{"id":6668,"date":"2026-09-08T09:48:16","date_gmt":"2026-09-08T12:48:16","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=6668"},"modified":"2026-09-08T09:48:37","modified_gmt":"2026-09-08T12:48:37","slug":"o-jornalismo-entusiasta-em-ratatouille-2007","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/09\/08\/o-jornalismo-entusiasta-em-ratatouille-2007\/","title":{"rendered":"O jornalismo entusiasta em Ratatouille (2007)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cDe certa forma, o trabalho de um cr\u00edtico \u00e9 f\u00e1cil. Nos arriscamos pouco e temos o prazer de avaliar com superioridade aqueles que nos submetem seu trabalho e reputa\u00e7\u00e3o. Ganhamos fama com cr\u00edticas negativas que s\u00e3o divertidas de escrever e ler. Mas a dura realidade que n\u00f3s cr\u00edticos devemos encarar \u00e9 que, no quadro geral, a mais simples porcaria talvez seja mais significativa do que a nossa cr\u00edtica. Mas h\u00e1 vezes em que um cr\u00edtico arrisca de fato alguma coisa, como quando descobre e defende uma novidade. O mundo costuma ser hostil aos novos talentos, \u00e0s novas cria\u00e7\u00f5es. O novo precisa ser incentivado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este \u00e9 o primeiro par\u00e1grafo da cr\u00edtica do personagem Anton Ego, que, no filme Ratatouille, \u00e9 um renomado cr\u00edtico gastron\u00f4mico, com suas cr\u00edticas sendo publicadas em jornais. Al\u00e9m dele, outra jornalista aparece no filme, a tamb\u00e9m cr\u00edtica gastron\u00f4mica Solene Leclaire, que, apesar de ter uma participa\u00e7\u00e3o curta, \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para o andamento da trama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 dif\u00edcil imaginar quem nunca tenha assistido a essa joia dos est\u00fadios Pixar, n\u00e3o tenha se encantado com o inusitado de sua premissa e n\u00e3o tenha ficado com vontade de experimentar os pratos do cozinheiro-rato R\u00e9my. Mas \u00e9 bem poss\u00edvel que o papel do jornalismo no filme tenha passado despercebido para uma parte do p\u00fablico. Mas o que se revela na cr\u00edtica de Anton Ego \u00e9 de grande valia para o nosso of\u00edcio. \u00c9 algo que se concentra numa faceta especialmente bonita do jornalismo: o seu instinto de garimpeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos anos 1990, a jornalista \u00c9rika Palomino assinava na Folha de S. Paulo a coluna Noite Ilustrada, onde registrava com paix\u00e3o e sensibilidade a vibrante cena cultural e noturna da capital paulista. A coluna serviu n\u00e3o apenas de registro, mas de holofote para v\u00e1rios artistas, como o jovem estilista Alexandre Herchcovitch. \u00c9rika acompanhou a ascens\u00e3o de Alexandre desde seu chocante desfile de conclus\u00e3o de curso na faculdade de moda Santa Marcelina, e foi uma das primeiras a dar visibilidade \u00e0 est\u00e9tica arrojada e moderna do estilista, que viria a ser um dos maiores do Brasil. Esse entusiasmo pelo novo, associado ao poder de divulga\u00e7\u00e3o na imprensa, conferem ao jornalista atento o dom de amplificar vozes que, em outras circunst\u00e2ncias, ficariam restritas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 esse o caso do cabeleireiro Ricardo Corr\u00eaa da Silva, que passou anos de sua vida sendo conhecido pela pitoresca alcunha de \u201cFof\u00e3o da Augusta\u201d. Ricardo vivia em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social e seu grandioso passado estava esquecido, at\u00e9 que o jornalista Chico Felitti publicou uma extensa reportagem investigando quem era a pessoa por tr\u00e1s da figura folcl\u00f3rica do centro de S\u00e3o Paulo. Essa reportagem, que depois foi expandida em livro, devolveu o nome e a hist\u00f3ria a Ricardo. Mais do que contar uma boa hist\u00f3ria, foi o jornalismo vendo preciosidade onde outros n\u00e3o viam valor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; No ano de 