{"id":5072,"date":"2026-02-13T18:20:51","date_gmt":"2026-02-13T21:20:51","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5072"},"modified":"2026-02-13T18:20:51","modified_gmt":"2026-02-13T21:20:51","slug":"mais-que-monstros-como-o-cinema-de-terror-sempre-falou-sobre-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/02\/13\/mais-que-monstros-como-o-cinema-de-terror-sempre-falou-sobre-nos\/","title":{"rendered":"Mais que Monstros: Como o Cinema de Terror sempre falou sobre n\u00f3s"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Entre sustos e met\u00e1foras sociais, o g\u00eanero se reinventa e transforma nossos medos em hist\u00f3rias que revelam mais sobre n\u00f3s mesmos do que sobre monstros na tela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por: Italo Gabriel (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<p>De repente, a trilha sonora para, a c\u00e2mera foca apenas no personagem. Ao fundo, \u00e9 poss\u00edvel ouvir uma porta rangendo. A ansiedade j\u00e1 come\u00e7a a subir. Agora, nada mais faz barulho, apenas a respira\u00e7\u00e3o ofegante do personagem. Ent\u00e3o, o susto vem, junto de uma vergonha por ter gritado ao ver um filme, mas essa sensa\u00e7\u00e3o j\u00e1 vira um al\u00edvio moment\u00e2neo. Filmes de terror. O que antes era considerado filmes de nicho, hoje faz parte da cultura pop, mas a pergunta continua. Por que as pessoas pagam para sentir medo? Esse fen\u00f4meno \u00e9 o que faz esse g\u00eanero continuar t\u00e3o forte mesmo um s\u00e9culo depois da sua estreia. A resposta para esse paradoxo n\u00e3o est\u00e1 apenas nos sustos em si, mas na capacidade de adapta\u00e7\u00e3o, que o fez sair de tramas, \u00e0 primeira vista, rasas, para o tapete de premia\u00e7\u00f5es como o Oscar. Em vez de focar mais em monstros assustadores, eles passaram a focar mais em n\u00f3s mesmos, come\u00e7ando assim uma nova era de ouro do terror.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"305\" height=\"466\" data-id=\"5077\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5077\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-1.png 305w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-1-196x300.png 196w\" sizes=\"auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"305\" height=\"434\" data-id=\"5078\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5078\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-2.png 305w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-2-211x300.png 211w\" sizes=\"auto, (max-width: 305px) 100vw, 305px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Um S\u00e9culo de Medos<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>As Sombras da Alemanha: Caligari e Nosferatu, os monstros expressionistas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O expressionismo foi um movimento art\u00edstico surgido na Europa no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. No meio de uma \u00e9poca conturbada no pr\u00e9-primeira guerra, os artistas sabiam que o mundo estava ca\u00f3tico e queriam que suas obras refletissem esse caos interior. Eles n\u00e3o estavam mais preocupados com a anatomia ou coisas do tipo, a parte mais importante era passar o sentimento. E numa terra arrasada como a Alemanha, principalmente no per\u00edodo p\u00f3s-guerra e p\u00f3s Tratado de Versalhes, os nervos estavam \u00e0 flor da pele. \u00c9 nesse cen\u00e1rio que nasce o primeiro grande filme de terror, <em>O Gabinete do Dr. Caligari<\/em> (1920). Na hist\u00f3ria, um vilarejo \u00e9 abalado pela chegada do misterioso Dr. Cagliari e do seu show bizarro com Cesare, um son\u00e2mbulo que est\u00e1 adormecido h\u00e1 23 anos, por\u00e9m de alguma forma \u00e9 controlado por Caligari, sendo assim, seu servo. Quando uma s\u00e9rie de assassinatos acomete o vilarejo, Francis (o protagonista) passa a desconfiar que Cesare, controlado pelo Dr. Caligari, possa estar por tr\u00e1s das mortes. O filme carrega um forte subtexto pol\u00edtico da \u00e9poca, sendo escrito por Hans Janowitz e Carl Meyer, ele reflete o clima de desesperan\u00e7a e pessimismo que acometia o territ\u00f3rio alem\u00e3o ap\u00f3s a Primeira Guerra, lan\u00e7ando um olhar de desconfian\u00e7a para figuras de autoridade, sendo o Dr. Caligari, chefe de uma institui\u00e7\u00e3o mental, que controla son\u00e2mbulos incapazes de pensarem por si mesmos para atingir seus pr\u00f3prios fins, costurando um paralelo entre Caligari e as autoridades alem\u00e3s que levaram o pa\u00eds \u00e0 Guerra.