{"id":4587,"date":"2025-11-04T11:22:19","date_gmt":"2025-11-04T14:22:19","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=4587"},"modified":"2025-11-24T12:23:33","modified_gmt":"2025-11-24T15:23:33","slug":"o-jornalismo-analogico-de-o-chamado-2002","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/11\/04\/o-jornalismo-analogico-de-o-chamado-2002\/","title":{"rendered":"O jornalismo anal\u00f3gico de O Chamado (2002)"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando se assiste a um filme, h\u00e1 certos detalhes que moldam tudo. Um deles, que muitas vezes passa despercebido, \u00e9 a profiss\u00e3o dos protagonistas. Em O Chamado, filme de 2002, a hero\u00edna, Rachel Keller, \u00e9 jornalista. E isso \u00e9 muito significativo n\u00e3o s\u00f3 para o desenrolar da trama, como tamb\u00e9m para a vis\u00e3o de um jornalista, ou estudante de jornalismo, que assiste ao filme.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso acontece por dois motivos. O primeiro \u00e9 porque a profiss\u00e3o de Rachel, os m\u00e9todos de seu of\u00edcio s\u00e3o usados na investiga\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos paranormais do filme. A trama come\u00e7a com a misteriosa morte de sua sobrinha, e o pedido de sua irm\u00e3 de que investigue o caso, dizendo: &#8220;N\u00e3o \u00e9 isso que voc\u00ea faz?&#8221; A partir desse pedido, Rachel descobre uma fita VHS com um v\u00eddeo curto e sinistro que amaldi\u00e7oa quem o assiste, uma maldi\u00e7\u00e3o carregada de vis\u00f5es perturbadoras, pesadelos e les\u00f5es pelo corpo, que culminam com a morte da pessoa depois de sete dias. Rachel, a princ\u00edpio c\u00e9tica e curiosa, assiste ao conte\u00fado da fita e imediatamente come\u00e7a a sentir os efeitos, que come\u00e7am com uma liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica anunciando a morte pr\u00f3xima.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, a vida de Rachel depende da descoberta da verdade. \u00c9 uma extrapola\u00e7\u00e3o interessante da suposta &#8220;voca\u00e7\u00e3o&#8221; do jornalista, essa \u00e2nsia infind\u00e1vel por respostas. No in\u00edcio, a personagem sabe muito pouco, tendo apenas o conte\u00fado da fita, e \u00e9 por ele que ela come\u00e7a, descobrindo que cada cena do v\u00eddeo fornece pistas de uma hist\u00f3ria tr\u00e1gica. Essas pistas se revelam no pr\u00f3prio fazer jornal\u00edstico de Rachel, numa pesquisa com visitas a bibliotecas e arquivos, consultas a especialistas em audiovisual, buscas por pessoas pr\u00f3ximas \u00e0s v\u00edtimas da trag\u00e9dia etc. Tudo isso \u00e9 do of\u00edcio do rep\u00f3rter. A diferen\u00e7a \u00e9 que Rachel n\u00e3o est\u00e1 escrevendo uma reportagem, mas usando ferramentas da sua profiss\u00e3o para descobrir uma forma de salvar a si e a pessoas que ama, que tamb\u00e9m tiveram contato com o conte\u00fado da fita.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas cenas e um di\u00e1logo s\u00e3o particularmente demonstrativos disso. Uma cena acontece quando Rachel vai atr\u00e1s do pai da menina envolvida na trag\u00e9dia, e ele sumariamente diz que n\u00e3o tem filha. Ao sair da casa do homem, por\u00e9m, ela se depara com um balan\u00e7o pendurado numa \u00e1rvore, o que indica que, em algum momento, uma crian\u00e7a viveu naquela casa e que, portanto, o homem pode estar mentindo. Outra cena mostra a import\u00e2ncia do acaso numa investiga\u00e7\u00e3o, seja jornal\u00edstica ou de outra natureza. Nela, o parceiro de investiga\u00e7\u00e3o de<\/p>\n\n\n\n<p>Rachel tem um acesso de f\u00faria e derruba pequenas bolinhas no ch\u00e3o, que v\u00e3o se juntando em um ponto espec\u00edfico do assoalho. \u00c9 a partir da percep\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno que os dois descobrem um desn\u00edvel no piso, que esconde a localiza\u00e7\u00e3o do po\u00e7o onde a trag\u00e9dia teve seu \u00e1pice. Nessas duas cenas, vemos o &#8220;tino&#8221; de jornalista de Rachel, sua capacidade de perceber o que n\u00e3o \u00e9 dito e de ver al\u00e9m do \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p>O di\u00e1logo que demonstra o papel do jornalista na hist\u00f3ria \u00e9 ainda mais interessante. Nele, Richard Morgan, pai da menina alvo do evento tr\u00e1gico, diz para Rachel: &#8220;O que os rep\u00f3rteres querem? Pegam a trag\u00e9dia de uma pessoa e for\u00e7am o mundo a reviv\u00ea-la. Espalham-na feito doen\u00e7a.