{"id":5657,"date":"2026-05-18T09:13:38","date_gmt":"2026-05-18T12:13:38","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=5657"},"modified":"2026-05-18T09:13:39","modified_gmt":"2026-05-18T12:13:39","slug":"a-maternidade-compulsoria-presente-em-precisamos-falar-sobre-o-kevin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/05\/18\/a-maternidade-compulsoria-presente-em-precisamos-falar-sobre-o-kevin\/","title":{"rendered":"A maternidade compuls\u00f3ria presente em \u201cPrecisamos falar sobre o Kevin\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Maria Clara Russini (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"304\" height=\"378\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Capturar-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5658\" style=\"width:760px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Capturar-1.jpg 304w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Capturar-1-241x300.jpg 241w\" sizes=\"auto, (max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><sub>Reprodu\u00e7\u00e3o<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p>Quando pensamos em maternidade, automaticamente imaginamos uma vida perfeita ao lado do nosso c\u00f4njuge, e n\u00e3o culpo nenhuma mulher por idealizar tal coisa, visto que, em nossa sociedade, mulheres que escolhem n\u00e3o ter filhos ainda s\u00e3o alvo de chacota e repres\u00e1lias. Mas o que acontece quando somos obrigadas a exercer uma fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o escolhemos para n\u00f3s mesmas e a ocupamos apenas para satisfazer os sonhos de outra pessoa?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 exatamente isso que Eva vive no filme Precisamos Falar Sobre Kevin, adapta\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria lan\u00e7ada em 2011 e dirigida por Lynne Ramsay. A trama intercala passado e presente ao acompanhar a vida de Eva, uma mulher que precisa lidar com o fato de que seu filho de 17 anos, Kevin, cometeu um massacre em sua escola e assassinou o pai e a irm\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme me cativou por diversos motivos. O primeiro deles \u00e9 a diferen\u00e7a na narrativa, que apresenta as dores de uma m\u00e3e ap\u00f3s um evento tr\u00e1gico causado pelo pr\u00f3prio filho. Outro ponto importante \u00e9 a forma como Eva \u00e9 apresentada antes da maternidade: uma mulher livre, cheia de sonhos e que, em nenhum momento, conseguia se enxergar exercendo o papel de m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que esse seja o principal elemento que prende o telespectador: o fato de Eva tentar convencer a si mesma de que aquilo era o certo, e de que seu marido merecia realizar o sonho da paternidade, apesar de todo o peso dessa decis\u00e3o recair sobre ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Eva engravida de Kevin, \u00e9 poss\u00edvel perceber a rejei\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio, algo que se intensifica ao longo da trama. Ap\u00f3s o nascimento do filho, ela vive um per\u00edodo de profunda tristeza e desconex\u00e3o emocional. Vale destacar que muitas pessoas confundem o chamado \u201cbaby blues\u201d com a depress\u00e3o p\u00f3s-parto, embora existam diferen\u00e7as importantes entre os dois quadros. O baby blues \u00e9 considerado um estado de tristeza comum nos primeiros dias ap\u00f3s o parto, causado por altera\u00e7\u00f5es hormonais. J\u00e1 a depress\u00e3o p\u00f3s-parto envolve sentimentos mais intensos de rejei\u00e7\u00e3o, vazio e dificuldade de criar v\u00ednculo com o beb\u00ea, exigindo acompanhamento profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos momentos mais marcantes do filme acontece durante a inf\u00e2ncia de Kevin, quando percebemos que ele identifica o esfor\u00e7o da m\u00e3e em tentar construir uma conex\u00e3o afetiva. No entanto, Kevin parece enxergar essa tentativa quase como uma afronta e constantemente provoca Eva, como se quisesse provar que n\u00e3o merece ser amado. Em um desses epis\u00f3dios, Eva acaba derrubando Kevin no ch\u00e3o e quebrando seu bra\u00e7o. Por\u00e9m, ao relatar o ocorrido ao pai, o menino inventa outra vers\u00e3o da hist\u00f3ria para proteger e, ao mesmo tempo, manipular a m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante toda a narrativa, Kevin \u00e9 retratado como uma crian\u00e7a com comportamentos perturbadores e violentos, incapaz de estabelecer v\u00ednculos afetivos com a pr\u00f3pria fam\u00edlia. Quando sua irm\u00e3 come\u00e7a a crescer, ele passa a enxerg\u00e1-la como uma amea\u00e7a e, em uma das cenas mais impactantes do filme, provoca um acidente que deixa a menina cega de um olho.