{"id":4787,"date":"2025-11-24T09:36:12","date_gmt":"2025-11-24T12:36:12","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=4787"},"modified":"2025-11-24T09:36:12","modified_gmt":"2025-11-24T12:36:12","slug":"revolta-da-chibata-simbolo-de-resistencia-e-memoria-negra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/11\/24\/revolta-da-chibata-simbolo-de-resistencia-e-memoria-negra\/","title":{"rendered":"Revolta da Chibata: s\u00edmbolo de resist\u00eancia e mem\u00f3ria negra"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 22 de novembro de 2025, comemorou-se 115 anos da luta dos marinheiros pela dignidade humana<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Paola Ferreira (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"923\" height=\"492\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-24-at-09.33.02.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4788\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-24-at-09.33.02.jpeg 923w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-24-at-09.33.02-300x160.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-24-at-09.33.02-768x409.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 923px) 100vw, 923px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Marinheiros brasileiros envolvidos na Revolta da Chibata | Arquivo digital<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desde do Imp\u00e9rio, os marinheiros brasileiros, quase todos negros ou mulatos, eram recrutados pela pol\u00edcia e ocupavam os menores cargos da carreira militar, sendo comandados por oficiais brancos. A Marinha possu\u00eda um c\u00f3digo disciplinar muito exigente com eles: n\u00e3o podiam se casar e, como forma de puni\u00e7\u00e3o para faltas graves, recebiam 25 chibatadas (no m\u00ednimo). Ap\u00f3s a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889, tal castigo foi extinto, todavia, as chibatadas foram reabilitadas no ano seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 16 de novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Meneses, do encoura\u00e7ado de <em>Minas Gerais<\/em>, recebeu 250 chibatadas por levar cacha\u00e7a a bordo e por ter ferido um dos cabos com uma navalha. Mesmo desmaiado e com as costas em carne viva, o castigo continuou, revoltando a tripula\u00e7\u00e3o. Na madrugada do dia 22 daquele m\u00eas, os marinheiros do <em>Minas Gerais<\/em> rebelaram-se; liderados por Jo\u00e3o C\u00e2ndido, conhecido como <em>Almirante<\/em> <em>Negro<\/em>, encerraram o motim com a morte do comandante do navio e outros dois oficiais.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, um ultimato encontrava-se em frente \u00e0 Capital \u2013 na \u00e9poca, a cidade do Rio de Janeiro \u2013, os marinheiros assumiram quatro navios de guerra e acionaram os canh\u00f5es contra a cidade. Hermes da Fonseca, presidente da \u00e9poca, tinha apenas duas op\u00e7\u00f5es: cessar os castigos f\u00edsicos ou a capital seria bombardeada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, no dia 27, \u00faltimo dia da Revolta, Hermes da Fonseca declarou anistia aos revoltosos e fim dos castigos corporais; todavia, algumas semanas depois, voltou atr\u00e1s da sua fala e cancelou a anistia, resultando na expuls\u00e3o dos marujos por indisciplina.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O impacto social da revolta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a Proclama\u00e7\u00e3o da Lei \u00c1urea, em 1888, os escravizados libertos foram empurrados para marginalizados, tornando-se exclu\u00eddos e n\u00e3o possuindo nem o b\u00e1sico para sobreviver. Aqueles que ingressaram na Marinha encontravam-se em situa\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0 da escravatura, com baix\u00edssimo sal\u00e1rio, m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o e severas puni\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor e coordenador do curso de Hist\u00f3ria da Uniso, Walter Cruz Swensson J\u00fanior, 55 anos, afirma que o m\u00e9todo de \u201cdisciplina\u201d pelo qual estes marinheiros passavam, essa explora\u00e7\u00e3o, demonstra tanto uma continuidade da cultura autorit\u00e1ria quanto do racismo, \u201ctudo isso institucionalizado, dentro das For\u00e7as Armadas, da Marinha\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto que o coordenador destaca em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Revolta da Chibata \u00e9 a falta de visibilidade e de compreens\u00e3o sobre esse acontecimento hist\u00f3rico, o que tem rela\u00e7\u00e3o com a censura que algumas passagens da nossa hist\u00f3ria sofrem. \u201cNo Brasil, h\u00e1 esse racismo socialmente implantado, uma cortina de fuma\u00e7a que foi constru\u00edda, que \u00e9 a ideologia da democracia racial\u201d, comenta Walter sobre a tese defendida por Gilberto Freyre em seu livro <em>Casa-Grande e Senzala<\/em>. De acordo com essa ideia, no Brasil, h\u00e1 uma conviv\u00eancia harm\u00f4nica entre as tr\u00eas ra\u00e7as fundadoras da na\u00e7\u00e3o e, para manter esse discurso, \u00e9 necess\u00e1rio ocultar aquilo que contraria essa interpreta\u00e7\u00e3o. Por isso, segundo Walter, \u201cmobiliza\u00e7\u00f5es populares, principalmente aquelas que t\u00eam essas caracter\u00edsticas \u00e9tnico-raciais s\u00e3o apagadas, exclu\u00eddas da hist\u00f3ria oficial\u201d.