{"id":5237,"date":"2026-03-10T09:42:47","date_gmt":"2026-03-10T12:42:47","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5237"},"modified":"2026-03-10T09:42:47","modified_gmt":"2026-03-10T12:42:47","slug":"a-ciencia-por-tras-das-canetas-emagrecedoras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/03\/10\/a-ciencia-por-tras-das-canetas-emagrecedoras\/","title":{"rendered":"A ci\u00eancia por tr\u00e1s das canetas emagrecedoras"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Pesquisadora da Uniso, Luciane Lopes, conta a hist\u00f3ria desses medicamentos e aponta os seus benef\u00edcios e riscos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Gustavo Guebert e Mar Carrasco (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"390\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/10.3.26-1024x390.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5238\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/10.3.26-1024x390.jpeg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/10.3.26-300x114.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/10.3.26-768x293.jpeg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/10.3.26-1536x586.jpeg 1536w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/10.3.26.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Cr\u00e9ditos: Bernardo Sader<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p>Basta abrir o <em>feed<\/em> de qualquer rede social para encontrar relatos de transforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas impressionantes. V\u00eddeos com milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es exibem as chamadas \u201ccanetas emagrecedoras\u201d como solu\u00e7\u00f5es simples para a perda de peso, impulsionadas por celebridades e influenciadores digitais. No entanto, por tr\u00e1s do deslumbre das telas e do marketing de resultados r\u00e1pidos, existe uma trajet\u00f3ria cient\u00edfica complexa que come\u00e7ou longe das farm\u00e1cias: na saliva de um r\u00e9ptil.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a professora doutora e farmac\u00eautica Luciane Cruz Lopes, o fen\u00f4meno exige cautela e contextualiza\u00e7\u00e3o. \u201cEsses medicamentos ficaram conhecidos como canetas emagrecedoras, por\u00e9m elas possuem outras indica\u00e7\u00f5es al\u00e9m do tratamento da obesidade\u201d, alerta a pesquisadora. A ci\u00eancia por tr\u00e1s desses f\u00e1rmacos n\u00e3o nasceu com foco na est\u00e9tica, mas sim no entendimento de processos biol\u00f3gicos profundos de secre\u00e7\u00e3o hormonal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por volta de 2001, pesquisadores identificaram na saliva do \u201cMonstro-de-Gila\u201d, um lagarto nativo do deserto, uma subst\u00e2ncia com propriedades interessantes. Muito semelhante a um horm\u00f4nio produzido pelas c\u00e9lulas intestinais humanas, essa subst\u00e2ncia tinha a fun\u00e7\u00e3o de aumentar a secre\u00e7\u00e3o de insulina e enviar ao c\u00e9rebro uma mensagem de saciedade ap\u00f3s a ingest\u00e3o de alimentos cal\u00f3ricos. Em 2005, esse achado biol\u00f3gico foi transformado em medicamento, mas com um desafio log\u00edstico: a vida \u00fatil da subst\u00e2ncia no organismo era curt\u00edssima, exigindo duas aplica\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, o que tornava o tratamento caro e pouco pr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Diabetes: a descoberta<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O foco da ind\u00fastria n\u00e3o era a balan\u00e7a, mas o controle glic\u00eamico. \u201cInicialmente, era um medicamento usado apenas para tratar diabetes\u201d, explica Luciane. Entre 2005 e 2010, a engenharia farmac\u00eautica avan\u00e7ou no desenvolvimento de an\u00e1logos do GLP-1, criando vers\u00f5es que resistiam por mais tempo no corpo, permitindo a aplica\u00e7\u00e3o de apenas uma dose di\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os testes cl\u00ednicos para o controle da diabetes, um padr\u00e3o come\u00e7ou a chamar a aten\u00e7\u00e3o dos cientistas. Os pacientes perdiam peso de forma consistente. \u201cEsses medicamentos tinham como efeito colateral a n\u00e1usea e o aumento da sensa\u00e7\u00e3o de saciedade. A partir da\u00ed, surgiu a ideia de us\u00e1-los para tratar obesidade\u201d, relata a professora. Em 2017 com a chegada da semaglutida (conhecida comercialmente como Ozempic e Wegovy), um f\u00e1rmaco de longa dura\u00e7\u00e3o revolucionou o mercado ao permitir apenas uma aplica\u00e7\u00e3o semanal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O medicamento como solu\u00e7\u00e3o para obesidade<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a da indica\u00e7\u00e3o terap\u00eautica ocorreu em 2020, quando esses f\u00e1rmacos foram formalmente liberados para o tratamento da obesidade. Recentemente, a ci\u00eancia expandiu ainda