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia do massacre, Eva percebe que algo est\u00e1 errado e corre at\u00e9 a escola. Ao chegar ao local, encontra os corpos dos alunos cobertos por lonas e, logo em seguida, v\u00ea o filho sendo levado algemado pela pol\u00edcia. O uso do arco e flecha, marca registrada de Kevin ao longo do filme, refor\u00e7a ainda mais a brutalidade silenciosa constru\u00edda pela narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>No presente, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o perceber como Eva se tornou apenas uma concha vazia. Ela vive de forma autom\u00e1tica, isolada socialmente e carregando a culpa e o julgamento de todos ao seu redor, enquanto continua visitando o filho na pris\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma das cenas finais, Eva pergunta a Kevin o motivo de ele ter cometido o massacre. A resposta do garoto \u00e9 simples e perturbadora: \u201cNa \u00e9poca eu achava que sabia. Agora j\u00e1 n\u00e3o tenho tanta certeza.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o filme n\u00e3o seja diretamente baseado em um caso espec\u00edfico, a obra dialoga com trag\u00e9dias reais, como o Massacre de Columbine, justamente por apresentar uma perspectiva que a sociedade raramente est\u00e1 preparada para enfrentar: a da m\u00e3e do agressor. Eva sofre repres\u00e1lias constantes e vive cercada pela culpa, principalmente ao cruzar com fam\u00edlias que perderam seus filhos no massacre.<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta do filme n\u00e3o \u00e9 minimizar crimes ou inocentar Kevin, mas provocar uma reflex\u00e3o sobre a maternidade de forma menos idealizada. Muitas mulheres relatam perder parte de sua identidade ao se tornarem m\u00e3es, e \u00e9 exatamente isso que vemos acontecer com Eva ao longo da trama. Ainda assim, algumas atitudes da personagem tamb\u00e9m s\u00e3o dif\u00edceis de justificar, o que torna a narrativa ainda mais complexa e humana.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre Eva e Kevin se desenvolve quase como uma dan\u00e7a dolorosa: enquanto ela tenta desesperadamente am\u00e1-lo, Kevin parece se esfor\u00e7ar para rejeitar qualquer tentativa de afeto.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme mostra que, dentro daquela rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe apenas um culpado. Eva nunca desejou ser m\u00e3e, e Kevin nunca pediu para nascer. A trag\u00e9dia surge justamente da incapacidade dos dois de estabelecerem uma conex\u00e3o saud\u00e1vel, somada ao ac\u00famulo de m\u00e1goas e ressentimentos que Kevin transforma em viol\u00eancia. Por fim, \u00e9 indispens\u00e1vel destacar que, em nenhum momento, Eva recebe apoio emocional verdadeiro do marido ou de algum profissional. Vemos apenas uma mulher carregando sozinha a culpa e o peso do mundo sobre os ombros, realidade que muitas m\u00e3es enfrentam diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as mulheres, a maternidade \u00e9 algo concreto e transformador, n\u00e3o apenas uma ideia romantizada. Por isso, ela n\u00e3o deveria ser tratada como obriga\u00e7\u00e3o ou destino inevit\u00e1vel. A maternidade precisa ser uma escolha. Infelizmente, a r\u00e9gua moral utilizada pela sociedade para medir o certo e o errado quase sempre recai exclusivamente sobre as mulheres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Maria Clara Russini (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso) Reprodu\u00e7\u00e3o Quando pensamos em maternidade, automaticamente imaginamos uma vida perfeita ao<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[10,36,15,16,9,14],"tags":[41,29,28],"class_list":["post-5657","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blogs","category-comunicacao","category-jornalismo","category-jornalismo-digital","category-jornalismo-online","category-uniso","tag-focas-na-rede","tag-jornalismo","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":"","thumbnail":"","medium":"","medium_large":"","large":"","1536x1536":"","2048x2048":"","colormag-highlighted-post":"","colormag-featured-post-medium":"","colormag-featured-post-small":"","colormag-featured-image":"","colormag-default-news":"","colormag-featured-image-large":""},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/blogs\/\" rel=\"category tag\">blogs<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/comunicacao\/\" rel=\"category tag\">Comunica\u00e7\u00e3o<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-digital\/\" rel=\"category tag\">jornalismo digital<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5657","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5657"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5657\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5659,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5657\/revisions\/5659"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5657"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5657"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5657"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}