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"742\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-3-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5080\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-3-1.png 960w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-3-1-300x232.png 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-3-1-768x594.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cena de O Gabinete do Dr. Caligari (1920) | dom\u00ednio p\u00fablico, Wikimedia Commons. Os cen\u00e1rios tortos e a fotografia sombria n\u00e3o mostravam o mundo como ele era, mas como a mente perturbada dos personagens o via<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se Caligari explorava o terror psicol\u00f3gico da tirania, outro cl\u00e1ssico do movimento, Nosferatu (1922), daria forma a um medo mais palp\u00e1vel: o da praga. No filme de Friedrich Wilhelm. Murnau, o vampiro Orlok n\u00e3o \u00e9 bonito, mas uma criatura disforme que traz a doen\u00e7a e a morte de uma terra estrangeira para uma cidade alem\u00e3. Para um p\u00fablico que havia acabado de sobreviver \u00e0 Primeira Guerra e \u00e0 pandemia da Gripe Espanhola, a imagem de uma praga incontrol\u00e1vel era um reflexo direto de um trauma recente. Al\u00e9m disso, muitos cr\u00edticos analisam o filme como uma poderosa alegoria da xenofobia, onde o monstro vindo do &#8220;Leste&#8221; representa o &#8220;outro&#8221;, o estrangeiro, visto como uma amea\u00e7a contagiosa para a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os Monstros da Grande Depress\u00e3o: Os Perseguidos da D\u00e9cada de 30<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que foi semeado em solo alem\u00e3o cruzou o Atl\u00e2ntico e floresceu em Hollywood. Em 1930, o est\u00fadio Universal Pictures pegou essa f\u00f3rmula expressionista e a adaptou para um novo contexto social, a Grande Depress\u00e3o, uma crise econ\u00f4mica e empregat\u00edcia que acometeu os Estados Unidos durante a d\u00e9cada de 30. Assim, Dr\u00e1cula (1931) e Frankenstein (1931) foram criados. Enquanto Dr\u00e1cula representava um medo do que vinha de fora, do estrangeiro, um aristocrata que veio para corromper e se alimentar da sociedade americana. J\u00e1 o Frankenstein, al\u00e9m do filme trabalhar uma ideia no qual o cientista \u201cbrincava de Deus\u201d ao tentar criar a vida a partir da morte assim criando um desastre, um monstro; esse conceito pode ser entendido como um alerta ao sonho americano: a no\u00e7\u00e3o de que o progresso e ambi\u00e7\u00e3o, quando acima da \u00e9tica, pode criar monstruosidades. Os dois eram ca\u00e7ados por uma sociedade desesperada que buscava constantemente um bode expiat\u00f3rio para as suas crises, aparentemente sem solu\u00e7\u00f5es. Ver um monstro ser derrotado para eles, era uma esp\u00e9cie de catarse, e assim controlar seus pr\u00f3prios medos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Bomba e os Invasores: O Terror da Guerra Fria nos Anos 1950<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com as tens\u00f5es da Guerra Fria o medo se adaptou novamente O monstro continuou sendo fruto de uma paran\u00f3ia, um pavor nuclear e uma histeria ideol\u00f3gica. De um lado, o trauma de Hiroshima e Nagasaki ganhou vida, Godzilla (1954), a personifica\u00e7\u00e3o do horror da bomba at\u00f4mica. Do outro, nos Estados Unidos, o medo do comunismo ganhou vida com Invasores do Corpo (1956), filme no qual alien\u00edgenas substitu\u00edam humanos por c\u00f3pias perfeitas, por\u00e9m sem sentimentos ou individualidade. A obra \u00e9 uma alegoria da paranoia comunista e dos medos de infiltrados que se pareciam com americanos comuns.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"813\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0025-1024x813.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5082\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0025-1024x813.jpg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0025-300x238.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0025-768x610.jpg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0025.jpg 1346w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Lobby card promocional de Invasores do Corpo (1956). Allied Artists Pictures Corporation  | dom\u00ednio p\u00fablico, via Wikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O Colapso da Confian\u00e7a: O Pesadelo Americano dos Anos 1960 e 1970<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A desilus\u00e3o dos anos 60 e 70, marcada pela Guerra do Vietn\u00e3, pelos conflitos raciais e pela crise de confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es (como no caso Watergate), trouxe n\u00e3o criaturas grotescas ou irreais, mas sim