{"id":6613,"date":"2026-08-25T11:29:53","date_gmt":"2026-08-25T14:29:53","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=6613"},"modified":"2026-08-25T11:29:53","modified_gmt":"2026-08-25T14:29:53","slug":"o-jornalismo-quase-artistico-na-entrevista-de-regina-e-gabriela-duarte-para-o-jornalista-matheus-rocha-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/08\/25\/o-jornalismo-quase-artistico-na-entrevista-de-regina-e-gabriela-duarte-para-o-jornalista-matheus-rocha-2026\/","title":{"rendered":"O jornalismo quase art\u00edstico na entrevista de Regina e Gabriela Duarte para o jornalista Matheus Rocha (2026)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho do jornalista, sobretudo do entrevistador, \u00e9 o de instigar. Elaborar a pergunta certa nada tem a ver com complexidade, com pre\u00e2mbulos rebuscados ou exibicionismo. Por vezes, a intelig\u00eancia do entrevistador est\u00e1 na naturalidade e simplicidade de suas perguntas e, tamb\u00e9m, na sua no\u00e7\u00e3o de timing e no seu poder de sedu\u00e7\u00e3o. A entrevista \u00e9 uma dan\u00e7a ret\u00f3rica, independente de quem seja o entrevistado. H\u00e1 sempre um qu\u00ea de desafio, sempre um certo n\u00edvel de confronto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando as entrevistadas s\u00e3o dois \u00edcones da dramaturgia brasileira, isso j\u00e1 fica dif\u00edcil. Mas quando uma delas \u00e9 uma figura t\u00e3o amb\u00edgua e controversa quanto Regina Duarte, o entrevistador que tiver a tarefa de entrevist\u00e1-la precisa exercitar todos os m\u00fasculos do seu saber jornal\u00edstico. Regina Duarte \u00e9 indiscutivelmente uma das maiores atrizes do Brasil. Sempre houve ressalvas sobre a qualidade de seu estilo de atua\u00e7\u00e3o, por vezes dado a gritos, que sempre incomodaram uma parcela do p\u00fablico. Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que desde os anos 1960 ela foi privilegiada com grandes pap\u00e9is, sobretudo na televis\u00e3o. A Simone de Selva de Pedra, \u00fanica novela a atingir 100 pontos de audi\u00eancia no Ibope. A Malu Mulher, do seriado hom\u00f4nimo que foi disruptivo para a \u00e9poca, com sua personagem-s\u00edmbolo de uma mulher moderna e independente. A Raquel de Vale Tudo, hero\u00edna absoluta da novela que debatia se vale a pena ser honesto no Brasil. A Maria do Carmo de Rainha da Sucata, s\u00edmbolo de uma classe emergente que enriqueceu com o suor do seu trabalho. E tr\u00eas Helenas de Manoel Carlos, protagonistas m\u00e1ximas das novelas sobre a classe m\u00e9dia alta do Rio de Janeiro. Regina recebeu inestim\u00e1veis presentes dos maiores novelistas e diretores da nossa televis\u00e3o, e \u00e9 imposs\u00edvel falar da telenovela brasileira sem falar dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, durante o governo do presidente Jair Bolsonaro, essa atriz consagrada colocou, aos olhos de uma grande parte do p\u00fablico, sua credibilidade na lama ao aceitar ser Secret\u00e1ria de Cultura. Sua passagem pelo governo Bolsonaro foi curta e infame: durou apenas 74 dias e rendeu situa\u00e7\u00f5es constrangedoras, como um discurso de posse no m\u00ednimo bizarro e uma entrevista onde defendeu a ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, fora da vida pol\u00edtica, a atriz volta aos palcos ao lado de uma parceira de cena e de vida, sua filha Gabriela Duarte, famosa sobretudo por seus pap\u00e9is em que contracenava com a m\u00e3e, principalmente na novela Por Amor, trama de Manoel Carlos onde uma m\u00e3e faz um sacrif\u00edcio moralmente conden\u00e1vel para impedir o sofrimento da filha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cen\u00e1rio da entrevista \u00e9 o teatro, e o passado dessas duas atrizes \u00e9, em resumo, esse descrito acima. O que se segue nos mais de vinte minutos de entrevista dispon\u00edveis no canal do YouTube do jornal Folha de S. Paulo \u00e9 estarrecedor, com desdobramentos t\u00e3o teatrais que n\u00e3o seria dif\u00edcil pensar que se trata de uma cena de m\u00e3e e filha numa novela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O entrevistador come\u00e7a deixando as entrevistadas \u00e0 vontade, perguntando sobre a pe\u00e7a que as duas est\u00e3o fazendo juntas, \u201cA Filha da\u2026\u201d Aos poucos, ele vai fazendo sutis e educados questionamentos sobre o delicado equil\u00edbrio de se ser m\u00e3e e filha tanto na vida real quanto na fic\u00e7\u00e3o, e as rachaduras de uma fachada de plenitude v\u00e3o aparecendo com uma naturalidade impressionante. O jornalista Matheus Rocha \u00e9 de muita intelig\u00eancia na condu\u00e7\u00e3o das perguntas, e separa o meio da entrevista para fazer perguntas a Gabriela, sobretudo