{"id":5560,"date":"2026-04-28T09:42:44","date_gmt":"2026-04-28T12:42:44","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5560"},"modified":"2026-04-28T09:42:44","modified_gmt":"2026-04-28T12:42:44","slug":"o-jornalismo-disfarcado-em-o-agente-secreto-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/04\/28\/o-jornalismo-disfarcado-em-o-agente-secreto-2025\/","title":{"rendered":"O jornalismo disfar\u00e7ado em O Agente Secreto (2025)"},"content":{"rendered":"\n<p>O jornalismo tem por objeto, valor e meta a verdade. Mas ent\u00e3o o que ele deve fazer quando a verdade \u00e9 sistematicamente encoberta por uma ditadura? Uma solu\u00e7\u00e3o particularmente criativa \u00e9 retratada no filme O Agente Secreto, de 2025. No longa, a hist\u00f3ria da Perna Cabeluda passou para o grande p\u00fablico, em especial o de fora de Recife, onde a obra se passa, como um momento pitoresco, talvez at\u00e9 um pouco tosco. Mas o que est\u00e1 representado nessa cena \u00e9 a condensa\u00e7\u00e3o do argumento principal do filme.<\/p>\n\n\n\n<p>O Agente Secreto se passa em 1977 e conta a hist\u00f3ria de um professor universit\u00e1rio brasileiro que se esconde em Recife para fugir da persegui\u00e7\u00e3o da ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. O motivo se revela lentamente ao longo do filme, e tem a ver com o objetivo central da ci\u00eancia e do ensino: o de descobrir e informar. Valores que tamb\u00e9m s\u00e3o essenciais ao fazer do jornalista, inclusive. Impedido de exercer sua profiss\u00e3o, o professor, Armando, adota o nome de Marcelo e vive escondido num pr\u00e9dio com outros \u201crefugiados\u201d, e trabalha numa reparti\u00e7\u00e3o p\u00fablica de fun\u00e7\u00e3o vaga. D\u00e9cadas depois, duas estudantes pesquisam sobre o caso de Armando como forma de preservar a documenta\u00e7\u00e3o sobre o caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9, basicamente, o enredo do filme, que se desdobra em v\u00e1rias cenas que mostram a tens\u00e3o entre verdades escondidas e verdades expostas, tecendo uma trama onde o olhar agu\u00e7ado &#8211; e, por que n\u00e3o, jornal\u00edstico &#8211; percebe que n\u00e3o h\u00e1 ali coincid\u00eancias, mas infinitos desdobramentos de um conflito entre um regime autorit\u00e1rio e seus opositores, ou apenas descontentes. Nesse cabo de guerra pelo controle da verdade, vemos uma senhora rica protegida pela pol\u00edcia do seu crime de neglig\u00eancia contra a filha da empregada de sua casa. Vemos o caso de uma perna humana encontrada dentro do corpo de um tubar\u00e3o. Vemos um pr\u00e9dio onde os moradores precisam usar nomes falsos e inventar vidas falsas. E vemos a Perna Cabeluda, uma esp\u00e9cie de lenda urbana, supostamente uma entidade que agredia pessoas em Recife. A perna era noticiada pelos jornais da cidade, quase como uma curiosidade ao mesmo tempo sinistra e c\u00f4mica. Mas, como tudo nesse filme, a Perna Cabeluda tem uma natureza dupla, assim como os habitantes do pr\u00e9dio e o gato de dois rostos que nele mora. Ela \u00e9 um c\u00f3digo, usado pelos jornais para noticiar de forma jocosa a viol\u00eancia policial do regime. A essa entidade eram atribu\u00eddos os crimes de Estado, como a agress\u00e3o de homossexuais num parque ou o roubo de evid\u00eancias de um crime. Tudo que n\u00e3o podia ser noticiado por inteiro, \u201ccom as duas pernas\u201d, por assim dizer, era noticiado com apenas uma: a Cabeluda.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, abre-se um mundo de possibilidades para o trabalho do jornalista e para o que se pode publicar num jornal, porque abre-se espa\u00e7o para a s\u00e1tira, para a met\u00e1fora, para o absurdo. Tamb\u00e9m durante a ditadura, jornais como o Pasquim trabalharam com essa irrever\u00eancia, e isso \u00e9 parte integrante do jornalismo at\u00e9 hoje, e at\u00e9 os dias de hoje gera controv\u00e9rsia. N\u00e3o faz muitos anos que o Charlie Hebdo, jornal sat\u00edrico franc\u00eas, sofreu atentados terroristas por causa de seu conte\u00fado. O termo em latim <em>ridendo castigat mores<\/em>, \u201crindo corrigem-se os costumes\u201d, exemplifica o poder transgressor do absurdo: rir, como disse Paulo Gustavo, \u00e9 \u201cum ato de resist\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E resistir n\u00e3o \u00e9, afinal, uma das premissas do jornalismo? Resistir na busca por informar significa, em casos de profunda tens\u00e3o, dizer de forma indireta. Isso aproxima nosso of\u00edcio da fic\u00e7\u00e3o? Talvez, mas a hist\u00f3ria nos absolve.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ass-guebert.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5473\" style=\"width:760px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ass-guebert.jpg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ass-guebert-300x100.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalismo tem por objeto, valor e meta a verdade. 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