monstros parecidos conosco. O marco zero dessa nova fase foi A Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George Romero. O filme n\u00e3o era apenas sobre devoradores de c\u00e9rebro, mas uma cr\u00edtica \u00e0 sociedade da \u00e9poca. Os zumbis podiam ser vistos como met\u00e1fora da massa consumista, e ainda como se n\u00e3o bastasse, no final do filme o protagonista, Ben, um homem negro, ap\u00f3s ser o \u00fanico sobrevivente de uma noite de puro horror, \u00e9 morto por um grupo de homens brancos que o confundiram com um zumbi. A relev\u00e2ncia disso? Alguns meses antes do lan\u00e7amento, em abril de 1968, Martin Luther King Jr. foi assassinado. Por mais que esse debate n\u00e3o tenha sido colocado no filme de prop\u00f3sito, mas o cen\u00e1rio j\u00e1 estava montado. Anos depois, em 1974, O Massacre da Serra El\u00e9trica, foi usada uma fam\u00edlia de canibais para representar o colapso do sonho americano e a viol\u00eancia sem sentido que acometia o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"954\" height=\"714\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0026.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5085\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0026.jpg 954w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0026-300x225.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0026-768x575.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 954px) 100vw, 954px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cena do filme Noite dos Mortos-Vivos (1968), de George Romero |  Imagem em dom\u00ednio p\u00fablico via Wikimedia Commons. Os monstros passaram a ser vizinhos, familiares, tornando a amea\u00e7a mais \u00edntima. Al\u00e9m de simbolizar uma sociedade que havia perdido o rumo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A Rea\u00e7\u00e3o Conservadora: A Puni\u00e7\u00e3o Moral e a Paranoia Corporal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de uma d\u00e9cada de \u201clibertinagem\u201d por conta da contracultura, o conservadorismo entrou em ascens\u00e3o nos anos 80, por conta de figuras como Ronald Reagan e Margaret Thatcher, que pregavam os \u201cvalores tradicionais\u201d. No meio dessa confus\u00e3o moral, o cinema do terror deu a ela uma m\u00e1scara, e ent\u00e3o o auge dos slashers come\u00e7ou. Figuras como Jason Voorhees (Sexta-Feira 13, 1980), Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo, 1984) e Michael Myers (Halloween, 1978) agiam como justiceiros puritanos, que puniam jovens que n\u00e3o fizessem jus \u00e0 fam\u00edlia tradicional: sexo antes do casamento, uso de drogas e desobedi\u00eancia aos respons\u00e1veis. A \u201cFinal Girl\u201d, a \u00fanica sobrevivente, na maioria dos casos, era a garota mais comportada da turma. Em paralelo, o <em>horror corporal<\/em> de filmes como A Mosca (1986) e O Enigma de Outro Mundo (1982) real\u00e7am o del\u00edrio que ainda existia por conta da Guerra Fria (o inimigo pode estar dentro de n\u00f3s) e o pavor de doen\u00e7as que destroem o corpo por dentro, o que dialogava diretamente com a crise da AIDS, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o fim da Guerra Fria, os medos mudaram de um inimigo estrangeiro para um cinismo interno e uma desconfian\u00e7a na pr\u00f3pria imagem. O grande filme que traduziu isso foi P\u00e2nico (1996), a cr\u00edtica n\u00e3o era sobre pol\u00edtica, mas sobre a pr\u00f3pria m\u00eddia. Os assassinos n\u00e3o eram monstros, mas adolescentes que viram muitos filmes de terror. O filme, al\u00e9m de ser uma cr\u00edtica aos filmes de terror slasher, que nessa altura j\u00e1 estavam saturando, \u00e9 tamb\u00e9m uma s\u00e1tira a um mundo que \u00e9 incapaz de perceber que a vida n\u00e3o \u00e9 um filme.<\/p>\n\n\n\n<p>No final da d\u00e9cada, A Bruxa de Blair (1999) come\u00e7ou uma nova onda, os filmes <em>found footage<\/em>, que explorava uma d\u00favida da internet que nascia e a dificuldade de diferenciar o real do inventado.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><strong>&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Terror P\u00f3s-11 de Setembro: A Dor e a C\u00e2mera na M\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Bom, tudo ficou de cabe\u00e7a pra baixo ap\u00f3s o atentado das Torres G\u00eameas em 2001. A d\u00e9cada de 2000 foi marcada pela \u201cGuerra ao Terror\u201d, por uma paranoia com a seguran\u00e7a e por pris\u00f5es como Abu Ghraib, uma pris\u00e3o que, durante a Guerra ao Iraque, era usada por membros do Ex\u00e9rcito Americano e da CIA para torturar abusar f\u00edsica e psicologicamente de prisioneiros. O cinema pegou todo esse contexto e colocou na tela, a\u00ed nascia o <em>torture porn<\/em>, com Jogos Mortais (2004) e O Albergue (2005). O medo aqui se tornou uma representa\u00e7\u00e3o f\u00edsica da dor, reflexo direto da viol\u00eancia que dominava os notici\u00e1rios. Em paralelo, o que come\u00e7ou em 1999 com A Bruxa de Blair ganhou mais for\u00e7a nos anos 2000, filmes como REC (2007) e Atividade Paranormal (2007) continuaram difundindo o g\u00eanero found footage.