{"id":5578,"date":"2026-05-05T09:14:42","date_gmt":"2026-05-05T12:14:42","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5578"},"modified":"2026-05-05T09:14:42","modified_gmt":"2026-05-05T12:14:42","slug":"carta-a-mae-ana-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/05\/05\/carta-a-mae-ana-maria\/","title":{"rendered":"Carta \u00e0 M\u00e3e Ana Maria"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201c<em>Sil\u00eancio, <\/em><em><strong>a Matriarca<\/strong> <\/em><em>est\u00e1 dormindo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Ela <\/strong><\/em><em>foi, mas foi sorrindo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A not\u00edcia chegou quando anoiteceu<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Movimentos<\/strong><\/em><em>, eu pe\u00e7o o sil\u00eancio de um minuto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Sorocaba<\/strong> <\/em><em>est\u00e1 de luto<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>A voz de Ana Maria<\/strong> <\/em><em>emudeceu<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&#8230; Depois de tanta alegria que ele nos deu<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Assim, um fato repete de novo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Antirracista<\/strong> <\/em><em>de rua, artista do povo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E \u00e9 mais <\/em><em><strong>uma<\/strong> <\/em><em>que foi sem dizer adeus\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Parafrasear a can\u00e7\u00e3o <em>Sil\u00eancio no Bexiga<\/em>, composta pelo sambista paulista Geraldo Filme e conhecida tamb\u00e9m na voz da saudosa Beth Carvalho, caiu bem para retratar o momento triste que vivemos esses dias. Al\u00e9m de ser uma den\u00fancia que deve ser lembrada sempre, pois apesar de relatar algo que ocorreu no fim da d\u00e9cada de 1960 \u2014 a morte misteriosa do sambista negro Pato N\u2019\u00c1gua, assassinado pela repress\u00e3o da ditadura militar sob acusa\u00e7\u00e3o de crimes que nunca foram provados \u2014 \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o ainda muito familiar atualmente: a extin\u00e7\u00e3o daqueles que tem a pele preta.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse parafraseamento foi para contar sobre o falecimento da \u201cAv\u00f3 de muitos pretos de Sorocaba\u201d, nossa Matriarca de Nucab, minha Mestra, Griot, ancestral, uma mulher preta, diretora, professora e ensinadora, <strong>Ana Maria Souza Mendes<\/strong>, que nos deixou no dia 19 de abril.<\/p>\n\n\n\n<p>No meu caso, assim como na m\u00fasica, \u201c<em>a not\u00edcia chegou quando anoiteceu<\/em>\u201d. Jamais esquecerei daquele domingo, era fim de tarde, eu me preparava para fazer o jantar, quando recebi um telefonema de minha \u201cMadrinha nucabiana\u201d, Elo\u00edsa Gon\u00e7alves Lopes dizendo: \u201c<em>Rafa, n\u00e3o tenho uma not\u00edcia boa para te dar. Nossa amiga Ana Maria se foi.<\/em>\u201d Aquilo caiu como uma bomba, me desestruturando totalmente, tirando meu ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Maria teve in\u00fameras participa\u00e7\u00f5es no movimento antirracista e na defesa da educa\u00e7\u00e3o sorocabana, uma que se destaca \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o do Instituto de Cultura Afro-brasileira (ICAB), em 1979, com os colegas do clube afro-sorocabano 28 de Setembro, Jorge Narciso de Matos e Bernardino Francisco. Em meados dos anos 1990, o ICAB se tornou um N\u00facleo (Nucab) e se mudou para as depend\u00eancias da Uniso, sendo vital para a cria\u00e7\u00e3o da universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos conhecemos em 2017 quando, estudando na biblioteca da Uniso, via passar uma senhora de olhos protuberantes e sorriso acolhedor. Me indagava: \u201c<em>quem ser\u00e1 essa senhora que sempre fica naquela sala sozinha?