vital para combater o preconceito e refor\u00e7ar o respeito \u00e0s diferen\u00e7as.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/WhatsApp-Image-2025-08-28-at-18.57.42-1-1024x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3918\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/WhatsApp-Image-2025-08-28-at-18.57.42-1-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/WhatsApp-Image-2025-08-28-at-18.57.42-1-300x300.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/WhatsApp-Image-2025-08-28-at-18.57.42-1-150x150.jpeg 150w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/WhatsApp-Image-2025-08-28-at-18.57.42-1-768x768.jpeg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/WhatsApp-Image-2025-08-28-at-18.57.42-1.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A psicanalista Maria Tereza Ferreira. Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para que a diversidade e equidade racial deixem de ser promessas e se tornem a\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas, Maria Tereza defende que educadores e outros profissionais da educa\u00e7\u00e3o passem por letramento racial. Al\u00e9m disso, ela defende que sejam criadas bibliotecas com \u00eanfase na literatura infantil negra e que haja uma garantia de que os livros representem a diversidade racial do Brasil. Essas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundamentais para garantir, segundo Maria Teresa, uma inf\u00e2ncia mais saud\u00e1vel e inclusiva porque contribuem para a cria\u00e7\u00e3o de um ambiente de respeito para todas as crian\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A inf\u00e2ncia \u00e9 a fase da vida em que se forma a autopercep\u00e7\u00e3o e a percep\u00e7\u00e3o do mundo. Quando n\u00e3o existem representa\u00e7\u00f5es externas que permitam a auto identifica\u00e7\u00e3o, um sentimento de inferioridade nas crian\u00e7as pode ser criado. O jornalista Rafael Alves Sobrinho Filho, 38 anos, relembra que a sua inf\u00e2ncia foi marcada por preconceitos. Pessoas \u00e0 sua volta o identificavam como o menino preto, criado pela av\u00f3, que era bolsista e que n\u00e3o tinha dinheiro para comprar lanche na cantina. Para Filho, o racismo impactou sua vida adulta porque ele demorou para acreditar em si mesmo, a ponto de acreditar que uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade, ou mesmo uma alimenta\u00e7\u00e3o melhor e o lazer n\u00e3o eram para ele. \u201cPor ser o \u2018pretinho bolsista\u2019 da minha turma, eu ouvia &#8211; e guardava na minha mente &#8211; que eu n\u00e3o poderia ter as mesmas profiss\u00f5es que meus colegas brancos da sala de aula. Me lembro de ouvir falas do tipo: \u2018voc\u00ea n\u00e3o tem dinheiro nem para pagar a escola, imagina fazer uma faculdade um dia\u2019. Era complicado porque eu n\u00e3o tinha em quem me espelhar, eu n\u00e3o tive professores negros, na maioria das profissi\u00f5es de alto escal\u00e3o eu s\u00f3 tinha refer\u00eancias brancas. Ent\u00e3o quando ia ter feira de profiss\u00f5es na escola, eu sempre falava que queria ser jogador de futebol ou pagodeiro, pois eram os ambientes onde eu conseguia visualizar mais pessoas com tons de pele mais pr\u00f3ximos do meu.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-08-28-as-15.37.42_e0157c83-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3904\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-08-28-as-15.37.42_e0157c83-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-08-28-as-15.37.42_e0157c83-300x200.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-08-28-as-15.37.42_e0157c83-768x512.jpg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Imagem-do-WhatsApp-de-2025-08-28-as-15.37.42_e0157c83.