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><strong>&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A Nova Era de Ouro: O Monstro Somos N\u00f3s<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a viol\u00eancia gr\u00e1fica ter sido explorada \u00e0 exaust\u00e3o, tirando filmes com tramas sobrenaturais, como a franquia Invoca\u00e7\u00e3o do Mal e o <em>Invocaverso<\/em>, que foram sucessos de bilheteria, no geral, o terror da \u00faltima d\u00e9cada se tornou mais intimista. \u00c9 basicamente um consenso entre cr\u00edtica e p\u00fablico que existe uma nova era de ouro do terror, impulsionada por um movimento chamado p\u00f3s-terror, onde o medo n\u00e3o depende de algo gr\u00e1fico ou de um <em>jump scare<\/em>, mas sim numa atmosfera que te deixa angustiado, o terror aqui passou a ser definitivamente uma met\u00e1fora. Em O Babadook (2014), o monstro era a personifica\u00e7\u00e3o da depress\u00e3o; em Heredit\u00e1rio (2018), o horror era derivado de uma trag\u00e9dia familiar junto do luto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o filme mais famoso e importante dessa nova onda \u00e9 Corra! (2017), de Jordan Peele. O filme usou o terror para criar a mais potente cr\u00edtica ao racismo do s\u00e9culo. E mesmo n\u00e3o tendo sido o primeiro filme a ganhar um Oscar, ele foi o primeiro a ganhar a categoria de Melhor Roteiro Original sem ser derivado de outras obras (O Sil\u00eancio dos Inocentes e O Exorcista foram adaptados de outros livros, por exemplo), e assim iniciando de fato essa nova era do terror que continua at\u00e9 hoje, com filmes como A Hora do Mal (2025), Pecadores (2025), N\u00f3s (2019) e Fa\u00e7a Ela Voltar (2025).<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um s\u00e9culo de exist\u00eancia, o cinema de terror finalmente conquistou seu lugar ao sol e passou a ser respeitado por p\u00fablico e cr\u00edtica. Mesmo com filmes que, muitas vezes, eram rasos para a maioria dos espectadores e simples em sua execu\u00e7\u00e3o, eles sempre tiveram um papel fundamental de espelho para a sociedade de suas respectivas \u00e9pocas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Qu\u00edmica do Susto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"234\" height=\"618\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-6.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5086\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-6.png 234w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/imagem-6-114x300.png 114w\" sizes=\"auto, (max-width: 234px) 100vw, 234px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Davi Vilarins, estudante de hist\u00f3ria, 22 anos, a paix\u00e3o pelo terror come\u00e7ou de uma forma inusitada: foi convidado pela sua bab\u00e1. \u201cSinceramente n\u00e3o sei o porqu\u00ea, mas quando estava s\u00f3 eu e a bab\u00e1 em casa ela come\u00e7ou a assistir o filme O Grito (2004) e me chamou pra ver junto, e eu fui na onda. Tinha uns 7 anos.\u201d A experi\u00eancia foi marcante e definiu a sua rela\u00e7\u00e3o com o g\u00eanero. \u201cFiquei noites sem dormir, achando que a Kayako ia aparecer no meu quarto. Foi horr\u00edvel, mas de alguma forma eu gostei da sensa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse paradoxo vivido por Davi, o prazer encontrado no pavor, \u00e9 a chave para entender por que um g\u00eanero que antes era de nicho hoje faz parte da cultura pop e vive uma nova era de ouro. A resposta n\u00e3o est\u00e1 apenas nos sustos, mas na forma como o terror evoluiu para espelhar nossas ansiedades e satisfazer uma complexa necessidade psicol\u00f3gica de confrontar nossos pr\u00f3prios medos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>\u201cAcho que s\u00e3o experi\u00eancias diferentes: um \u00e9 pra refletir, o outro \u00e9 pra se divertir e gritar junto com os amigos.