{"id":4238,"date":"2025-10-01T10:26:35","date_gmt":"2025-10-01T13:26:35","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=4238"},"modified":"2025-10-01T10:26:35","modified_gmt":"2025-10-01T13:26:35","slug":"a-televisao-que-voce-conhecia-nao-existe-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/10\/01\/a-televisao-que-voce-conhecia-nao-existe-mais\/","title":{"rendered":"A televis\u00e3o que voc\u00ea conhecia n\u00e3o existe mais"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Transi\u00e7\u00f5es silenciosas, streamings e um tempo que n\u00e3o volta mais<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Fernanda Helena de Campos (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso).<\/p>\n\n\n\n<p>Toda noite, isso mesmo, especificamente a noite, as 20h30, na cama, sof\u00e1, ou at\u00e9 mesmo em um boteco, seja onde for, se voc\u00ea ligar a TV e passear pelos canais, haver\u00e1 um homem com semblante s\u00e9rio lhe saudando, ele j\u00e1 \u00e9 de casa. H\u00e1 29 anos, William Bonner ocupa esse hor\u00e1rio como se fosse um vizinho que sempre aparece na porta para dar as not\u00edcias do dia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"940\" height=\"704\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.15.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4239\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.15.jpeg 940w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.15-300x225.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.15-768x575.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o de autoria pr\u00f3pria<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A din\u00e2mica desse \u201crelacionamento\u201d muda quando na primeira semana de setembro h\u00e1 o an\u00fancio sobre sua sa\u00edda prevista para novembro. Eu particularmente uso esse termo, pois apesar da dist\u00e2ncia encurtada pelo televisor, h\u00e1 a necessidade de explicar a sa\u00edda, de avisar esse fim de ciclo, porque ele sabe que sua aus\u00eancia causar\u00e1 um estranhamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Inevitavelmente, deixar a bancada traz consigo a sensa\u00e7\u00e3o de que se encerra tamb\u00e9m outro peda\u00e7o de um tempo em que a televis\u00e3o deixa de ser o centro da vida brasileira, j\u00e1 que outros personagens ic\u00f4nicos deixaram a cena tamb\u00e9m; Silvio Santos, Faust\u00e3o e Galv\u00e3o Bueno. Claro que em alguns casos, se trataram de renova\u00e7\u00f5es, tendo em vista a idade dos apresentadores e a mudan\u00e7a de p\u00fablico, j\u00e1 em outros, por situa\u00e7\u00f5es mais singulares como quest\u00f5es de sa\u00fade e at\u00e9 de falecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto \u00e9, independente da gera\u00e7\u00e3o (boomer, milenial e at\u00e9 mesmo a Z), as vozes desses figur\u00f5es todo mundo j\u00e1 ouviu, todos conheciam ou pelo menos j\u00e1 ouviram falar, mas ser\u00e1 que isso vai ser poss\u00edvel no futuro? Todo mundo compartilhar desse \u201cconvidado\u201d especial que s\u00f3 vem pela tela da TV?<\/p>\n\n\n\n<p>O peso simb\u00f3lico de um rosto fixo tem sido menos prov\u00e1vel em tempos que o conte\u00fado cabe na palma da m\u00e3o, ou at\u00e9 mesmo no bolso. Informa\u00e7\u00e3o\u2026 n\u00e3o, melhor dizendo, a hiperinforma\u00e7\u00e3o, se reproduzindo de forma infinita, fragmentada e individualizada, sem o peso simb\u00f3lico de um rosto fixo, de uma rotina. Todo mundo pode passar pela sua casa agora, obviamente de forma r\u00e1pida, s\u00f3 uma troca de ideias, um bom dia, boa noite e vai embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, como diria o soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman, o que era s\u00f3lido se liquefaz: o ritual de se sentar \u00e0 frente da TV, a experi\u00eancia compartilhada e previs\u00edvel, d\u00e1 lugar a uma comunica\u00e7\u00e3o l\u00edquida, ef\u00eamera e personalizada. As tradi\u00e7\u00f5es desaparecem e, com elas, a sensa\u00e7\u00e3o de um tempo comum. Tudo \u00e9 projetado para ser descart\u00e1vel, at\u00e9 mesmo identidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os jovens n\u00e3o t\u00eam paci\u00eancia para o ve\u00edculo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"940\" height=\"529\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.22.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4240\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.22.jpeg 940w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.22-300x169.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.22-768x432.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Montagem da autora sobre imagens de arquivo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No Brasil, dados do Grupo de M\u00eddias de S\u00e3o Paulo indicam que a faixa et\u00e1ria entre 12 e 34 anos, que engloba tamb\u00e9m os chamados millennials e a gera\u00e7\u00e3o Alpha, apresentou uma queda no n\u00famero de espectadores da televis\u00e3o tradicional, passando de 41% em 2019 para 38% em 2022, realidade essa que ecoa at\u00e9 no exterior. Um estudo realizado nos Estados Unidos revela que jovens de at\u00e9 24 anos assistem quase sete vezes menos televis\u00e3o aberta do que pessoas com 65 anos ou mais, passando menos de uma hora por dia em frente \u00e0 TV.