{"id":5341,"date":"2026-03-19T09:55:25","date_gmt":"2026-03-19T12:55:25","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5341"},"modified":"2026-04-01T09:27:00","modified_gmt":"2026-04-01T12:27:00","slug":"a-luta-constante-das-travestis-e-mulheres-trans-pelo-direito-a-existencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/03\/19\/a-luta-constante-das-travestis-e-mulheres-trans-pelo-direito-a-existencia\/","title":{"rendered":"A luta constante das travestis e mulheres trans pelo direito \u00e0 exist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p><em>[S\u00e9rie M\u00eas das Mulheres] Mulheres trans e travestis seguem mostrando que a sobreviv\u00eancia \u00e9 o primeiro passo para a resist\u00eancia \u00e0 invisibiliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Antony Moscatelli (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"761\" height=\"428\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-13.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5342\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-13.jpg 761w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/image-13-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 761px) 100vw, 761px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Em 27 de fevereiro de 1987, uma opera\u00e7\u00e3o policial percorreu ruas de S\u00e3o Paulo sob o pretexto de combater a AIDS e \u201climpar\u201d a cidade do que era considerado indesejado. A a\u00e7\u00e3o, batizada de Opera\u00e7\u00e3o Tar\u00e2ntula, teve como alvo principal travestis e mulheres trans que trabalhavam nas ruas da cidade. Outras opera\u00e7\u00f5es de mesmo vi\u00e9s aconteceram antes e depois, por todo o pa\u00eds, mesmo ap\u00f3s o final da ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase quatro d\u00e9cadas depois, mesmo que essa persegui\u00e7\u00e3o n\u00e3o receba o nome de uma opera\u00e7\u00e3o policial, essa viol\u00eancia segue viva, obrigando essas mulheres a sobreviver. O Brasil segue liderando o ranking de pa\u00edses com mais assassinatos de pessoas trans e travestis no mundo desde 2009. Embora dados coletados pelo projeto <a href=\"https:\/\/transmurdermonitoring.tgeu.org\/en\">Trans Murder Monitoring<\/a>, criado pelo grupo TGEU (Trans Europe and Central Asia), mostrem uma redu\u00e7\u00e3o de aproximadamente 34% nos casos, sendo o menor n\u00famero de ocorr\u00eancias registrado em 2025, o Brasil segue invicto em sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais que essa viol\u00eancia, em parte das vezes, n\u00e3o apare\u00e7a de forma f\u00edsica e visceral, ela surge velada e intr\u00ednseca na marginaliza\u00e7\u00e3o dessas mulheres. Informa\u00e7\u00f5es do instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA) e da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) mostraram que, em 2020, apenas 6% dessas mulheres estavam inseridas no mercado formal de trabalho, e que 90% tinham a prostitui\u00e7\u00e3o como fonte principal de renda.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a artista Urutau Pinto, 32 anos, essa marginaliza\u00e7\u00e3o funciona como parte de um problema sist\u00eamico, que limita o acesso dessas mulheres aos direitos b\u00e1sicos, as colocando em condi\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade, onde a maior resist\u00eancia se torna a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-6c531013 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"595\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.46.03-595x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5343\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.46.03-595x1024.jpeg 595w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.46.03-174x300.jpeg 174w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.46.03-768x1321.jpeg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.46.03-893x1536.jpeg 893w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.46.03.jpeg 930w\" sizes=\"auto, (max-width: 595px) 100vw, 595px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.48.00-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5344\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.48.00-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.48.00-225x300.jpeg 225w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-18-at-18.48.00.jpeg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>DJ na R\u00e1dio Pantera e professora de Kung-Fu na Escola N\u00facleo 7 Esferas do Tao, Urutau Pinto | Arquivo Pessoal<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p>Urutau entende essa viol\u00eancia, essa agress\u00e3o aos corpos movida pelo \u00f3dio ao que se comporta diferente das normas impostas ao g\u00eanero designado, que teria surgido na \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o, como o que ocorreu no caso Tibira \u2013 considerado o primeiro assassinato por homofobia em territ\u00f3rio nacional \u2013, como mais uma das formas de controle impostas pelos europeus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente entra num looping de persegui\u00e7\u00e3o mesmo. Essa parte mais documental da hist\u00f3ria das travestis est\u00e1 muito nesse lugar da viol\u00eancia do Estado. A gente come\u00e7a a ter essas refer\u00eancias, das mem\u00f3rias dessas pessoas, a partir do que era par\u00e2metro na \u00e9poca da ditadura. Mas antes mesmo da coloniza\u00e7\u00e3o, a gente j\u00e1 estava aqui. Essas travestis que foram perseguidas na \u00e9poca da ditadura, elas estavam aqui antes tamb\u00e9m. A gente n\u00e3o tem esses registros formais, porque quem \u00e9 que estava fazendo os registros?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse ciclo no qual a falta de oportunidades formais empurra mulheres trans e travestis para a informalidade e, posteriormente, legitima o estigma associado a esses espa\u00e7os, construindo uma narrativa que responsabiliza os indiv\u00edduos pelas condi\u00e7\u00f5es que lhes foram impostas \u00e9 apenas uma das engrenagens desse sistema de marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que sua primeira mem\u00f3ria de uma travesti surgiu ainda na inf\u00e2ncia, quando ela passava de carro com os pais a alguns quarteir\u00f5es da avenida General Carneiro, em Sorocaba, e via as mo\u00e7as trabalhando na rua, \u201ceu n\u00e3o entendia porque elas estavam com pouqu\u00edssima roupa, eu s\u00f3 as achava maravilhosas, muito potentes. E era um grande evento no carro. O assunto existia enquanto tabu e existia enquanto transf\u00f3bico. [Eu perguntava] e n\u00e3o fazia sentido o que eles [os adultos] respondiam. N\u00e3o vou generalizar, mas existe uma cultura de voc\u00ea n\u00e3o responder \u00e0s quest\u00f5es das crian\u00e7as.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse distanciamento imposto pela sociedade acaba se virando contra ela pr\u00f3pria em certos momentos. Essa demoniza\u00e7\u00e3o, como a musicista Lucy Balera, de 27 anos, chama, acaba refor\u00e7ando esses padr\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-6c531013 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-group is-content-justification-center is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-23441af8 wp-block-group-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-19-at-11.55.48-1-1024x682.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5356\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-19-at-11.55.48-1-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-19-at-11.55.48-1-300x200.jpeg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-19-at-11.55.48-1-768x512.jpeg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/WhatsApp-Image-2026-03-19-at-11.55.48-1.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Guitarrista da banda de metal sorocabana Mettonimia, Lucy Balera | Arquivo Pessoal<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente s\u00f3 \u00e9 valorizada no escuro, escondida. E tamb\u00e9m, quando elas [as pessoas] fazem esse tipo de coment\u00e1rio, de passar na rua e ver as meninas trabalhando e come\u00e7ar a zoar ou falar mal, elas n\u00e3o enxergam que elas mesmas acabam colocando a gente nesse padr\u00e3o. Porque, na vis\u00e3o delas, a gente s\u00f3 serve para entretenimento ou para a ind\u00fastria sexual. \u00c9 muito dif\u00edcil entrar em qualquer estabelecimento e ver pessoas trans convivendo, s\u00f3 vivendo na sociedade, sem olhares.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O direito ao trabalho \u00e9 apenas um dos que s\u00e3o limitados de forma velada. Urutau conta que viu de perto pessoas que procuraram trabalho por meses e s\u00f3 conseguiram quando exclu\u00edram o nome social do curr\u00edculo, sendo obrigadas a se esconder atr\u00e1s de uma identidade que n\u00e3o as pertence.