{"id":5217,"date":"2026-03-06T09:48:20","date_gmt":"2026-03-06T12:48:20","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5217"},"modified":"2026-03-12T09:33:32","modified_gmt":"2026-03-12T12:33:32","slug":"o-impacto-silencioso-da-maternidade-sobre-o-eu-feminino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/03\/06\/o-impacto-silencioso-da-maternidade-sobre-o-eu-feminino\/","title":{"rendered":"O impacto silencioso da maternidade sobre o eu feminino"},"content":{"rendered":"\n<p><em>[S\u00e9rie M\u00eas das Mulheres] Dados revelam mudan\u00e7as profundas na autopercep\u00e7\u00e3o e nas rela\u00e7\u00f5es sociais de mulheres ap\u00f3s o nascimento dos filhos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Maria Clara Russini (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"586\" height=\"890\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/2026-03-06.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5218\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/2026-03-06.jpg 586w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/2026-03-06-198x300.jpg 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 586px) 100vw, 586px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>A maternidade costuma ser narrada como plenitude. Fotografias delicadas, discursos sobre amor incondicional e a ideia de realiza\u00e7\u00e3o pessoal comp\u00f5em o imagin\u00e1rio social em torno do nascimento de um filho. No entanto, por tr\u00e1s dessa narrativa dominante, muitas mulheres relatam uma experi\u00eancia mais complexa: a sensa\u00e7\u00e3o de que, em meio \u00e0s novas responsabilidades, parte de quem eram parece ter ficado para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pesquisa divulgada em 2024 pelo jornal Estado de Minas revelou que 71,1% das m\u00e3es entrevistadas afirmaram sentir que perderam, em algum grau, sua identidade ap\u00f3s a maternidade. O levantamento, realizado com mais de 500 mulheres, tamb\u00e9m apontou que 80,5% relataram sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o depois do nascimento dos filhos e 72,9% perceberam mudan\u00e7as significativas nas amizades. Os dados ajudam a dimensionar uma experi\u00eancia frequentemente silenciada: a reconfigura\u00e7\u00e3o profunda do modo como a mulher se enxerga no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas pr\u00e1tica, mas estrutural. A rotina passa a girar em torno das necessidades do beb\u00ea, o tempo individual torna-se reduzido e projetos pessoais e profissionais s\u00e3o frequentemente adiados. Nesse processo, a identidade profissional, acad\u00eamica ou socia, constru\u00edda ao longo de anos, pode parecer secundarizada diante da fun\u00e7\u00e3o materna.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das transforma\u00e7\u00f5es cotidianas, h\u00e1 fatores sociais que intensificam essa percep\u00e7\u00e3o. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) mostram que mulheres dedicam quase o dobro do tempo dos homens \u00e0s atividades de cuidado e tarefas dom\u00e9sticas no Brasil. Com a chegada de um filho, essa desigualdade tende a se ampliar, contribuindo para a sobrecarga f\u00edsica e emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o tamb\u00e9m atravessa o campo filos\u00f3fico. Para a pensadora francesa Simone de Beauvoir, a condi\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 historicamente moldada por expectativas sociais. Nesse contexto, a maternidade n\u00e3o se resume a uma experi\u00eancia biol\u00f3gica, mas se insere em um conjunto de normas e expectativas que influenciam a forma como a mulher \u00e9 vista e como passa a se perceber.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a psic\u00f3loga Juliana Piccini, formada pela Universidade Paulista e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pela PUC-RS, a maioria das m\u00e3es ainda possu\u00ed uma certa \u201cfarda\u201d emocional quando a quest\u00e3o \u00e9 a maternidade. \u201cEu acredito que a sociedade ainda carrega uma narrativa muito romantizada e extremamente exigente da maternidade, porque eu vejo bastante no consult\u00f3rio expectativas de m\u00e3es que acreditam em uma \u201cm\u00e3e perfeita\u201d, que \u00e9 sempre dispon\u00edvel, emocionalmente equilibrada, paciente, produtiva, amorosa e grata; independentemente do n\u00edvel de exaust\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga ainda completa ressaltando que a maternidade \u00e9 um momento muito importante para a mulher e que ele merece ser saud\u00e1vel, contando com uma rede de apoio est\u00e1vel. \u201cQuando a mulher come\u00e7a a sentir que perdeu quem era, que n\u00e3o reconhece mais a pr\u00f3pria vida ou que deixou de ter espa\u00e7o como indiv\u00edduo, isso pode gerar tristeza profunda, sensa\u00e7\u00e3o de vazio e des\u00e2nimo, que s\u00e3o sinais importantes de aten\u00e7\u00e3o. Ser m\u00e3e n\u00e3o deveria significar desaparecer como mulher. Maternidade saud\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de autoabandono e cuidar de si n\u00e3o \u00e9 ego\u00edsmo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Embora muitas mulheres relatem sensa\u00e7\u00e3o de perda, especialistas ressaltam que a identidade n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. Ao longo da vida, eventos marcantes provocam transforma\u00e7\u00f5es e reconfigura\u00e7\u00f5es. A maternidade pode representar, portanto, n\u00e3o o desaparecimento do eu, mas uma reconstru\u00e7\u00e3o gradual e complexa.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a professora da Rede Estadual de Ensino, formada em Filosofia, Pedagogia e Geografia, p\u00f3s-graduada em Neuroaprendizagem, Psicopedagogia e Artes e Ludicidade Caroline da Silva Nunes, a constru\u00e7\u00e3o da maternidade perante a sociedade romantiza o sil\u00eancio da m\u00e3e, e condena qualquer queixa relacionada aos sentimentos dela em rela\u00e7\u00e3o a essa jornada. \u201cComo professora de filosofia, penso a maternidade n\u00e3o como perda de identidade, mas como metamorfose. O problema n\u00e3o est\u00e1 na transforma\u00e7\u00e3o, mas na exig\u00eancia social de que ela seja total e silenciosa. A sociedade costuma aplaudir a m\u00e3e que se anula. Pouco fala da mulher que insiste em continuar existindo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A professora finaliza comentando sobre sua vis\u00e3o da maternidade como m\u00e3e at\u00edpica de um garoto com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). \u201cComo m\u00e3e at\u00edpica, aprendi que preciso lutar duas vezes: pelo desenvolvimento do meu filho e pela preserva\u00e7\u00e3o de mim mesma. Talvez a pergunta n\u00e3o seja: \u201cPor que as mulheres sentem que perdem sua identidade?\u201d, mas sim: Que cultura \u00e9 essa que exige que a identidade feminina se reduza \u00e0 maternidade?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecer que a experi\u00eancia materna pode envolver sentimentos amb\u00edguos como realiza\u00e7\u00e3o e exaust\u00e3o, pertencimento e solid\u00e3o, amplia o debate p\u00fablico sobre o tema. Entender essa din\u00e2mica \u00e9 fundamental para que a maternidade seja discutida de maneira mais ampla, considerando n\u00e3o apenas o papel de m\u00e3e, mas a mulher em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[S\u00e9rie M\u00eas das Mulheres] Dados revelam mudan\u00e7as profundas na autopercep\u00e7\u00e3o e nas rela\u00e7\u00f5es sociais de mulheres ap\u00f3s o nascimento dos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,16,9,7,14],"tags":[30,41,29,28],"class_list":["post-5217","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-digital","category-jornalismo-online","category-reportagens-especiais","category-uniso","tag-focas","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-digital\/\" rel=\"category tag\">jornalismo digital<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/reportagens-especiais\/\" rel=\"category tag\">Reportagens Especiais<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5217","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5217"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5217\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5252,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5217\/revisions\/5252"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}