<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem Igor de 17 anos, estudante do ensino m\u00e9dio afirma que a programa\u00e7\u00e3o da TV n\u00e3o \u00e9 muito atrativa e o m\u00e1ximo que assiste \u00e9, raramente, o jornal local. \u201cSei l\u00e1, eu chego em casa, fa\u00e7o os meus afazeres e j\u00e1 vou pro meu celular, \u00e0s vezes, eu at\u00e9 vejo a minha m\u00e3e assistindo, mas as novelas n\u00e3o chamam muito a minha aten\u00e7\u00e3o sabe?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>E a pergunta que n\u00e3o quer calar, qual \u00e9 o futuro de refer\u00eancias comuns em meio a tudo isso? Ir\u00e3o existir novos \u201cBonners\u201d, novos \u201cFaust\u00e3os\u201d? Quando perguntada sobre isso, Edsel Pamplona Diebe, 42 anos, Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria, afirma que com certeza sempre existir\u00e3o figuras que dominam esse espa\u00e7o da comunica\u00e7\u00e3o apesar de n\u00e3o ter o mesmo peso, afinal j\u00e1 foi a era em que a TV moldava comportamentos atrav\u00e9s da sua programa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando perguntada sobre a exist\u00eancia de refer\u00eancias, a Edsel explica que elas j\u00e1 est\u00e3o presentes pelos influencers. \u201cAntigamente, voc\u00ea tinha uma pessoa como referencial, um especialista. E hoje em dia n\u00e3o tem mais, \u00e9 uma pessoa que ganhou credibilidade na rede, mas dificilmente ela tem uma especialidade naquilo que ela fala. Como, por exemplo, um grande comunicador, uma comunicadora como a Hebe Camargo, que j\u00e1 vinha de r\u00e1dio, n\u00e9? De programas de r\u00e1dio se tornou atriz. Ent\u00e3o, tudo isso era uma coisa diferente. Realmente era uma coisa de peso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Existe um lado positivo em meio a isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem diga que nos anos 90 a televis\u00e3o era at\u00e9 mesmo um pouco corrosiva em quest\u00f5es de corpos e g\u00eanero, a disputa pela aten\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia era um tanto visceral. Mas se voc\u00ea n\u00e3o consegue imaginar, pense que Domingo era dia de assistir a concursos de camisetas molhadas no Doming\u00e3o do Faust\u00e3o, ou, se preferir algo mais intenso, havia a disputa pelo sabonete na Banheira do Gugu. Era divers\u00e3o para toda fam\u00edlia, ser\u00e1?<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio colorido e l\u00fadico do programa da Xuxa estava repleto de m\u00fasicas, desenhos e assistentes de palco que carregavam uma sensualidade que destoava da plateia infantil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO espet\u00e1culo n\u00e3o \u00e9 apenas uma ferramenta da domina\u00e7\u00e3o, mas o pr\u00f3prio modo pelo qual a domina\u00e7\u00e3o se manifesta.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Guy Debord \u2014 Sociedade do Espet\u00e1culo<\/p>\n\n\n\n<p>Se antes apenas alguns corpos cabiam na tela, agora s\u00e3o muitos. Redes sociais abriram espa\u00e7o para vozes e presen\u00e7as antes silenciadas: mulheres que falam de si mesmas sem precisar de molduras, pessoas negras e ind\u00edgenas reivindicando narrativas, pessoas LGBTQIA+ que encontram ali um lugar para existir sem depender do filtro das emissoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se h\u00e1 mais espa\u00e7o, h\u00e1 tamb\u00e9m novos riscos. A corros\u00e3o n\u00e3o desapareceu, \u00e9 a velha l\u00f3gica do espet\u00e1culo, como apontava Guy Debord: tudo se transforma em imagem, em mercadoria a ser consumida, at\u00e9 mesmo a intimidade e a dor; do ibope ao engajamento. A diferen\u00e7a \u00e9 que, em meio a essa disputa, surgiram brechas: onde antes s\u00f3 cabia a caricatura, hoje pode caber a pluralidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ainda somos os mesmos, e vivemos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vamos ser francos, a televis\u00e3o aberta nunca vai deixar de existir, apesar de haver todo um discurso pessimista em rela\u00e7\u00e3o a isso: \u201cO fim da televis\u00e3o\u201d, \u201cO fim da Globo\u201d, \u201cA era do streaming\u201d. Ve\u00edculos impressos (como jornais e revistas) e at\u00e9 mesmo o r\u00e1dio ainda persistem, a diferen\u00e7a \u00e9 que todos eles se moldaram para uma ordem mais segmentada, nesse racioc\u00ednio n\u00e3o existe a possibilidade de um \u201cfim\u201d, o cen\u00e1rio at\u00e9 aparenta crise, a televis\u00e3o apenas precisa se remodelar a futuras gera\u00e7\u00f5es e a forma de apresentar conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"940\" height=\"667\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.29.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4241\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.29.jpeg 940w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.29-300x213.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/WhatsApp-Image-2025-10-01-at-10.21.29-768x545.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 940px) 100vw, 940px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Embora o celular seja cada vez mais usado para acessar conte\u00fado, a TV aberta continua predominando | Fonte: Kantar IBOPE Media<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Enquanto as especula\u00e7\u00f5es n\u00e3o se concretizam e o futuro parece apenas uma neblina densa, o que nos resta \u00e9 esperar e dizer adeus ao nosso vizinho de longa data, William Bonner.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transi\u00e7\u00f5es silenciosas, streamings e um tempo que n\u00e3o volta mais Fernanda Helena de Campos (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso). 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