{"id":3960,"date":"2025-09-04T09:25:37","date_gmt":"2025-09-04T12:25:37","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=3960"},"modified":"2025-09-04T09:33:50","modified_gmt":"2025-09-04T12:33:50","slug":"por-que-os-governos-nao-deveriam-tratar-a-depressao-como-uma-doenca-fisiologica-mas-um-problema-economico-e-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/09\/04\/por-que-os-governos-nao-deveriam-tratar-a-depressao-como-uma-doenca-fisiologica-mas-um-problema-economico-e-social\/","title":{"rendered":"Por que os governos n\u00e3o deveriam tratar a depress\u00e3o como uma doen\u00e7a fisiol\u00f3gica, mas um problema econ\u00f4mico e social?"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Especial S\u00e9rie Setembro Amarelo \u2013<\/em> De acordo com a ONU, servi\u00e7os de sa\u00fade preventiva sofrem com subfinanciamento, sendo 3% do gasto total em sa\u00fade nos pa\u00edses de alta renda e 13% nos pa\u00edses de baixa renda<\/p>\n\n\n\n<p>Por Ana Torres (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<p>A depress\u00e3o \u00e9 considerada uma doen\u00e7a desde o s\u00e9culo XIX, e a partir de 2015 o Brasil adota a campanha do setembro Amarelo para se dedicar a preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio. Entretanto, de acordo com a OMS, cerca de 280 milh\u00f5es de pessoas no mundo sofrem com a doen\u00e7a, no Brasil 11,7 milh\u00f5es s\u00e3o acometidos pelo problema.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro relat\u00f3rio, chamado <a href=\"https:\/\/docs.un.org\/en\/A\/79\/162\">\u201cEconomia do Burnout: Pobreza e Sa\u00fade Mental\u201d<\/a> de 2024, feito pelo relator da ONU Olivier De Schutter, apontou que o transtorno n\u00e3o se desenvolve apenas de forma cr\u00f4nica e fisiol\u00f3gica, mas que as inseguran\u00e7as econ\u00f4micas, desempregos e subempregos s\u00e3o grandes causadores de depress\u00e3o, ansiedade e suic\u00eddios.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sintomas e Impactos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o psicanalista e professor universit\u00e1rio Ant\u00f4nio Jose de Souza, de 42 anos, a depress\u00e3o \u00e9 caraterizada por uma apatia muito grande, falta de desejos e a inexist\u00eancia de perspectiva de futuro. Por\u00e9m, a doen\u00e7a pode demorar a ser percebida pois muitos continuam com suas obriga\u00e7\u00f5es, mesmo que de forma mec\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Souza, que \u00e9 doutor em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura pela Uniso, pontua que os impactos na vida de uma pessoa podem ser muito grandes, principalmente nos casos mais graves: \u201cquando \u00e9 esse n\u00edvel de depress\u00e3o, a pessoa n\u00e3o consegue fazer nada, n\u00e3o consegue trabalhar, se relacionar, ela n\u00e3o consegue nem pedir ajuda\u201d. Em casos mais leves \u00e9 percept\u00edvel o isolamento, pouca abertura ao contato e rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Grupos mais suscet\u00edveis<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A depress\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a multifatorial, que pode ter seu desenvolvimento por diversas raz\u00f5es (tend\u00eancias gen\u00e9ticas, perdas de rela\u00e7\u00f5es etc.). A psic\u00f3loga e mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela Unesp de Araraquara Nassim Golshan, de 31 anos, acrescenta que h\u00e1 fatores etnol\u00f3gicos e sociais que podem pesar no diagn\u00f3stico de depress\u00e3o: \u201ca pessoa estar em condi\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis de vida, de n\u00e3o ter rela\u00e7\u00f5es seguras, de n\u00e3o conseguir desenvolver autonomia ou a autoestima dela, est\u00e1 mais sucess\u00edvel a desenvolver um quadro depress\u00edvel e ter a remiss\u00e3o de sintomas\u201d. Pensando neste ponto, Nassim acrescenta que \u00e9 necess\u00e1rio olhar a influ\u00eancia de quest\u00f5es de classe, etnia, sexualidade, g\u00eanero e de defici\u00eancia no tratamento e cuidado do paciente.<\/p>\n\n\n\n<p>No relat\u00f3rio de 2024, de acordo com a OMS \u201centre 76% e 85% das pessoas com transtornos mentais graves n\u00e3o recebem tratamento em pa\u00edses de baixa e m\u00e9dia renda; nos pa\u00edses de alta renda, essa propor\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 de 35% a 50%\u201d. O grupo mais afetado no recorte econ\u00f4mico, acaba por consequ\u00eancia, sendo pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua, que em muitos casos n\u00e3o s\u00e3o assistidas por programas sociais ou profissionais na sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO quanto o senso comum tende a demonizar essa popula\u00e7\u00e3o [em situa\u00e7\u00e3o de rua]? \u2018Eles s\u00e3o bandidos, ladr\u00f5es, perigosos\u2019, mas nunca se para pensar que muitas dessas pessoas est\u00e3o com problemas psiqui\u00e1tricos graves\u201d, pontua Souza. \u201cTudo que acontece com eles, a viol\u00eancia ou consumo de drogas, \u00e9 uma quest\u00e3o social que as pessoas n\u00e3o entendem, tratando como uma quest\u00e3o