<\/em>\u201d Um dia atendendo a minha curiosidade \u2014 j\u00e1 talvez inconscientemente jornal\u00edstica \u2014 fui at\u00e9 ela e falei: \u201c<em>tudo bem? Eu queria saber quem \u00e9 a senhora, o que \u00e9 aqui e o que a senhora faz aqui<\/em>\u201d. \u201c<em>Claro, sente-se filho, por favor. Eu sou a professora Ana Maria e essa \u00e9 a sala do Nucab<\/em>\u201d, ela me respondeu. Ali nascia uma rela\u00e7\u00e3o de admira\u00e7\u00e3o, carinho e muito aprendizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Com Ana Maria, aos 30 anos de idade, \u00e9 que fui me entender como um homem negro. Percebi a necessidade de letramento racial constante, e entendi que para uma luta antirracista ser produtiva, al\u00e9m de for\u00e7a, \u00e9 preciso muito, mas muito conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo foi passando e a cada encontro, fosse na sala do Nucab, em eventos nos mais diversos lugares da cidade, durante uma andan\u00e7a pelo centro ou tomando uma cerveja no bar, fui me conectando cada vez mais ao universo nucabiano. Ana Maria foi fonte em um livro-reportagem sobre o professor Jorge Narciso de Matos para meu TCC de jornalismo. Ao estudar Jorge, consequentemente eu tamb\u00e9m estava estudando o Nucab. Rela\u00e7\u00f5es ainda mais s\u00f3lidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2025 perdemos uma de nossas lideran\u00e7as mais velhas, o professor Ademir Barros dos Santos, que h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas liderava nosso n\u00facleo ao lado de Ana Maria, Elo\u00edsa e Gleice Barbara Marciano, nossa primeira estagi\u00e1ria (1996). A perda e a dor foram grandes. Dissemo-nos que seguir\u00edamos. Praticamente seis meses depois, quando est\u00e1vamos nos recuperando vem outro duro golpe.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como no come\u00e7o deste texto, apontando em negrito as altera\u00e7\u00f5es, e fazendo o caminho inverso em rela\u00e7\u00e3o ao processo psicogr\u00e1fico, parafraseio (e enalte\u00e7o) outros cantores pretos, GOG e Ellen Ol\u00e9ria, transformando a can\u00e7\u00e3o Carta a M\u00e3e \u00c1frica, em uma carta para \u201cNamaria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<em><strong>\u00c9 M\u00e3e Ana Maria, \u00e9<\/strong> <\/em><em>preciso ter p\u00e9s firmes no ch\u00e3o <\/em><em><strong>para suportar sua falta<\/strong><\/em><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sentir as for\u00e7as vindas dos c\u00e9us, da miss\u00e3o. Dos seios da m\u00e3e \u00c1frica e do cora\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Literalmente est\u00e1 sendo a<\/strong> <\/em><em>hora de escrever entre a raz\u00e3o e a emo\u00e7\u00e3o. M\u00e3e! Aqui <\/em><em><strong>ainda<\/strong> <\/em><em>crescemos subnutridos de amor. A dist\u00e2ncia de ti, o doloroso chicote do feitor, nos tornou algo nunca imagin\u00e1vel, imprevis\u00edvel. E isso nos trouxe um desconforto horr\u00edvel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>As trancas, as correntes, a pris\u00e3o do corpo outrora, evolu\u00edram para a pris\u00e3o da mente agora. <\/em><em><strong>M\u00e3e, tem coisas que ainda n\u00e3o mudaram<\/strong><\/em><em>, continua caso raro ascens\u00e3o social.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>As senzalas s\u00e3o as ante salas das delegacias, corredores lotados por seus filhos e filhas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>M\u00e3e<\/strong><\/em><em>, a falsa aboli\u00e7\u00e3o <\/em><em><strong>continua fazendo<\/strong><\/em><em> altos estragos, fez acreditarem em racismo ao contr\u00e1rio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>M\u00e3e, aqui ainda s\u00e3o exaltados os<\/strong> <\/em><em>her\u00f3is brancos, destruidores de quilombos. Usurpadores de sonhos, seguem reinando.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>M\u00e3e! Me imagino arrancado dos seus bra\u00e7os. Por aqui de ti falam muito pouco.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por que fizeram com a gente isso? O plano fica claro&#8230; \u00c9 o nosso sumi\u00e7o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>M\u00e3e, infelizmente<\/strong> <\/em><em>a maioria da popula\u00e7\u00e3o <\/em><em><strong>ainda<\/strong> <\/em><em>tem guetofobia. E o pior, a triste constata\u00e7\u00e3o: muitos irm\u00e3os patrocinam o vil\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A carne mais barata do mercado <\/em><em><strong>ainda<\/strong> <\/em><em>\u00e9 a negra, e a carne mais marcada pelo Estado <\/em><em><strong>ainda <\/strong><\/em><em>\u00e9 a negra<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os tiros ouvidos aqui vem de todos os lados, mas n\u00e3o se pode seguir agachado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9 por instinto que levanto o sangue Banto-Nag\u00f4, e em meio ao bombardeio, <\/em><em><strong>gra\u00e7as a voc\u00ea<\/strong><\/em><em>, ainda