{"id":4872,"date":"2025-12-02T09:45:32","date_gmt":"2025-12-02T12:45:32","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=4872"},"modified":"2025-12-02T10:16:43","modified_gmt":"2025-12-02T13:16:43","slug":"o-jornalismo-iludido-em-cidadao-kane-1941","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/12\/02\/o-jornalismo-iludido-em-cidadao-kane-1941\/","title":{"rendered":"O jornalismo iludido em Cidad\u00e3o Kane (1941)"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que a ideia de uma imprensa onipotente em influenciar a todos \u00e9 uma ilus\u00e3o? O filme Cidad\u00e3o Kane, de 1941, mostra a desilus\u00e3o dessa onipot\u00eancia pelos olhos de um magnata da comunica\u00e7\u00e3o, o fict\u00edcio Charles Foster Kane.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme come\u00e7a com uma reportagem, quase um mini document\u00e1rio sobre a vida e a influ\u00eancia desse empres\u00e1rio, mostrando seus principais feitos, seus altos e baixos na carreira e na vida pessoal. Por\u00e9m, ao finalizar a exibi\u00e7\u00e3o-teste, os respons\u00e1veis sentem falta de algo que eles chamam de \u201cum \u00e2ngulo\u201d. O diretor diz que \u201cn\u00e3o basta dizer o que o homem fez, mas sim quem ele foi\u201d. Ele ent\u00e3o designa um jornalista para investigar o significado da \u00faltima palavra de Kane, \u201cRosebud\u201d. Essa necessidade de uma abordagem mais \u00edntima e ao mesmo tempo generalista sobre a personalidade de Kane tem semelhan\u00e7as com o pr\u00f3prio tipo de jornalismo empregado pelo empres\u00e1rio: um jornalismo de sensa\u00e7\u00e3o, de como\u00e7\u00e3o e de manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, por meio de entrevistas, o jornalista tenta montar um \u201cquebra-cabe\u00e7a\u201d de Charles Foster Kane, numa busca por autenticidade e ess\u00eancia num homem t\u00e3o poderoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Vemos como o poder, para Kane, tem a ver com a necessidade de se sentir amado, e vemos como ele atinge o poder por meio da manipula\u00e7\u00e3o. Seu m\u00e9todo \u00e9 usar a imprensa para se mostrar como um homem preocupado com os menos favorecidos. Ao ser confrontado sobre seu suposto engajamento ao lado do povo, Kane diz: \u201cse eu n\u00e3o cuidar dos menos afortunados, outro o far\u00e1. Talvez algu\u00e9m sem dinheiro ou sem propriedades.\u201d Essa vis\u00e3o do empres\u00e1rio tem a ver com conserva\u00e7\u00e3o do poder, com controle da narrativa, pois Kane entende que quem controla a narrativa tem uma vantagem enorme para controlar a realidade. Assim, ele usa seu poder midi\u00e1tico para ditar se os Estados Unidos entram ou n\u00e3o numa guerra, por exemplo \u2013 ou \u00e9 pelo menos essa a ilus\u00e3o que ele alimenta.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que a obsess\u00e3o de Kane por controle \u00e9 sucessivamente frustrada ao longo dos anos, o que \u00e9 representado por suas tentativas cada vez mais pat\u00e9ticas de negar realidades incontest\u00e1veis, como a de que sua derrota na elei\u00e7\u00e3o para governador se deveu ao seu caso extraconjugal, ou que sua segunda esposa \u00e9 uma cantora med\u00edocre.<\/p>\n\n\n\n<p>A incapacidade de Kane em controlar a opini\u00e3o p\u00fablica contrap\u00f5e uma teoria da comunica\u00e7\u00e3o muito em voga nos anos em que a hist\u00f3ria se passa, a chamada Teoria Hipod\u00e9rmica, que enxergava as massas como um todo homog\u00eaneo e acr\u00edtico, pronto a ser manipulado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Kane diz que as pessoas \u201cv\u00e3o pensar o que eu lhes disser para pensar\u201d. Por\u00e9m, a queda do seu imp\u00e9rio tem in\u00edcio com a quebra dessa ilus\u00e3o, pois o magnata vai continuamente perdendo influ\u00eancia e se afundando em rancor e decad\u00eancia. Nesse sentido, o pal\u00e1cio que ele constr\u00f3i para si, Xanadu, serve como um s\u00edmbolo dessa megalomania solit\u00e1ria: o encastelamento de um homem esquecido.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim, as personagens n\u00e3o descobrem o que \u00e9 Rosebud, apenas o p\u00fablico: era o nome do tren\u00f3 com que Kane brincava na sua inf\u00e2ncia pobre e feliz, o que \u00e9 uma met\u00e1fora sobre como a subjetividade do ser humano \u00e9 muito maior e mais misteriosa do que as apar\u00eancias. O r\u00e9gio Charles Foster Kane era, na verdade, uma pessoa simples, e o povo que ele tentou controlar era mais independente do que ele pensou que fosse.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma reflex\u00e3o valiosa n\u00e3o apenas para jornalistas, mas para profissionais de comunica\u00e7\u00e3o em geral. Al\u00e9m de anti\u00e9tico, manipular o p\u00fablico \u00e9 mais complexo do que parece e, muitas vezes, acaba sendo um esfor\u00e7o in\u00fatil. A imprensa, a m\u00eddia, podem influenciar pensamentos e comportamentos, mas n\u00e3o podem simplesmente dit\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Coluna-Jornalismo-em-obras-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4451\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Coluna-Jornalismo-em-obras-3.jpg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Coluna-Jornalismo-em-obras-3-300x100.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que a ideia de uma imprensa onipotente em influenciar a todos \u00e9 uma ilus\u00e3o? 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