sobre como \u00e9 ser filha de uma grande atriz e sobre como foi deixar de atuar com ela e buscar novos projetos. Uma estrat\u00e9gia muito h\u00e1bil, porque isso come\u00e7a a romper o equil\u00edbrio entre as duas. Regina come\u00e7a a responder as perguntas pela filha, assumindo de forma algo c\u00f4mica o protagonismo. Isso vai deixando Gabriela visivelmente constrangida, pois a filha chega a n\u00e3o conseguir concluir seu racioc\u00ednio gra\u00e7as \u00e0s interrup\u00e7\u00f5es da m\u00e3e. Isso n\u00e3o parece acaso. Tem-se a sensa\u00e7\u00e3o de que o entrevistador conhece a alma humana, e sobretudo a alma do artista, e por isso sabe que ela \u00e9 movida por vaidade e medo de substitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 s\u00f3 depois de esse equil\u00edbrio ser rompido que o jornalista d\u00e1 o xeque-mate, finalmente fazendo a pergunta que, no fundo, \u00e9 a que os espectadores gostariam de fazer. Matheus Rocha pergunta sobre a infame passagem de Regina Duarte pelo governo Bolsonaro. Gabriela diz educadamente que elas n\u00e3o querem falar sobre isso. Regina diz que quer responder. Constrangida, Gabriela parece uma filha envergonhada com medo de a m\u00e3e falar uma bobagem. A assessoria das duas tenta intervir, mas Regina \u00e9 indom\u00e1vel. Ela quer responder. E responde com a seguran\u00e7a e a displic\u00eancia de uma atriz veterana, mas sua linguagem corporal delata seu nervosismo: ela come\u00e7a a enrolar os longos cabelos em um gesto algo estereot\u00edpico, um tique que se mant\u00e9m at\u00e9 o fim da entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Matheus Rocha \u00e9 firme: diz que seu trabalho \u00e9 fazer as perguntas, e que elas t\u00eam o direito de decidir se respondem ou n\u00e3o. \u00c9 justo e \u00e9tico, e ambas respeitam seu of\u00edcio de jornalista. Mas, \u00e9 claro, isso \u00e9 uma ilus\u00e3o. Uma pergunta feita \u00e9 uma pergunta feita. Respond\u00ea-la pode ser desastroso, mas n\u00e3o respond\u00ea-la pode ser pior. Gabriela se agita na cadeira, reafirma que n\u00e3o v\u00e3o responder, implora com os olhos para que a m\u00e3e fique em sil\u00eancio, mas Regina n\u00e3o se aguenta: fala mal do \u201cpoliticamente correto\u201d, deixa bem claro que n\u00e3o se considera feminista e diz que sua passagem pela Secretaria de Cultura n\u00e3o teve nenhuma consequ\u00eancia negativa na sua vida. A quest\u00e3o \u00e9 que \u00e9 imposs\u00edvel acreditar nisso. Mesmo sendo uma lenda da TV Globo, Regina virou persona non grata na emissora, ao ponto de o Fant\u00e1stico fazer uma mat\u00e9ria sobre a novela Vale Tudo sem cit\u00e1-la, ainda que tenha sido protagonista do folhetim. O Jornal Nacional se referiu a ela como \u201cex-atriz\u201d. A classe art\u00edstica, mesmo antigos colegas de cena, nunca a perdoou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vemos reunidas no entrevistador, Matheus Rocha, algumas caracter\u00edsticas indispens\u00e1veis num bom jornalista: intelig\u00eancia, repert\u00f3rio, perspic\u00e1cia, coragem e sobretudo presen\u00e7a de esp\u00edrito. \u00c9 necess\u00e1rio, paradoxalmente, muito jogo de cintura para se manter firme diante de entrevistadas t\u00e3o escorregadias. \u00c9 importante entender a din\u00e2mica das duas, tanto individualmente quanto em dupla. O resultado \u00e9 uma entrevista monumental, que faz pensar na m\u00e1xima de Oscar Wilde, de que a vida imita a arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, ao contr\u00e1rio de em Por Amor, \u00e9 a filha que tenta proteger a m\u00e3e. Mas n\u00e3o h\u00e1 como. N\u00e3o apenas porque o mundo n\u00e3o perdoa, mas porque a m\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 arrependida. Uma simples entrevista sobre uma pe\u00e7a de teatro acabou se tornando um estudo sobre o comportamento humano, sobre envelhecimento, sobre rela\u00e7\u00f5es de m\u00e3e e filha e sobre uma pergunta que ronda o esp\u00edrito do nosso tempo: \u00e9 poss\u00edvel separar o artista da obra? Um bom jornalista n\u00e3o pode perder oportunidades. N\u00e3o pode se contentar com o trivial. Precisa saber detectar as profundidades escondidas sob fachadas tranquilas. Essa entrevista exemplifica isso muito bem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ass-guebert-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6614\" style=\"width:760px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ass-guebert-1.jpg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ass-guebert-1-300x100.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trabalho do jornalista, sobretudo do entrevistador, \u00e9 o de instigar. 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