policial, criticando qualquer pol\u00edtica p\u00fablica que enxergue de uma forma diferente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Nassim \u201c\u00e9 muito cruel pensar que para as pessoas no estado de muita calamidade social, o quadro de depress\u00e3o nem seria um diagn\u00f3stico, \u00e9 como se receber um diagn\u00f3stico nesse cen\u00e1rio fosse uma quest\u00e3o de privil\u00e9gio muito grande\u201d. A psic\u00f3loga diz ainda que em casos muito agravados, as pessoas sofrem com quadros psic\u00f3ticos ou esquizofr\u00eanicos. \u201cN\u00e3o \u00e9 que aquela pessoa n\u00e3o est\u00e1 suscet\u00edvel a se deprimir, mas \u00e9 que ela n\u00e3o gera tanta preocupa\u00e7\u00e3o na sociedade, n\u00e3o \u00e9 um sujeito produtivo, ent\u00e3o passa mais batido, sendo visto supostamente como uma amea\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Precariza\u00e7\u00e3o do trabalho<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator de adoecimento que atinge as classes mais desfavorecidas economicamente \u00e9 a qualidade de trabalho. De acordo com o relat\u00f3rio da ONU de 2024, assinado por Olivier De Schutter: \u201ca busca por competitividade gera ambientes inseguros, marcados por competi\u00e7\u00e3o constante, acelera\u00e7\u00e3o e medo, o que provoca cargas de estresse f\u00edsico e psicol\u00f3gico. [&#8230;] Pessoas sem emprego ou for\u00e7adas a trabalhos prec\u00e1rios enfrentam maior isolamento social, estigmatiza\u00e7\u00e3o e piores \u00edndices de sa\u00fade mental.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica de rendimento atualmente \u00e9 um ponto de aten\u00e7\u00e3o para o psicanalista Souza, o modo de produ\u00e7\u00e3o que segue a l\u00f3gica da autoexplora\u00e7\u00e3o \u00e9 um aumento de desigualdade. Para profissionais que n\u00e3o tem hor\u00e1rios de trabalho delimitados, \u00e9 percept\u00edvel a tend\u00eancia da precariza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade emocional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Problema coletivo e econ\u00f4mico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em m\u00e9dia, a perda monet\u00e1ria do mundo todo com quest\u00f5es que envolvem sa\u00fade mental \u00e9 da ordem de 1 trilh\u00e3o de d\u00f3lares por ano. No Brasil, 470 mil pessoas est\u00e3o afastadas de seus trabalhos por quest\u00f5es de sa\u00fade mental.<\/p>\n\n\n\n<p>Souza fala que \u201colhar para a sa\u00fade ps\u00edquica n\u00e3o como uma falha individual, mas como um problema que tamb\u00e9m tem uma parcela coletiva, talvez fique melhor\u201d. Entretanto para que isso aconte\u00e7a, ele pontua a necessidade de melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n\n\n\n<p>As orienta\u00e7\u00f5es mais comuns para uma pessoa que pede ajuda por conta de depress\u00e3o muitas vezes se concentram no que ela deve fazer. De acordo com Nassim, n\u00e3o se trata de ignorar que o indiv\u00edduo tem responsabilidades, mas esse discurso n\u00e3o leva em conta que os problemas muitas vezes v\u00e3o al\u00e9m do que o paciente pode fazer. \u201cS\u00e3o responsabilidades no campo de pol\u00edticas, no campo de decis\u00f5es, [&#8230;] a gente v\u00ea a jornada de trabalho 6&#215;1, como eu vou ajudar a pessoa a pensar em um horizonte de futuro quando ela n\u00e3o tem tempo de viver a vida dela?\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" data-id=\"3967\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.23-682x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3967\" 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Uniso)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" data-id=\"3964\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1024x682.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3964\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-300x200.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-768x512.jpeg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1536x1023.jpeg 1536w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nassim Golshan | Foto: Jo\u00e3o Aoki (Labcom \u2013 Uniso)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" data-id=\"3963\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1-1024x682.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3963\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1-1536x1023.jpeg 1536w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-1.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nassim Golshan | Foto: Jo\u00e3o Aoki (Labcom \u2013 Uniso)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" data-id=\"3962\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-2-1024x682.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3962\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-2-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-2-300x200.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-2-768x512.jpeg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/WhatsApp-Image-2025-09-04-at-00.12.24-2-1536x1023.jpeg 1536w, 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