{"id":5471,"date":"2026-04-07T15:01:29","date_gmt":"2026-04-07T18:01:29","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5471"},"modified":"2026-04-07T15:01:29","modified_gmt":"2026-04-07T18:01:29","slug":"love-story-o-jornalismo-predatorio-com-carolyn-bassette-e-o-jornalismo-pop-de-john-f-kennedy-jr","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/04\/07\/love-story-o-jornalismo-predatorio-com-carolyn-bassette-e-o-jornalismo-pop-de-john-f-kennedy-jr\/","title":{"rendered":"Love Story: o jornalismo predat\u00f3rio com Carolyn Bassette e o jornalismo pop de John F. Kennedy Jr"},"content":{"rendered":"\n<p>Na primeira temporada da s\u00e9rie Love Story, acompanhamos uma vers\u00e3o ficcional do relacionamento real de John F. Kennedy Jr., filho de um presidente dos EUA assassinado, com a rela\u00e7\u00f5es-p\u00fablicas Carolyn Bassette. Os dois se casaram e faleceram poucos anos depois num acidente de avi\u00e3o. A hist\u00f3ria de amor desse casal, bem como seu fim tr\u00e1gico, foi ao mesmo tempo inspira\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica e prato cheio para a m\u00eddia. Atentando-nos exclusivamente aos acontecimentos como foram retratados ficcionalmente na s\u00e9rie, \u00e9 inevit\u00e1vel ver o papel do jornalismo na vida desse casal. Mas esse jornalismo opera de formas muito diferentes em cada um dos membros desse par rom\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ando por Carolyn Bassette, podemos dizer que a s\u00e9rie faz nela um retrato da mulher trabalhadora e independente dos anos 1990. Uma mulher esperta, muito consciente de si mesma. Seu charme vem do seu olhar ao mesmo tempo cir\u00fargico e espont\u00e2neo para o mundo. Rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas da Calvin Klein, a s\u00e9rie coloca Bassette como pe\u00e7a central de posicionamentos centrais da marca que a renovaram naquela d\u00e9cada, como a escolha da modelo Kate Moss para estrelar as campanhas da grife. A Bessette retratada em Love Story parece ter uma sensibilidade para captar o esp\u00edrito daquela \u00e9poca e colocar o marketing da Calvin Klein num estilo moderno, jovem e ousado. Pode-se dizer assim que \u00e9 uma personagem que entende como a m\u00eddia e a comunica\u00e7\u00e3o funcionam.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, a m\u00eddia \u00e9 completamente diferente quando se est\u00e1 na frente das c\u00e2meras, ou melhor, na mira delas. Assim que seu relacionamento com Kennedy Jr. vem a p\u00fablico, Bassette passa a ser alvo da imprensa de uma forma que nunca desejou. Todos parecem fascinados em saber quem \u00e9 a mulher que conquistou o cora\u00e7\u00e3o de um gal\u00e3 como Kennedy Jr., um homem que cresceu acostumado com os holofotes e carregava o peso de ser um Kennedy, uma das fam\u00edlias mais tradicionais e poderosas dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00eddia fica cada vez mais em cima de Bassette. Jornalistas e paparazzis a perseguem, cada movimento dela \u00e9 registrado sem que ela queira. Em uma cena amarga, vemos a rea\u00e7\u00e3o da personagem ao ver o notici\u00e1rio sobre a morte da princesa Diana. Ela fica assustada e diz que mesmo uma pessoa que gostava da m\u00eddia como Diana teve um fim tr\u00e1gico gra\u00e7as ao ass\u00e9dio de tabloides e do jornalismo de celebridades. Ao longo dos anos de casamento, Carolyn Bassette, retratada como uma mulher vibrante, que amava trabalhar e socializar, vai se isolando, sufocada pelo peso do jornalismo de fofocas literalmente na porta da sua casa, esperando que ela saia para que seja fotografada. Ela \u00e9 uma v\u00edtima desse tipo de jornalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Kennedy Jr., por outro lado, \u00e9 um entusiasta do potencial pop da sua figura. Acostumado com a fama e consciente de ser de uma esp\u00e9cie de \u201crealeza\u201d estadunidense, ele funda em 1995 a revista George, que buscava trazer um olhar pop e jovem para a pol\u00edtica. O nome era uma refer\u00eancia ao primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, e a primeira capa da revista sintetiza a vis\u00e3o de Kennedy Jr. para a revista. A capa mostra a supermodelo Cindy Crawford vestida como uma vers\u00e3o sensual de Washington. Um grande \u00edcone da pol\u00edtica e da hist\u00f3ria do pa\u00eds representado por uma supermodelo. Aqui vale ressaltar o papel que modelos como Cindy Crawford, Naomi Campbell e Linda Evangelista tinham no imagin\u00e1rio daquela \u00e9poca. Era o auge das supermodelos, elas eram o que havia de mais pop, de mais jovem na \u00e9poca. Estavam no videoclipe de Freedom, do cantor George Michael, em desfiles da Versace, na capa de revistas de moda e agora na capa de uma revista de pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Kennedy Jr. conviveu desde sempre com a ambiguidade de ser ao mesmo tempo uma figura que aparecia no caderno de pol\u00edtica e no de celebridades de um jornal. Membro de uma \u201cdinastia\u201d pol\u00edtica, sempre se esperou que enveredasse por esse caminho. A sombra de figuras como o pai, presidente, e do tio, senador, sempre o acompanharam. Ao mesmo tempo, John John, como era conhecido, era visto como uma esp\u00e9cie de \u201cmenino grande\u201d, de queridinho do pa\u00eds. Namorou celebridades, era bem apessoado e desejado. Ent\u00e3o parece natural que, ao se aventurar no jornalismo, esse homem buscasse unir essas duas partes da sua figura, a pol\u00edtica e a pop. E ele fez isso na revista George.