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa limita\u00e7\u00e3o dos direitos b\u00e1sicos aparece no cotidiano. Lucy relata que a simples presen\u00e7a de pessoas trans em ambientes comuns ainda \u00e9 marcada por estranhamento, o que causa a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pertencimento. \u201cEu me sinto bem com meu corpo, mas eu sinto que, \u00e0s vezes, essa cisgeneridade faz a gente ficar nesse medo, nessa ansiedade. Se as pessoas n\u00e3o me lerem [no espectro feminino], eu n\u00e3o vou ser validada. Tem lugares que voc\u00ea entra e as pessoas ficam te olhando com cara feia. A pessoa faz voc\u00ea se sentir como se voc\u00ea n\u00e3o pertencesse \u00e0quele lugar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o \u00e9 corroborada por Urutau, que descreve Sorocaba como uma das cidades onde ela se sentiu menos segura. \u201cO meu direito de ir e vir \u00e9 totalmente cerceado. Ele n\u00e3o \u00e9 impedido, obviamente, mas ele \u00e9 cerceado. Todo lugar que eu estou, eu estou enquanto uma travesti, eu sei que se eu estou em uma cidade que \u00e9 transf\u00f3bica, eu sei que meu corpo n\u00e3o est\u00e1 seguro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse sentimento de rejei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limita apenas ao pa\u00eds n\u00famero um no ranking do TGEU, mas se expande inclusive para pa\u00edses de boa fama. A artista drag Ada Cristina Bezerra, de 26 anos, mora desde 2017 na Finl\u00e2ndia e conta que o t\u00edtulo de \u201cPa\u00eds Mais Feliz do Mundo\u201d, recebido pela oitava vez consecutiva no World Happiness Report, em 2025, causa risos nela e em suas irm\u00e3s da cena trans e ballroom.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/jpg-1-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5347\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/jpg-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/jpg-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/jpg-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/jpg-1.jpg 1087w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Ada Cristina Costa Bezerra, Dragqueen \u201cNix Conspiracy\u201d | Arquivo Pessoal<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p>Os fatores considerados para receber esse t\u00edtulo s\u00e3o os n\u00edveis de confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, o baixo \u00edndice de desigualdade, a qualidade de servi\u00e7os p\u00fablicos, a seguran\u00e7a e o apoio social. Para Cristina, a introspec\u00e7\u00e3o cultural europeia \u00e9 a grande respons\u00e1vel por esse deslize. \u201cAqui as pessoas s\u00e3o mais quietas, mas tem [o preconceito]. Olhares, falam asneira quando bebem. Eu tive umas quest\u00f5es bem esquisitas, indo ao m\u00e9dico, por exemplo, e a enfermeira falando \u2018essa cama aqui \u00e9 s\u00f3 para mulheres deitarem\u2019.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de terem acontecido algumas mudan\u00e7as nas leis que asseguram pessoas trans na Finl\u00e2ndia em 2023, Cristina conta que tudo acaba sendo colocado em brechas. Por exemplo, a necessidade de um diagn\u00f3stico psiqui\u00e1trico que foi removido dos pr\u00e9-requisitos para ter acesso aos tratamentos e \u00e0 transi\u00e7\u00e3o, mas foi trocado pelo chamado \u201cPer\u00edodo de Reflex\u00e3o\u201d, uma janela de 30 dias entre o pedido inicial para a transi\u00e7\u00e3o e o in\u00edcio dos tr\u00e2mites.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEles mandam um formul\u00e1rio, como se a gente estivesse fazendo a prova do Enem, mas para ser trans. Eu acho que se a pessoa j\u00e1 vai ao psic\u00f3logo, que era o meu caso, a pessoa j\u00e1 tem vivido com um nome diferente, usando banheiro diferente, fazendo tudo diferente\u2026 Eles tratam como se o dia que voc\u00ea ligou fosse o primeiro dia que voc\u00ea decidiu ser trans, na vis\u00e3o deles, que voc\u00ea n\u00e3o tinha uma vida antes, que voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o estava passando por v\u00e1rias coisas antes. Voc\u00ea j\u00e1 transicionou socialmente antes de come\u00e7ar esse processo todo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No Dia Internacional da Mulher, 8 de mar\u00e7o, a representatividade e o acolhimento vieram de dentro da comunidade. Lucy conta que, com a data sendo tomada pelo capitalismo, o mais importante se torna o auto entendimento e as pequenas conquistas. \u201cReceber um Feliz Dia das Mulheres da minha m\u00e3e foi uma coisa m\u00e1gica. A gente ainda tem que entender que se a gente n\u00e3o se enxergar, quem mais vai?