mais o uso dessas mol\u00e9culas, que agora tamb\u00e9m s\u00e3o indicadas para o tratamento de esteatose hep\u00e1tica (gordura no f\u00edgado). A l\u00f3gica por tr\u00e1s do emagrecimento \u00e9 a mesma que auxilia no diabetes. O medicamento simula a saciedade e retarda o esvaziamento do est\u00f4mago, fazendo com que o indiv\u00edduo se sinta \u201ccheio\u201d por muito mais tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Efeitos colaterais: o pre\u00e7o da saciedade<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, nem tudo s\u00e3o flores ao optar por esse caminho da perda de peso. A farmacologia ensina que todo efeito potente traz consigo rea\u00e7\u00f5es adversas. No caso das canetas, o principal vil\u00e3o \u00e9 a n\u00e1usea. Como o medicamento diminui o peristaltismo (movimentos naturais que empurram o alimento pelo trato digestivo), a atividade intestinal cai drasticamente. O resultado pode ser um quadro desconfort\u00e1vel de v\u00f4mitos, constipa\u00e7\u00e3o e flatul\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses sintomas s\u00e3o os principais respons\u00e1veis pelo abandono do tratamento. Luciane aponta uma diferen\u00e7a estat\u00edstica interessante entre as drogas: enquanto o Ozempic, com efeitos mais leves, registra uma taxa de abandono de cerca de 4%, o Mounjaro, considerado mais potente, chega a ter 8% de desist\u00eancia por parte dos pacientes. Al\u00e9m do desconforto imediato, h\u00e1 riscos mais severos. \u201cH\u00e1 estudos inconclusivos sobre uma rela\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o desses medicamentos e o surgimento de pancreatite\u201d, diz a pesquisadora, ressaltando que o f\u00edgado e a ves\u00edcula biliar tamb\u00e9m podem ficar sobrecarregados. Relatos mais graves, como casos de cegueira irrevers\u00edvel notificados pela Anvisa, acendem o alerta para o uso sem acompanhamento rigoroso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Irregularidades e o perigo do mercado paralelo<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O sucesso do medicamento no mercado gerou um efeito colateral social. Recentemente, a Pol\u00edcia Federal apreendeu materiais em farm\u00e1cias de manipula\u00e7\u00e3o que produziam essas f\u00f3rmulas de forma irregular, sem os devidos protocolos de seguran\u00e7a. H\u00e1 tamb\u00e9m carregamentos de canetas importadas via mercado paralelo, que circulam sem qualquer fiscaliza\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Luciane \u00e9 enf\u00e1tica ao alertar que a manipula\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 segura sob regras espec\u00edficas, e o perigo das vers\u00f5es adulteradas \u00e9 imensur\u00e1vel. \u201cIsso pode dificultar a determina\u00e7\u00e3o dos efeitos colaterais, uma vez que n\u00e3o se sabe o que mais teria na caneta\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental frisar que tratamos de medicamentos injet\u00e1veis. Diferente de um comprimido, subst\u00e2ncias aplicadas diretamente no tecido subcut\u00e2neo exigem um controle absoluto em sua produ\u00e7\u00e3o. Problemas de higiene, falhas na cadeia de resfriamento ou presen\u00e7a de contaminantes em canetas falsificadas podem levar a infec\u00e7\u00f5es graves e rea\u00e7\u00f5es al\u00e9rgicas. O benef\u00edcio cl\u00ednico dessas canetas \u00e9 ineg\u00e1vel, mas, como conclui a pesquisadora, apenas o tempo e os estudos de longo prazo revelar\u00e3o o impacto real dessa \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d na sa\u00fade p\u00fablica mundial.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Entrevista gravada para o programa Uniso Sa\u00fade \u2013 LabCom-Uniso.<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadora da Uniso, Luciane Lopes, conta a hist\u00f3ria desses medicamentos e aponta os seus benef\u00edcios e riscos Por Gustavo Guebert<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,16,37,14],"tags":[41,29,97,28],"class_list":["post-5237","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-digital","category-sorocaba","category-uniso","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-saude","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-digital\/\" rel=\"category tag\">jornalismo digital<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/sorocaba\/\" rel=\"category tag\">Sorocaba<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5237","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5237"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5237\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5239,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5237\/revisions\/5239"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5237"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5237"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5237"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}