{"id":4258,"date":"2025-10-03T10:00:58","date_gmt":"2025-10-03T13:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=4258"},"modified":"2025-10-03T10:00:58","modified_gmt":"2025-10-03T13:00:58","slug":"rota-66-a-face-oculta-da-violencia-e-o-eco-das-vidas-esquecidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/10\/03\/rota-66-a-face-oculta-da-violencia-e-o-eco-das-vidas-esquecidas\/","title":{"rendered":"Rota 66: A face oculta da viol\u00eancia e o eco das vidas esquecidas"},"content":{"rendered":"\n<p>Por\u00a0Jo\u00e3o Vitor\u00a0Casagrandi\u00a0(Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo\u00a0Uniso)<\/p>\n\n\n\n<p>[Resenha]&nbsp;\u201cRota 66 \u2013 A hist\u00f3ria da Pol\u00edcia que mata\u201d, de Caco Barcellos, \u00e9 uma obra que em minha vis\u00e3o, transcende o simples relato jornal\u00edstico ou livro-reportagem, apresentando-se como uma investiga\u00e7\u00e3o profunda sobre a viol\u00eancia institucionalizada no Brasil, revelando n\u00e3o s\u00f3 n\u00famero e fatos, mas&nbsp;tamb\u00e9m, revela-se o funcionamento da necropol\u00edtica, conceito idealizado por Achille&nbsp;Mbembe.<\/p>\n\n\n\n<p>Mbembe&nbsp;argumenta que a necropol\u00edtica se refere ao poder de decis\u00e3o sobre quem pode viver e quem deve morrer, especialmente em contextos marcados por hierarquias raciais e sociais: \u00e9 o exerc\u00edcio extremo de viol\u00eancia e controle do Estado sobre as vidas consideradas descart\u00e1veis, em geral corpos negros e perif\u00e9ricos, tratados como inimigos internos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde as primeiras p\u00e1ginas, Barcellos exp\u00f5e como a viol\u00eancia policial n\u00e3o se limita \u00e0 repress\u00e3o, mas se transforma numa pol\u00edtica sistem\u00e1tica de elimina\u00e7\u00e3o, marcada por crueldade gratuita, racismo e preconceito, operando essencialmente sobre corpos negros e perif\u00e9ricos. O livro abandona o terreno da exce\u00e7\u00e3o e revela que, nessas zonas urbanas de morte, identificar o inimigo deixa de ser um expediente de guerra para se tornar rotina administrativa: em cada ficha forjada, cada execu\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria sem investiga\u00e7\u00e3o, o leitor \u00e9 confrontado com o poder brutal de um Estado que, longe de proteger os seus cidad\u00e3os, investe na produ\u00e7\u00e3o cotidiana de mundos de morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Barcellos, por meio de uma apura\u00e7\u00e3o rigorosa e narrativa envolvente, devolve o olhar das v\u00edtimas e exp\u00f5es os art\u00edfices do exterm\u00ednio.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso que d\u00e1 nome ao livro \u201cRota 66\u201d \u00e9 emblem\u00e1tico justamente por romper o padr\u00e3o: tr\u00eas jovens de classe alta de S\u00e3o Paulo, em uma noite de 1975, foram perseguidos e assassinados brutalmente pela pol\u00edcia em um dos bairros mais nobres da cidade. O epis\u00f3dio teve grande repercuss\u00e3o e exp\u00f4s o funcionamento cruel da Rota: mesmo diante da perplexidade da elite e da como\u00e7\u00e3o p\u00fablica, nada resultou em puni\u00e7\u00e3o para os policias, que foram absolvidos pela Justi\u00e7a Militar (mesmo ap\u00f3s provas robustas de que a arma usada para justificar o confronto foi plantada na cena do crime, e de que os tiros foram disparados pelas costas, quando as v\u00edtimas j\u00e1 estavam rendidas).<\/p>\n\n\n\n<p>A ocorr\u00eancia, at\u00edpica por envolver jovens brancos e influentes, revela o alcance da pol\u00edtica de exterm\u00ednio e como o aparato judicial se empenha em proteger os matadores oficiais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do custo humano incalcul\u00e1vel, o livro revela o absurdo das opera\u00e7\u00f5es policiais: gastos elevados em muni\u00e7\u00e3o e recursos ao longo das persegui\u00e7\u00f5es e tiroteios, um desperd\u00edcio p\u00fablico que serve apenas ao prop\u00f3sito de eliminar vidas inocentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o conduzida em \u201cRota 66\u201d vai muito al\u00e9m do caso emblem\u00e1tico dos jovens assassinados nos Jardins. Barcellos explora e desvenda como a cria\u00e7\u00e3o da ROTA, uma tropa de elite policial em S\u00e3o Paulo, causou um crescimento exponencial da criminalidade violenta no&nbsp;Estado, um paradoxo que revela o fracasso da estrat\u00e9gia repressiva baseada no exterm\u00ednio sistem\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro detalha que, muito mais do que combater o crime organizado, a ROTA passou a agir como agente de viol\u00eancia arbitr\u00e1ria, promovendo execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias motivadas por meras desaven\u00e7as pessoais ou preconceitos, transformando a ostensividade em sin\u00f4nimo de brutalidade e medo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as in\u00fameras v\u00edtimas dessa l\u00f3gica cruel, est\u00e1 o caso da morte do ator que interpretou Pixote, no filme \u201cPixote, a Lei do Mais Fraco\u201d. Fernando Ramos da Silva, o Pixote, foi brutalmente assassinado porque os policias n\u00e3o sabiam distinguir o personagem da pessoa, reiterando a brutalidade institucionalizada e o desprezo absoluto pela vida daqueles que s\u00e3o marginalizados pela sociedade e pelo Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho em \u201cRota 66\u201d ganha corpo \u00fanico gra\u00e7as ao uso sofisticado do jornalismo liter\u00e1rio, empregando t\u00e9cnicas de&nbsp;storytelling&nbsp;para transformar os dados frios e investiga\u00e7\u00f5es em uma narrativa capaz de prender o leitor e provocar envolvimento emocional. Barcellos reconstr\u00f3i cenas como em um roteiro de cinema, contando com descri\u00e7\u00f5es profundas, di\u00e1logos ambientados e detalhamento preciso das a\u00e7\u00f5es, atingindo um equil\u00edbrio raro entre dinamismo narrativo e rigor factual.<\/p>\n\n\n\n<p>O apelo emocional da obra \u00e9 potencializado justamente pelo foco nos sobreviventes e nos familiares das v\u00edtimas, estabelecendo uma identifica\u00e7\u00e3o imediata do leitor com a dor, a injusti\u00e7a e as marcas deixadas pela viol\u00eancia institucional. Ao longo do texto, a altern\u00e2ncia entre relatos de persegui\u00e7\u00f5es, depoimentos, perfis das v\u00edtimas, bastidores das investiga\u00e7\u00f5es e contextualiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica cria uma composi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que humaniza os n\u00fameros e denuncia o impacto da crueldade estatal no cotidiano dos mais vulner\u00e1veis e marginalizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao concluir a leitura, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o reconhecer seu papel incontorn\u00e1vel como obra de den\u00fancia e mem\u00f3ria. Caco Barcellos eleva o jornalismo ao combinar investiga\u00e7\u00e3o e literatura, investindo dez anos na apura\u00e7\u00e3o e cruzamento de milhares de documentos para dar nomes, rostos e humanidade \u00e0s v\u00edtimas do exterm\u00ednio promovido pela pol\u00edcia paulista.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro desmonta a ret\u00f3rica oficial da leg\u00edtima defesa, revela a cumplicidade de estruturas estaduais e evidencia, atrav\u00e9s de hist\u00f3rias individuais, a face mais perversa da necropol\u00edtica: a banaliza\u00e7\u00e3o da morte, alimentada por preconceito, racismo e impunidade institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra se mant\u00e9m atual e necess\u00e1ria, ao entregar ao leitor n\u00e3o apenas n\u00fameros, mas viv\u00eancias, luto e resist\u00eancia, prova de que o compromisso \u00e9tico do jornalismo pode ser transformador ao iluminar realidades ocultas e questionar os limites do poder de Estado sobre a vida dos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"362\" height=\"552\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IMG_7666.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4259\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IMG_7666.jpeg 362w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/IMG_7666-197x300.jpeg 197w\" sizes=\"auto, (max-width: 362px) 100vw, 362px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><br><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por\u00a0Jo\u00e3o Vitor\u00a0Casagrandi\u00a0(Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo\u00a0Uniso) [Resenha]&nbsp;\u201cRota 66 \u2013 A hist\u00f3ria da Pol\u00edcia que mata\u201d, de Caco Barcellos, \u00e9 uma obra<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,9,37,14],"tags":[30,41,29,28],"class_list":["post-4258","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-online","category-sorocaba","category-uniso","tag-focas","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/sorocaba\/\" rel=\"category tag\">Sorocaba<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4258","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4258"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4258\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4260,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4258\/revisions\/4260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}