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rafael Alves Sobrinho Filho &#8211; <br>Foto: Arquivo MeetCom<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando crian\u00e7a, Rafael Filho n\u00e3o entendia a gravidade dos epis\u00f3dios, ele tamb\u00e9m n\u00e3o recebia orienta\u00e7\u00e3o em casa ou na escola \u00e0 respeito, por isso&nbsp; n\u00e3o sabia lidar com as situa\u00e7\u00f5es. Filho comenta que s\u00f3 foi entender que tinha sofrido racismo depois de adulto quando passou por letramento racial. \u201cEntre 1994 e 1996, n\u00e3o me recordo exatamente. Eu tinha entre 8 e 9 anos de idade e cursava a 3\u00aa s\u00e9rie do ensino fundamental na Escola Rosemary de Melo Moreira Pereira, no Parque Vit\u00f3ria R\u00e9gia, em Sorocaba. Os Mamonas Assassinas estavam no auge e eu era muito f\u00e3 deles. Teve uma atividade cultural, n\u00e3o me recordo se era dia dos pais ou das m\u00e3es ou qualquer outra data especial, mas me lembro da escola cheia de pessoas para assistir as apresenta\u00e7\u00f5es dos alunos. Eu e algumas crian\u00e7as decidimos fazer um playback dos Mamonas, eu seria o Dinho. Me lembro de ensaiar com a professora e tudo mais. No dia da apresenta\u00e7\u00e3o, um pouco antes de subir ao palco, enquanto aguard\u00e1vamos para entrar, me lembro de v\u00e1rias crian\u00e7as e adultos perguntando o que seria a nossa apresenta\u00e7\u00e3o e, ao explicar os detalhes, eu ouvi os coment\u00e1rios: \u2018nossa, mas como voc\u00ea vai ser o Dinho se voc\u00ea \u00e9 preto?\u2019 \u2018Nossa, esse Dinho est\u00e1 meio queimadinho, n\u00e3o?\u2019 \u2018N\u00e3o tem como voc\u00ea ser ele, olha o seu cabelo e olha o dele\u2019.\u201d Rafael Filho apresentou o n\u00famero ensaiado para o dia, mas depois disso nunca mais teve coragem de subir no palco da escola. Hoje, ele entende que o sentimento de rejei\u00e7\u00e3o que nutriu, em grande parte da sua vida, foi por causa do racismo que sofreu na inf\u00e2ncia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O sentimento de inferioridade causado pelo racismo tamb\u00e9m afetou a autoestima do jornalista e, atualmente, colunista da Ag\u00eancia Focas. O cabelo era um dos motivos da sua inseguran\u00e7a, algo que foi alvo n\u00e3o apenas no epis\u00f3dio da apresenta\u00e7\u00e3o da escola, mas tamb\u00e9m em outras situa\u00e7\u00f5es. \u201cEu sempre tive vontade de deix\u00e1-lo crescer, mas as situa\u00e7\u00f5es de racismo que sofri durante a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia me tiraram a coragem de assumir meus cachos e ter o penteado que eu quisesse. At\u00e9 hoje, \u00e0s vezes, me pego pensando: \u2018ser\u00e1 que n\u00e3o est\u00e1 muito bagun\u00e7ado? Estou apresent\u00e1vel?\u2019. N\u00e3o assumir nossos cabelos e penteados afros \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o social que carregamos desde a coloniza\u00e7\u00e3o. Durante a minha transi\u00e7\u00e3o de cabelos extremamente curtos para o tamanho que tem hoje, creio que em 2023, no meu ambiente de trabalho e em sala de aula da gradua\u00e7\u00e3o, ouvi de uma colega de trabalho e de um professor: \u2018est\u00e1 na hora de cortar esse tucho a\u00ed, est\u00e1 parecendo um mendigo&#8217;.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a\u00e7\u00f5es como aquelas que d\u00e3o conta da lei 10.639\/2003 e como a produ\u00e7\u00e3o de livros com personagens que permitam \u00e0s crian\u00e7as se sentirem representadas e reconhecidas s\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1rias. No m\u00eas em que a primeira inf\u00e2ncia \u00e9 o centro das aten\u00e7\u00f5es, observar a presen\u00e7a do racismo nessa fase da vida marca algumas iniciativas como o document\u00e1rio \u201cMosaico&nbsp; das inf\u00e2ncias &#8211; Primeira inf\u00e2ncia tamb\u00e9m \u00e9 territ\u00f3rio e identidade\u201d, que estreou no \u00faltimo dia 15 no canal do YouTube da Ag\u00eancia Alma Preta e pode ser acessado pelo link <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OMBVZ-KIt5Y\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=OMBVZ-KIt5Y<\/a>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Especialistas alertam para os preju\u00edzos que o preconceito pode causar na forma\u00e7\u00e3o emocional e social das crian\u00e7as na fase mais<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,9,37,14],"tags":[30,41,29,28],"class_list":["post-3902","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-online","category-sorocaba","category-uniso","tag-focas","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/sorocaba\/\" rel=\"category tag\">Sorocaba<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3902","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3902"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3902\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3925,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3902\/revisions\/3925"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}