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Cristina, que \u00e9 m\u00e3e da Conspiracy House, uma casa de Ballroom em Helsinque, conta que organizou um show drag para o dia das mulheres, criando uma representatividade interna. \u201cUma das minhas irm\u00e3s de cena, ela estava sendo uma das juradas do ball, a gente se abra\u00e7ou e falou \u201colha s\u00f3 para n\u00f3s\u201d. Antes da Eurovision tem uma competi\u00e7\u00e3o na Finl\u00e2ndia para saber quem vai competir pelo pa\u00eds, e ela foi parte da performance de uma das ganhadoras anteriores. Essa menina trans, negra, imigrante.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Urutau aponta a luta pelos direitos n\u00e3o como coisas desconectadas, \u201ca gente entende que n\u00e3o somos iguais \u00e0s pessoas cisg\u00eaneras, mas a gente tamb\u00e9m precisa de aten\u00e7\u00e3o aos nossos corpos. Hoje, a gente n\u00e3o precisa de algo paralelo, a gente precisa que essas pol\u00edticas p\u00fablicas sejam mais abrangentes.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ela concorda que existam iniciativas pontuais que tentam auxiliar a luta pelos direitos, mas que para elas funcionarem \u00e9 necess\u00e1rio o coletivo, independente da data. \u201cEsses s\u00e3o os momentos em que a comunidade precisa se organizar, se encontrar, se ver, entender os problemas e exigir pol\u00edticas p\u00fablicas. As marchas trans t\u00eam existido para isso e n\u00e3o para entretenimento. A gente t\u00e1 morrendo. \u00c9 claro, a gente precisa comemorar, \u00e9 importante se sentir viva, mas \u00e9 importante a gente se sentir viva o ano inteiro, e para isso a gente precisa estar ativa o ano inteiro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As tr\u00eas mulheres concordaram ao dizer que a luta contra o machismo, a misoginia e a transfobia caminham juntas em uma mesma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Lucy conta que, quando crian\u00e7a, era cultural ensinar os meninos a fazer essa associa\u00e7\u00e3o homof\u00f3bica a tudo que fugisse do estere\u00f3tipo masculino, entrando em um paradoxo em que, para ser considerado \u201cum homem de valor\u201d, era necess\u00e1rio desprezar o universo feminino ou qualquer coisa que se aproximasse minimamente dele.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEles [os homens] mesmos caem nesse paradoxo. Se eles n\u00e3o enxergam a gente como mulher, por que eles nos tratam como mulher de forma pejorativa? Porque, por exemplo, quando um homem chora, ele \u00e9 chamado de mulherzinha?\u201d, Lucy questiona.<\/p>\n\n\n\n<p>Cristina diz que sempre foi uma crian\u00e7a afeminada, \u201cdo tipo que era chamada de viado antes de saber o que isso significava\u201d, e que qualquer associa\u00e7\u00e3o feita com o feminino era vista como sinal de fraqueza.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de serem os grandes alvos da transfobia, representando 47,4% das v\u00edtimas reportadas ao Trans Murder Monitoring, essas mulheres entendem que a transfobia \u00e9 um problema interno de quem \u00e9 transf\u00f3bico. Independente dos preconceitos enraizados na sociedade, essas mulheres v\u00e3o continuar existindo e v\u00e3o continuar resistindo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs pessoas trans est\u00e3o construindo o mundo delas, as pessoas cis deveriam estar fazendo o mesmo.\u201d, diz Urutau.<\/p>\n\n\n\n<p>Lucy enxerga as pessoas transf\u00f3bicas como presas num padr\u00e3o de valores que acaba as privando de viver completamente, j\u00e1 que deliberam uma parte de seus dias para disseminar um \u00f3dio infundado. \u201cIsso j\u00e1 mostra o tanto de limita\u00e7\u00e3o que essas pessoas t\u00eam nas vidas delas. Mas \u00e9 bizarro a gente falar para nossa m\u00e3e, olha, quando a gente for no mercado, no shopping, tente n\u00e3o se importar com os olhares. \u00c9 meio triste isso, voc\u00ea ter que olhar pra sua m\u00e3e e falar, olha, se prepare. Porque v\u00e3o ter muitos olhares, voc\u00ea vai passar por coisas comigo s\u00f3 por eu ter aceitado quem sou.