&#8221; Em seguida, ele complementa: &#8220;O que voc\u00ea acha que sabe? Pois deixe isso em paz.&#8221; Essas falas do sr. Morgan mostram algumas coisas. E primeira \u00e9 a vis\u00e3o que muitas pessoas t\u00eam do trabalho do jornalista, sobretudo pessoas envolvidas em eventos que chamam a aten\u00e7\u00e3o da imprensa e do p\u00fablico, uma vis\u00e3o de algu\u00e9m bisbilhoteiro. Outra, \u00e9 o inevit\u00e1vel dilema \u00e9tico da profiss\u00e3o: ao tornar p\u00fablica uma hist\u00f3ria, at\u00e9 que ponto n\u00e3o se est\u00e1 propagando uma desgra\u00e7a, ou pelo menos contribuindo para uma? Nesse sentido, o desfecho do filme mostra que a inten\u00e7\u00e3o de Samara, o esp\u00edrito da menina assassinada, era justamente a de que sua hist\u00f3ria fosse ouvida. Nesse sentido, a decis\u00e3o consciente de Rachel de fazer uma c\u00f3pia da fita significa participar ativamente da propaga\u00e7\u00e3o de uma maldi\u00e7\u00e3o. Ou seja, a jornalista Rachel Keller assina sua &#8220;reportagem&#8221;, metaforicamente, tornando-se ao mesmo tempo contadora e objeto da hist\u00f3ria, como muitas vezes acontece com rep\u00f3rteres.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro ponto interessante de se notar no filme \u00e9 como ele funciona como uma c\u00e1psula do tempo do fazer jornal\u00edstico e de pesquisa numa era anterior aos avan\u00e7os digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme, h\u00e1 computadores, mas em 2002 a internet ainda estava longe de abrigar as facilidades que h\u00e1 hoje. N\u00e3o havia smartphones, acervos digitais, intelig\u00eancias artificiais etc. Isso faz com que a pesquisa de Rachel seja majoritariamente anal\u00f3gica. Os sites de busca s\u00e3o usados, mas a maior parte da investiga\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em bibliotecas, arquivos e entrevistas. Seus instrumentos s\u00e3o editoras e copiadoras de VHS, telefones que s\u00f3 fazem liga\u00e7\u00f5es e livros. \u00c9 por meio deles que ela descobre um farol escondido no v\u00eddeo, encontra a localiza\u00e7\u00e3o do farol e, a partir da\u00ed, entra em contato com a hist\u00f3ria de Anna Morgan, m\u00e3e da menina Samara. A investiga\u00e7\u00e3o dura exatos sete dias, justamente o tempo que a maldi\u00e7\u00e3o leva para se concretizar. Nos dias atuais, algumas consultas a uma intelig\u00eancia artificial poderiam lhe dar as informa\u00e7\u00f5es de que precisava em poucos minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Chamado usa muito de uma est\u00e9tica chamada &#8220;terror anal\u00f3gico&#8221;, que utiliza elementos de fitas VHS e afins para compor o horror. O interessante \u00e9 que o filme tamb\u00e9m \u00e9 um documento de um jornalismo anal\u00f3gico, muito pautado na longa busca pela verdade, um jornalismo feito em grandes reda\u00e7\u00f5es, num mundo que parecia ter mais tempo e andar mais devagar, dando f\u00f4lego ao rep\u00f3rter para tecer suas investiga\u00e7\u00f5es. Hoje, o terror digital, por assim dizer, \u00e9 a falta de tempo, \u00e9 o trabalho precarizado, \u00e9 o burnout, \u00e9 a reportagem inteira feita em segundos por uma m\u00e1quina. O que se perde com esse novo jornalismo? Ser\u00e1 poss\u00edvel manter o olhar humano, \u00e9tico e cauteloso nessa nova configura\u00e7\u00e3o? Ainda h\u00e1 espa\u00e7o para olhar treinado, experi\u00eancia profissional, intui\u00e7\u00e3o de jornalista? Teremos mais do que sete dias para descobrir, e com sorte nossa profiss\u00e3o n\u00e3o morrer\u00e1 no final.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Coluna-Jornalismo-em-obras-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4451\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Coluna-Jornalismo-em-obras-3.jpg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Coluna-Jornalismo-em-obras-3-300x100.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se assiste a um filme, h\u00e1 certos detalhes que moldam tudo. 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