{"id":5256,"date":"2026-03-12T10:01:33","date_gmt":"2026-03-12T13:01:33","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5256"},"modified":"2026-04-01T09:25:32","modified_gmt":"2026-04-01T12:25:32","slug":"a-vulgarizacao-do-feminino-como-hobbies-considerados-femininos-sao-ridicularizados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/03\/12\/a-vulgarizacao-do-feminino-como-hobbies-considerados-femininos-sao-ridicularizados\/","title":{"rendered":"A Vulgariza\u00e7\u00e3o do feminino: como hobbies considerados femininos s\u00e3o ridicularizados"},"content":{"rendered":"\n<p><em>[S\u00e9rie M\u00eas das Mulheres] Da inf\u00e2ncia \u00e0 vida adulta, gostos associados \u00e0s mulheres continuam sendo tratados como f\u00fateis \u2014 um reflexo de desigualdades culturais que ainda persistem<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Nathalia Gussom (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"751\" height=\"581\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/12.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5257\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/12.jpg 751w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/12-300x232.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 751px) 100vw, 751px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Fonte: Freepik, Stephanie2212<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p>No dia 4 de fevereiro de 2026, durante a assinatura do Pacto Nacional Contra O Feminic\u00eddio, a rapper Ebony, disse em entrevista que: \u201cO feminic\u00eddio \u00e9 o est\u00e1gio final de uma doen\u00e7a que come\u00e7a na inf\u00e2ncia dos meninos\u201d, antes da viol\u00eancia extrema, h\u00e1 um processo silencioso e socialmente naturalizado: a desvaloriza\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que \u00e9 associado ao feminino. Desde cedo, aprende-se que o que \u00e9 \u201cde menina\u201d \u00e9 fr\u00e1gil, exagerado, f\u00fatil \u2014 e, por isso, ridiculariz\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A import\u00e2ncia de manter hobbies \u00e9 um fato consolidado, no estresse da vida adulta eles funcionam como uma v\u00e1lvula de escape, um respiro na rotina agitada, e podem se manifestar das mais diversas formas. Alguns homens jogam videogame, participam de uma partida de futebol com os amigos, jogam sinuca, colecionam figuras de a\u00e7\u00e3o ou leem HQs protagonizadas por um milion\u00e1rio que, \u00e0 noite, veste-se de morcego para salvar os cidad\u00e3os dos vil\u00f5es de sua cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas formas de descanso s\u00e3o v\u00e1lidas e bem-vistas pela sociedade, mas, e se invertemos o lado?<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma lembran\u00e7a pessoal, vem \u00e0 minha mente um breve momento da inf\u00e2ncia: minha m\u00e3e me puxando da sala para a cozinha enquanto meu av\u00f4 assistia ao futebol. Ela preparava o jantar e dizia que aquele era \u201co momento dele\u201d. O que sempre me pareceu estranho: no dia seguinte, quem trabalharia seria ela. Ainda assim, n\u00e3o me lembro de v\u00ea-la tendo o \u201cmomento dela\u201d durante o fim de semana. Esse relato parece inocente, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma hierarquia cultural entre homens e mulheres, do ponto de vista da professora e soci\u00f3loga Edsel Pamplona Diebe, essa hierarquia n\u00e3o \u00e9 novidade: \u201cSempre existiu. Mulheres ganham menos, tem menos oportunidades e fazem muito mais jornadas que os homens, pois a casa e os filhos ainda continuam sendo sua responsabilidade. Sempre a ideia de que o homem apenas \u201cajuda\u201d, se eximindo da responsabilidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Analisando por esse ponto de vista, percebemos que o problema \u00e9 muito mais complexo do que parece. As mulheres carregam um estere\u00f3tipo bem definido dentro de uma sociedade mis\u00f3gina, por isso, uma mulher que possui hobbies demonstra ter outras prioridades e, portanto, n\u00e3o est\u00e1 confinada \u00e0 pris\u00e3o dom\u00e9stica que socialmente lhe \u00e9 imposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de represaria n\u00e3o prejudica apenas as mulheres. A professora M\u00f4nica de C\u00e1ssia Ettinger, pedagoga e atualmente diretora de escola do Ensino B\u00e1sico ao M\u00e9dio, afirma que o medo de parecer feminino ainda assombra muitos meninos, que evitam se aproximar do chamado \u201cmundo cor-de-rosa\u201d para n\u00e3o se tornarem v\u00edtimas de bullying. A ridiculariza\u00e7\u00e3o surge, inicialmente, como um mecanismo de defesa; por\u00e9m, \u00e0 medida que esses meninos crescem, essa ridiculariza\u00e7\u00e3o pode se transformar em desprezo \u2014 e, em casos mais extremos, em viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga Janaina Colombo explica esse fen\u00f4meno da seguinte maneira: \u201cDurante a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, os interesses e hobbies funcionam como espa\u00e7os de constitui\u00e7\u00e3o da identidade. Erik Erikson descreve essa fase como central para a forma\u00e7\u00e3o do senso de identidade, em que o sujeito experimenta pap\u00e9is e constr\u00f3i coer\u00eancia interna. Quando gostos associados ao feminino s\u00e3o ridicularizados, ocorre uma interfer\u00eancia direta nesse processo. [&#8230;] Al\u00e9m disso, [o soci\u00f3logo franc\u00eas] Pierre Bourdieu descreve a viol\u00eancia simb\u00f3lica como uma forma de domina\u00e7\u00e3o que opera de maneira invis\u00edvel, naturalizando hierarquias culturais. Ao desqualificar o feminino, a cultura transmite a mensagem de que aquilo que se associa \u00e0s meninas tem menor valor. Isso afeta tanto meninas, que internalizam essa inferioriza\u00e7\u00e3o, quanto meninos, que aprendem a rejeitar aspectos sens\u00edveis da pr\u00f3pria subjetividade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto meninos muitas vezes s\u00e3o incentivados a evitar comportamentos associados \u00e0 sensibilidade ou ao cuidado, meninas acabam aprendendo, desde cedo, a relativizar ou justificar seus pr\u00f3prios gostos. Isso aparece, por exemplo, em uma entrevista concedida pela trancista Ana Vit\u00f3ria Feyisayo Layiwola. Ao receber suas clientes, ela percebe dois padr\u00f5es recorrentes. O primeiro \u00e9 que muitas mulheres sentem a necessidade de explicar o tempo dedicado ao autocuidado e o investimento que fazem em si mesmas. O segundo \u00e9 que algumas relatam ouvir coment\u00e1rios pouco acolhedores, \u00e0s vezes ing\u00eanuos e estruturais de seus companheiros. Entre as frases mais comuns, aparecem observa\u00e7\u00f5es como: \u201cvai gastar com esse cabelo?\u201d, \u201cvai ficar muito tempo no sal\u00e3o?\u201d ou \u201cn\u00e3o vai fazer tran\u00e7a curta ou nag\u00f4, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"336\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/23.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5258\" style=\"width:728px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/23.jpg 500w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/23-300x202.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Fonte: Freepik<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p>A doutora Janaina pontua que a viol\u00eancia masculina possui diversas ra\u00edzes, que podem ou n\u00e3o estar diretamente ligadas a esse tipo de agress\u00e3o simb\u00f3lica. Segundo ela: \u201cN\u00e3o se trata de causalidade direta e isolada, mas de um componente estrutural relevante. A viol\u00eancia contra mulheres \u00e9 multifatorial, envolvendo aspectos hist\u00f3ricos, culturais e psicossociais. No entanto, a desvaloriza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica contribui para a naturaliza\u00e7\u00e3o de assimetrias.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, existem diversas maneiras de incentivar meninos a se sentirem distantes das mulheres, como se vivessem em mundos opostos e hierarquizados, onde eles precisam demonstrar superioridade, mantendo a mulher em um lugar de submiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como afirma a psic\u00f3loga, \u201cMicrodesqualifica\u00e7\u00f5es e discursos depreciativos fazem parte de um continuum que pode evoluir para formas mais graves de viol\u00eancia. A soci\u00f3loga brasileira Heleith Saffioti e Bourdieu demonstram que a domina\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m tanto por mecanismos simb\u00f3licos quanto materiais. Portanto, a ridiculariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 causa \u00fanica, mas integra o contexto cultural que sustenta desigualdades de g\u00eanero.