1990, a jornalista Mar\u00edlia Gabriela entrevistou o estilista e apresentador Clodovil Hernandes. O contexto dessa entrevista era bem desfavor\u00e1vel para o entrevistado: na \u00e9poca, circulava a not\u00edcia falsa de que Clodovil estava com AIDS. Importante lembrar que era um per\u00edodo de profundo p\u00e2nico moral e ignor\u00e2ncia a respeito da doen\u00e7a, e o renomado estilista passou a ver v\u00e1rias portas de trabalho se fecharem abruptamente, pela mera suspeita da doen\u00e7a. Uma reputa\u00e7\u00e3o lend\u00e1ria perdida por mentira e ignor\u00e2ncia. Foi nesse cen\u00e1rio que uma jornalista do n\u00edvel de Mar\u00edlia Gabriela abriu espa\u00e7o para que Clodovil desmentisse as not\u00edcias falsas, num esfor\u00e7o n\u00e3o apenas pela verdade, mas pela justi\u00e7a. \u00c9 o jornalista trabalhando contra seu pr\u00f3prio tempo, contra as hostilidades da ignor\u00e2ncia. O personagem Ego define muito bem essa atitude como algo arriscado, de defesa, n\u00e3o necessariamente do novo, mas do que \u00e9 certo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Anton Ego, do filme Ratatouille, \u00e9 mal compreendido pelos demais personagens. A pr\u00f3pria imag\u00e9tica do filme lhe confere signos f\u00fanebres e uma aura de amargura. Mas \u00e9 interessante o trabalho que o enredo faz em desconstruir essa imagem. Um cr\u00edtico n\u00e3o \u00e9 um mal-amado querendo se aproveitar do esfor\u00e7o alheio. Um jornalista n\u00e3o \u00e9 um abutre em busca de algo ins\u00f3lito para noticiar. Esses s\u00e3o of\u00edcios que necessitam de grande esperan\u00e7a e f\u00e9 na humanidade por parte do profissional. \u00c9 preciso que nunca se perca o brilho no olhar, um brilho que consiga enxergar caminho onde outros s\u00f3 veem mato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O jornalista, em especial aquele cr\u00edtico &#8211; n\u00e3o necessariamente o que publica cr\u00edticas, mas o que tem uma postura cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao mundo &#8211; precisa ser um entusiasta da humanidade. Precisa acreditar no poder transformador da verdade, do certo e do novo. Para apoiar seu entusiasmo, ele conta com o apoio de seu repert\u00f3rio cultural e da sua credibilidade. E \u00e9 a\u00ed que \u00e9 poss\u00edvel enxergar uma crise. Em tempos de algoritmo, posts patrocinados, publis e v\u00eddeos curtos, ainda h\u00e1 espa\u00e7o para repert\u00f3rio e credibilidade? Ainda h\u00e1 espa\u00e7o para um cr\u00edtico fazer seu trabalho de, entre outras coisas, criticar?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que se v\u00ea cada vez mais \u00e9 uma hostilidade em rela\u00e7\u00e3o ao conhecimento, seja em vastid\u00e3o ou em profundidade. As redes sociais n\u00e3o s\u00e3o ambientes onde a cultura \u00e9 apreciada, mas sim consumida, e a l\u00f3gica do consumo \u00e9 reducionista, n\u00e3o deixa espa\u00e7o para debates s\u00e9rios. Outra coisa que fica cada vez mais dif\u00edcil \u00e9 defender novidades. Hoje, a divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 feita de outras formas, todas menos org\u00e2nicas e apaixonadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ainda assim, o que est\u00e1 do nosso lado \u00e9 algo que ningu\u00e9m tira: a vis\u00e3o treinada, atenta, sens\u00edvel e, por que n\u00e3o, vision\u00e1ria que alguns jornalistas e cr\u00edticos t\u00eam. Esse \u201csentimento do mundo\u201d, como diz Carlos Drummond de Andrade, \u00e9 a mais preciosa joia do nosso of\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/0.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6640\" style=\"width:702px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/0.jpeg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/0-300x100.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cDe certa forma, o trabalho de um cr\u00edtico \u00e9 f\u00e1cil. 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