\u2019\u2019<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para entender o porqu\u00ea disso tudo, a neuropsic\u00f3loga e analista do comportamento Franciele da Costa, de 36 anos, convida a um mergulho no c\u00e9rebro humano. Segundo ela, filmes de terror s\u00e3o eficazes porque ativam \u00e1reas cerebrais primitivas, como a am\u00edgdala, respons\u00e1vel pelo processamento do medo, gerando uma resposta fisiol\u00f3gica id\u00eantica \u00e0 de uma amea\u00e7a real: o cora\u00e7\u00e3o acelera e a adrenalina sobe. A diferen\u00e7a crucial est\u00e1 no contexto. \u201cO medo controlado gera um &#8216;pico de adrenalina&#8217; e, depois, dopamina e endorfina, que trazem uma sensa\u00e7\u00e3o de prazer e al\u00edvio\u201d, explica a especialista.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo de um susto, detalha a Dra. Franciele, acontece em duas vias. Na \u201cvia r\u00e1pida\u201d, um est\u00edmulo na tela vai direto para a am\u00edgdala, que dispara a resposta autom\u00e1tica de \u201cluta ou fuga\u201d. \u00c9 por isso que o susto \u00e9 t\u00e3o f\u00edsico e imediato. Segundos depois, a \u201cvia lenta\u201d se completa: o c\u00f3rtex pr\u00e9-frontal, a parte mais racional do c\u00e9rebro, analisa a situa\u00e7\u00e3o e \u201cavisa\u201d o resto do corpo: \u201cCalma, \u00e9 s\u00f3 um filme\u201d. \u00c9 nesse contraste entre o p\u00e2nico e o al\u00edvio que o c\u00e9rebro nos recompensa com a onda de euforia que tantos f\u00e3s do g\u00eanero procuram.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0027-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5088\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0027-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0027-300x200.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0027-768x512.jpg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/IMG-20260213-WA0027.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dra. Franciele da Costa atua na \u00e1rea h\u00e1 9 anos  | Imagem: Acervo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Essa sensa\u00e7\u00e3o de \u201cdescarga emocional\u201d \u00e9 o que muitos conhecem como catarse. A especialista descreve o processo como uma forma de regula\u00e7\u00e3o emocional: viver emo\u00e7\u00f5es intensas em um ambiente seguro, o que resulta em uma sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio e \u201climpeza\u201d da tens\u00e3o. Essa teoria se materializa na experi\u00eancia de Davi. \u201cDepois de ver um filme pesado como Heredit\u00e1rio (2018), sinto como se tivesse descarregado algo junto com os personagens. Pra mim funciona quase como terapia\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia se torna ainda mais potente quando compartilhada. \u201cAssistir com outras pessoas no cinema aumenta a coes\u00e3o social\u201d, afirma Franciele, explicando que gritos e risadas em grupo liberam horm\u00f4nios que transformam o medo em uma experi\u00eancia coletiva e prazerosa. Davi concorda. \u201cAdoro ver com amigos, porque o medo coletivo vira risada, e a experi\u00eancia fica muito mais divertida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em uma sociedade j\u00e1 marcada pela ansiedade, essa busca pelo medo n\u00e3o seria contradit\u00f3ria? A neuropsic\u00f3loga aponta que a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa, mas faz sentido. Para pessoas que vivem em estado de hipervigil\u00e2ncia, os filmes de terror podem funcionar como um \u201ctreinamento\u201d para essas emo\u00e7\u00f5es em um ambiente seguro. Historicamente, picos de ansiedade coletiva coincidem com a popularidade do terror. Para a especialista, o g\u00eanero funciona como um espelho simb\u00f3lico das ang\u00fastias sociais e, para muitos, como uma v\u00e1lvula de escape essencial.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre sustos e met\u00e1foras sociais, o g\u00eanero se reinventa e transforma nossos medos em hist\u00f3rias que revelam mais sobre n\u00f3s<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,16,37,14],"tags":[30,41,29,28],"class_list":["post-5072","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-digital","category-sorocaba","category-uniso","tag-focas","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-digital\/\" rel=\"category tag\">jornalismo digital<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/sorocaba\/\" rel=\"category tag\">Sorocaba<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5072","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5072"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5072\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5090,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5072\/revisions\/5090"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5072"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5072"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5072"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}