reconhe\u00e7o quem sou, e <\/em><em><strong>vamos, mesmo feridos<\/strong><\/em><em>, ao fronte, ao combate, <\/em><em><strong>mesmo em dias que tem sido bem dolorosos sem voc\u00ea<\/strong><\/em><em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Eles tem tentado cada vez mais nos mergulhar<\/strong> <\/em><em>numa grande confus\u00e3o, <\/em><em><strong>dizendo que<\/strong> <\/em><em>racismo n\u00e3o existe e sim uma social exclus\u00e3o. Mas sei fazer bem a diferencia\u00e7\u00e3o. Sofro pela cor, pelo patr\u00e3o e o padr\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Tem dias que <\/strong><\/em><em>a l\u00e1grima corre como num chafariz. <\/em><em><strong>Mas me apego ao fato de que<\/strong> <\/em><em>criamos nossos la\u00e7os, reescrevemos sonhos. M\u00e3e! Sou fruto do seu sangue, das suas entranhas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>O sistema me marcou, mas n\u00e3o me arrebanha, <\/em><em><strong>mesmo<\/strong> <\/em><em>a carne mais barata do mercado <\/em><em><strong>ainda sendo<\/strong> <\/em><em>a negra, e a carne mais marcada pelo Estado <\/em><em><strong>ainda sendo<\/strong> <\/em><em>a negra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Ser\u00e3o dia dif\u00edceis sem voc\u00ea Madrinha, mas seguiremos. Voc\u00ea viu que no dia 27 de abril a gente j\u00e1 estava na luta novamente? Eu, a El\u00f4 e a Gleice fizemos uma Aula Magna sobre educa\u00e7\u00e3o antirracista, para alunos e professores do mestrado e doutorado da Uniso (<\/em><a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/05\/04\/nucab-debate-consciencia-e-letramento-racial-na-pos-graduacao-em-aula-na-uniso\/\"><em><strong>https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/05\/04\/nucab-debate-consciencia-e-letramento-racial-na-pos-graduacao-em-aula-na-uniso\/<\/strong><\/em><\/a><em><strong>)<\/strong><\/em><em>. Espero que tenha gostado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Obrigado por tudo M\u00e3e, seus ensinamentos ser\u00e3o eternos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Espero que Olorun tenha te recebido de bra\u00e7os abertos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um dia nos reencontraremos no Orun.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c0 M\u00e3e Ana Maria. \u00c0 M\u00e3e \u00c1frica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Outono de 2026\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"958\" height=\"636\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090745.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5579\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090745.jpg 958w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090745-300x199.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090745-768x510.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 958px) 100vw, 958px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Ana Maria em um de nossos encontros na Sala do Nucab, em 2022 | Foto: Rafael Filho<\/sub><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"956\" height=\"637\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090759.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5580\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090759.jpg 956w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090759-300x200.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090759-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 956px) 100vw, 956px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Ana Maria durante entrevista para meu livro, na Sala do Nucab, em setembro de 2023 | Foto: Rafael Filho<\/sub><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"956\" height=\"733\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090914.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5581\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090914.jpg 956w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090914-300x230.jpg 300w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-tela-2026-05-05-090914-768x589.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 956px) 100vw, 956px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Ana Maria ao lado de Ademir, em uma palestra do Nucab, no Sesc Sorocaba, em 2024 | Foto: Rafael Filho<\/sub><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"957\" height=\"637\" 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