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em um m\u00eas da mulher onde a primeira deputada trans, Erika Hilton (PSOL) foi eleita presidente da Comiss\u00e3o de Defesa dos Direitos das Mulheres da C\u00e2mara dos Deputados, e foi recebida por in\u00fameros ataques pautados em seu g\u00eanero, cabe \u00e0 popula\u00e7\u00e3o pensar quais s\u00e3o as prioridades que est\u00e3o sendo levadas em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A rapper Ebony se pronunciou nas redes sociais ap\u00f3s os ataques conta Erika Hilton, dizendo se sentir mais representada por ela do que por \u201cmuitas mulheres cis brancas que nasceram ricas\u201d, demonstrando a consci\u00eancia de luta coletiva por direitos, uma tecla que a deputada bate bastante ao declarar durante o discurso de posse, no dia 11 de mar\u00e7o, que sua \u201cgest\u00e3o tratar\u00e1 de todas as mulheres\u201d, principalmente por ser algo t\u00e3o abrangente.<\/p>\n\n\n\n<p>Cristina conta que cresceu com tantas mulheres diferentes ao seu redor que acha besteira tentar definir o que \u00e9 ser mulher. \u201cMulheres t\u00eam sido mulheres diferentes durante toda a exist\u00eancia do planeta.\u201d Para Urutau, muito al\u00e9m do que uma defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 a presen\u00e7a. No final das contas, \u00e9 algo muito individual, uma descoberta \u00fanica e interna, como conta Lucy.<\/p>\n\n\n\n<p>A transfobia \u00e9 crime equiparado ao racismo no Brasil, desde 2019, sendo inafian\u00e7\u00e1vel e imprescrit\u00edvel. Lucy conta que n\u00e3o confia tanto na defesa do Estado por conta da falta de seguran\u00e7a e do apagamento sofrido pelas mulheres trans que foram atacadas. Ainda sim, ela mant\u00e9m viva uma esperan\u00e7a de dias melhores, trazida principalmente pela cena underground, \u201cEu sinto que estou presa aqui [em Sorocaba] ainda para ver isso acontecer e fazer parte disso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Acesse o Trans Murder Monitoring: <a href=\"https:\/\/transmurdermonitoring.tgeu.org\/en\/\">https:\/\/transmurdermonitoring.tgeu.org\/en\/<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Veja tamb\u00e9m:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O mundo do glamour e excentricidade das drag queens performado por mulheres (<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/05\/29\/o-mundo-do-glamour-e-excentricidade-das-drag-queens-performado-por-mulheres\/\">https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/05\/29\/o-mundo-do-glamour-e-excentricidade-das-drag-queens-performado-por-mulheres\/<\/a>)<\/p>\n\n\n\n<p>Movimento Ballroom sorocabano \u00e9 contemplado por fomento da Secretaria de Cultura (<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/08\/14\/movimento-ballroom-sorocabano-e-contemplado-por-fomento-da-secretaria-de-cultura\/\">https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2025\/08\/14\/movimento-ballroom-sorocabano-e-contemplado-por-fomento-da-secretaria-de-cultura\/<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[S\u00e9rie M\u00eas das Mulheres] Mulheres trans e travestis seguem mostrando que a sobreviv\u00eancia \u00e9 o primeiro passo para a resist\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[11,15,16,9,7,14],"tags":[41,29,28],"class_list":["post-5341","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-diversidade","category-jornalismo","category-jornalismo-digital","category-jornalismo-online","category-reportagens-especiais","category-uniso","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/diversidade\/\" rel=\"category tag\">diversidade<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-digital\/\" rel=\"category tag\">jornalismo digital<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/reportagens-especiais\/\" rel=\"category tag\">Reportagens Especiais<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5341","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5341"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5357,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5341\/revisions\/5357"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}