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ser mulher ainda carrega consigo preconceito, inseguran\u00e7a e medo. Infelizmente, n\u00e3o existe uma f\u00f3rmula pronta para lidar com esse problema. Para a professora La\u00eds Da Burgheri, a escola possui um papel fundamental na desconstru\u00e7\u00e3o da misoginia. \u201cA informa\u00e7\u00e3o di\u00e1ria \u00e9 essencial. \u00c9 preciso manter crian\u00e7as e adolescentes orientados e desconstruindo estere\u00f3tipos, abordando o tema de acordo com a idade dos alunos. Mas os respons\u00e1veis tamb\u00e9m precisam caminhar junto com a escola, o que nem sempre acontece.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A psic\u00f3loga Janaina tamb\u00e9m aponta alguns sinais que podem ser observados em crian\u00e7as e adolescentes, entre eles:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Vergonha persistente em rela\u00e7\u00e3o a interesses pessoais;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Abandono de atividades prazerosas ap\u00f3s epis\u00f3dios de ridiculariza\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Autodeprecia\u00e7\u00e3o baseada em estere\u00f3tipos de g\u00eanero;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Rejei\u00e7\u00e3o agressiva ao feminino, especialmente entre meninos;<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Isolamento social decorrente do medo de julgamento.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Segundo ela, o pensador russo Lev Vygotsky, refer\u00eancia na \u00e1rea da Educa\u00e7\u00e3o, enfatiza que o desenvolvimento humano ocorre por meio da media\u00e7\u00e3o social. Ambientes que validam experi\u00eancias favorecem uma elabora\u00e7\u00e3o ps\u00edquica saud\u00e1vel, enquanto ambientes que ridicularizam refor\u00e7am internaliza\u00e7\u00f5es negativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 dizia a intelectual francesa, Simone de Beauvoir, \u201cn\u00e3o se nasce mulher, torna-se mulher\u201d. O chamado \u201csexo fr\u00e1gil\u201d, na verdade, n\u00e3o tem nada de fr\u00e1gil. Mulheres como Anita Garibaldi, Joana d\u2019Arc, Dandara dos Palmares, Gl\u00f3ria Maria, Rita Lee e Cora Coralina mostraram, em diferentes momentos da hist\u00f3ria, que n\u00e3o aceitaram se encaixar em pap\u00e9is impostos pela sociedade com base em seu g\u00eanero, n\u00e3o permitiram que suas vidas e ideias fossem moldadas a partir da ideia de um homem. Mulheres precisam estudar, se divertir, aproveitar cada minuto do seu dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Fortalecer meninas hoje \u00e9 ajudar a construir mulheres livres amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[S\u00e9rie M\u00eas das Mulheres] Da inf\u00e2ncia \u00e0 vida adulta, gostos associados \u00e0s mulheres continuam sendo tratados como f\u00fateis \u2014 um<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,16,9,7,14],"tags":[41,29,28],"class_list":["post-5256","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-digital","category-jornalismo-online","category-reportagens-especiais","category-uniso","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-digital\/\" rel=\"category tag\">jornalismo digital<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/reportagens-especiais\/\" rel=\"category tag\">Reportagens Especiais<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5256","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5256"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5256\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5259,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5256\/revisions\/5259"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}