<\/p>\n\n\n\n<p>O retrato que a s\u00e9rie faz de Kennedy Jr., por\u00e9m, \u00e9 o de um homem mimado, que n\u00e3o est\u00e1 acostumado a se dedicar muito para receber reconhecimento. Seu s\u00f3cio na revista vive nervoso com a falta de comprometimento de Kennedy Jr. no trabalho, dizendo que para ele aquilo era mais uma divers\u00e3o do que um trabalho s\u00e9rio. Independente do grau de veracidade desse retrato ficcional, o que se observa na hist\u00f3ria da revista George \u00e9 uma coisa que alguns poderiam chamar de revolucion\u00e1ria, e outros de problem\u00e1tica: a transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica em espet\u00e1culo, em entretenimento. Essa tend\u00eancia a espetacularizar todos os aspectos da vida humana \u00e9 muito presente na cultura estadunidense, e est\u00e1 presente com for\u00e7a no retrato que Love Story faz de Kennedy Jr. e da revista George. Nela, o escandaloso caso de seu pai com Marilyn Monroe \u00e9 parodiado numa capa. Em outra, Arnold Schwazenegger, \u00edcone dos filmes de a\u00e7\u00e3o, aparece vestido como George Washington. Na revista, o p\u00fablico se confunde com o privado, o jornalismo de celebridades se confunde com o jornalismo pol\u00edtico. Prova disso \u00e9 que Schwazzenegger viria a entrar para a pol\u00edtica e se tornaria governador do estado da Calif\u00f3rnia. Vale ressaltar que o voto n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio nos EUA, e que iniciativas como a George poderiam vir a aproximar o eleitor jovem e despolitizado do debate pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel dizer que, de certa forma, a revista George e a pr\u00f3pria figura de Kennedy Jr. j\u00e1 prenunciavam o que a pol\u00edtica se tornaria na era das redes sociais: um jogo de apar\u00eancias, onde imagens pop e discursos c\u00f4micos se tornam a norma, onde um meme \u00e9 mais poderoso do que um argumento, onde pol\u00edticos t\u00eam f\u00e3s e haters.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que isso, a pr\u00f3pria exist\u00eancia da s\u00e9rie j\u00e1 \u00e9 mais um sintoma dessa tend\u00eancia ao espet\u00e1culo da sociedade estadunidense, sobretudo a atual. Uma s\u00e9rie ficcional sobre o relacionamento de duas pessoas que faleceram h\u00e1 menos de trinta anos, onde pessoas que ainda est\u00e3o vivas s\u00e3o personagens importantes no cen\u00e1rio montado para a fic\u00e7\u00e3o. A atriz Daryl Hannah, ex-namorada de Kennedy Jr., \u00e9 retratada de forma nada lisonjeira na s\u00e9rie, e manifestou em suas redes sociais seu descontentamento por ter sido mostrada como uma mulher fr\u00edvola e desesperada pela aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos falando de pessoas que existem ou existiram no mundo real e, por mais que cada epis\u00f3dio venha com um an\u00fancio alertando que aquilo se trata de fic\u00e7\u00e3o, as coisas facilmente se confundem. Assim como na George, o \u201cs\u00e9rio\u201d e o \u201cf\u00fatil\u201d se mesclam, e de repente redes sociais como o TikTok est\u00e3o cheias de v\u00eddeos enaltecendo Carolyn Bassette como um \u00edcone de estilo, enquanto alguns grupos classificam Kenndy Jr. como um homem abusivo cuja irresponsabilidade levou o casal \u00e0 morte. Baseados no que viram numa s\u00e9rie de fic\u00e7\u00e3o, o p\u00fablico se sente j\u00fari num julgamento de pessoas reais.<\/p>\n\n\n\n<p>Fic\u00e7\u00e3o e realidade se misturam em v\u00e1rias formas de arte, assim como pol\u00edtica e economia podem se misturar com entretenimento no fazer do jornalista. O perigo \u00e9 bagun\u00e7ar as caixas a tal ponto que j\u00e1 n\u00e3o se sabe onde est\u00e1 a realidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ass-guebert.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5473\" style=\"width:760px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ass-guebert.jpg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ass-guebert-300x100.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na primeira temporada da s\u00e9rie Love Story, acompanhamos uma vers\u00e3o ficcional do relacionamento real de John F. 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