&nbsp; Como forma de refletir sobre esses acontecimentos hist\u00f3ricos, sem refor\u00e7ar uma perspectiva racista, \u201cno curso de Hist\u00f3ria\u201d, diz o docente, \u201cutilizamos o antrop\u00f3logo brasileiro <em>Darcy Ribeiro<\/em>, que falava que a sociedade era dividida entre os<em> indignos<\/em> e os <em>indignados<\/em>; aqueles n\u00e3o aceitam e n\u00e3o aturam essa desigualdade, j\u00e1 estes acham que est\u00e1 tudo certo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para mudar este cen\u00e1rio, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a ferramenta essencial de conscientiza\u00e7\u00e3o. A Lei n\u00ba 10.639\/03 estabelece a obrigatoriedade do ensino de hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira. \u201cA Revolta da Chibata tem que estar dentro da hist\u00f3ria do Brasil, n\u00e3o foi um fato secund\u00e1rio, ela precisa ocupar o espa\u00e7o de relev\u00e2ncia que tem, assim havendo a transforma\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o professor e coordenador do curso de Hist\u00f3ria da Uniso. Em contrapartida, Walter relata que, mesmo com a padroniza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o, o repert\u00f3rio que seus alunos trazem dos col\u00e9gios \u00e9 muito reduzido, \u201cos alunos lembram superficialmente ou acabam nem lembrando desses fatos\u201d. O coordenador prop\u00f5e que, para solucionar o problema, \u00e9 preciso uma forma\u00e7\u00e3o docente que busque a valoriza\u00e7\u00e3o da tem\u00e1tica, aponta outro agente que tamb\u00e9m seria respons\u00e1vel pela pauta, o Estado, que ampliaria o espa\u00e7o para o tema. Mas, de acordo com Walter, existe um contraponto: \u201cestamos inseridos em uma sociedade profundamente desigual, autorit\u00e1ria e racista, ent\u00e3o seria nadar contra a corrente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jo\u00e3o C\u00e2ndido, o Almirante Negro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"280\" height=\"311\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-24-at-09.33.16.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4789\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-24-at-09.33.16.jpeg 280w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Image-2025-11-24-at-09.33.16-270x300.jpeg 270w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Filho de dois ex-escravizados, Jo\u00e3o Felisberto e In\u00e1cia C\u00e2ndido Felisberto, Jo\u00e3o C\u00e2ndido juntou-se a Marinha aos 14 anos de idade. Ao longo dos anos, tornou-se muito admirado pelos companheiros marinheiros, que o indicaram por duas vezes para representar o \u201cDeus Netuno\u201d na travessia sobre a linha do equador. Ele tamb\u00e9m era muito elogiado pelos oficiais, por seu bom comportamento, e pelas suas habilidades principalmente como timoneiro. Todavia, durante 15 anos atuando como marujo, havia sido castigado nove vezes, preso em celas solit\u00e1rias e rebaixado duas vezes de cabo a soldado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1909, C\u00e2ndido e alguns outros marinheiros foram enviados \u00e0 Inglaterra e souberam das lutas dos marujos brit\u00e2nicos por seus direitos, e, tamb\u00e9m, sobre a revolta do Encoura\u00e7ado <em>Potemkin<\/em>, da Marinha russa, que ocorreu em 1904. Ao voltar ao Brasil, criou um comit\u00ea clandestino para iniciar sua pr\u00f3pria rebeli\u00e3o, a ideia principal era aliar outros navios para o motim, que estava planejado para acontecer no dia 25 de novembro de 1910. Por\u00e9m, devido ao epis\u00f3dio de Marcelino, os planos foram antecipados.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a Revolta da Chibata, C\u00e2ndido foi apelidado pela imprensa de \u201cAlmirante Negro\u201d, nome pelo qual ainda \u00e9 lembrado na hist\u00f3ria e carrega um forte legado: \u201cele \u00e9 uma das grandes resist\u00eancias do movimento negro no Brasil\u201d, afirma o professor Walter.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a Revolta, no dia 4 de dezembro, ele envolveu-se em um motim na Ilha das Cobras junto a outros marinheiros; foram bombardeados o dia inteiro, restando apenas ele e mais um sobrevivente. Em 1911, foi levado a um Hospital dos Alienados como louco. Ao ser solto, no ano seguinte, tornou-se estivador e vendedor de peixes no mercado da Pra\u00e7a XV, em frente ao porto. Morreu aos 89 anos, em 1969, esquecido, mas n\u00e3o sem antes registrar seu depoimento no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJo\u00e3o foi extremamente corajoso, ele rompe com a hierarquia das For\u00e7as Armadas, uma estrutura hierarquizada e armada. Revolta-se para acabar com esse tipo de pr\u00e1tica, depois \u00e9 v\u00edtima de uma puni\u00e7\u00e3o desproporcional; ele \u00e9 um sobrevivente que depois \u00e9 exclu\u00eddo. A revolta foi a indigna\u00e7\u00e3o e a luta das camadas populares que estavam sendo marginalizadas, pelo sistema, em especial, os negros, que eram segregados da popula\u00e7\u00e3o. Vai al\u00e9m da quest\u00e3o da Marinha\u201d, conclui Walter.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ou\u00e7a a entrevista gravada com Jo\u00e3o C\u00e2ndido na s\u00e9rie Depoimentos arquivados pelo MIS-RJ: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y3lfcd9B0mE\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=y3lfcd9B0mE<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 22 de novembro de 2025, comemorou-se 115 anos da luta dos marinheiros pela dignidade humana Por: Paola Ferreira (Ag\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,9,37,14],"tags":[30,41,29,28],"class_list":["post-4787","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-online","category-sorocaba","category-uniso","tag-focas","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/sorocaba\/\" rel=\"category tag\">Sorocaba<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4787"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4790,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4787\/revisions\/4790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}