{"id":6736,"date":"2026-09-22T16:30:00","date_gmt":"2026-09-22T19:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=6736"},"modified":"2026-09-22T16:31:21","modified_gmt":"2026-09-22T19:31:21","slug":"o-jornalismo-transformador-em-historias-cruzadas-2011","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/09\/22\/o-jornalismo-transformador-em-historias-cruzadas-2011\/","title":{"rendered":"O jornalismo transformador em Hist\u00f3rias Cruzadas (2011)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma maneira convencional de analisar o filme Hist\u00f3rias Cruzadas, de 2011, seria dizer que ele conta a hist\u00f3ria de Eugenia, chamada por todos de Skeeter, uma aspirante a jornalista, que retorna depois de formada para sua cidade, Jackson, no estado do Mississipi nos anos 1960, \u00e9poca da segrega\u00e7\u00e3o racial nos Estados Unidos. L\u00e1, ela come\u00e7a a reparar no racismo contido na esfera dom\u00e9stica das casas de suas amigas, nas rela\u00e7\u00f5es entre as patroas brancas, como Hilly e Elizabeth, e as empregadas negras, como Aibeleen e Minny. A partir disso, ela decide convencer as empregadas a lhe contarem suas hist\u00f3rias, como forma de desmistificar essa rela\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, expondo o abismo racial e social nessas rela\u00e7\u00f5es, num sistema que, em diferentes graus, fere a todos. Skeeter foi criada por uma empregada negra e v\u00ea sua rela\u00e7\u00e3o de amor por essa figura materna negra ser deslegitimada por sua fam\u00edlia e c\u00edrculo social branco o tempo todo. \u00c9 um afeto real, mas clandestino, pois n\u00e3o \u00e9 reconhecido na sua import\u00e2ncia. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o que, pela estrutura em que se desenvolve, pode ser rompido pela pr\u00f3pria estrutura que o criou conforme as necessidades das conven\u00e7\u00f5es sociais. \u00c9 o que acontece com Constantine, empregada da fam\u00edlia de Skeeter, demitida repentinamente para manter uma pose respeit\u00e1vel para a m\u00e3e de Skeeter. Essa motiva\u00e7\u00e3o pessoal est\u00e1 no cerne do interesse da jornalista por expor a verdade sobre a crueldade desse sistema racista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se quisermos analisar o filme enxergando Skeeter como protagonista, h\u00e1 reflex\u00f5es interessantes sobre o jornalismo a serem feitas. Uma delas \u00e9 se o interesse jornal\u00edstico \u00e9 necessariamente um interesse pessoal. O olhar jornal\u00edstico para detectar hist\u00f3rias que merecem ser contadas depende de uma sensibilidade ligada ao afeto? Para Skeeter, sim. \u00c9 pelo seu envolvimento emocional com a empregada de sua casa que seu olhar se volta para as incongru\u00eancias estruturais do racismo no Mississipi, algo profundamente presente no debate p\u00fablico da \u00e9poca, com a luta pelos direitos civis dos negros atingindo seu \u00e1pice nessa mesma \u00e9poca no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao longo do filme, Skeeter consegue recolher depoimentos de muitas empregadas dom\u00e9sticas negras e lan\u00e7a anonimamente o livro \u201cA Resposta\u201d, que rapidamente se torna um sucesso, pois exp\u00f5e uma ferida que poucos estavam dispostos a sequer enxergar. Jornalistas dispostos a contar hist\u00f3ria como \u201cA Resposta\u201d precisam ser o rei de uma terra de cegos: seu olho precisa ver o que passa despercebido. Isso requer duas coisas: a primeira \u00e9 uma certa pr\u00e9-disposi\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter, uma sensibilidade incomum. A segunda \u00e9 o repert\u00f3rio. Skeeter estudou fora, viveu em um mundo cosmopolita e teve contato com centros de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Ela sabe que o mundo \u00e9 maior do que Jackson, Mississipi. \u00c9 imprescind\u00edvel que o jornalista n\u00e3o seja conformado com as cercas de seu vilarejo: questionar \u00e9 seu meio, e alargar as fronteiras \u00e9 seu fim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por\u00e9m, h\u00e1 uma outra maneira de se analisar o filme, colocando o protagonismo n\u00e3o na jornalista branca Skeeter, mas na sua principal colaboradora no livro, a empregada negra Aibeleen. Aibeleen, al\u00e9m de cuidar da casa, cuidou dos filhos de muitos de seus patr\u00f5es, que por vezes recebiam mais afeto dela do que das m\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fala-se muito sobre o jornalista n\u00e3o \u201cdar voz\u201d a pessoas invisibilizadas, uma vez que elas n\u00e3o s\u00e3o mudas. Na verdade, o jornalista \u201camplifica\u201d essas vozes. Essa distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mero capricho ret\u00f3rico, mas uma diferen\u00e7a de princ\u00edpios. E isso aparece retratado no filme no final de Aibeleen. Ela assume para si o papel de coautora do livro \u201cA Resposta\u201d e se prop\u00f5e a seguir escrevendo. Ela compreende a riqueza da sua hist\u00f3ria pessoal e o modo como suas experi\u00eancias s\u00e3o sintom\u00e1ticas de uma sociedade. Ela lembra a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus, que assumiu seu lugar entre as grandes autoras brasileiras relatando suas viv\u00eancias. Isso ameniza a ideia de Skeeter como uma \u201csalvadora branca\u201d: esse desfecho coloca Aibeleen como a salvadora daquela comunidade. A cena da personagem sendo ovacionada na igreja dos negros corrobora isso. Foi a coragem de Aibeleen que tornou o livro poss\u00edvel, e foi a sua sensibilidade que o fez especial. Tamb\u00e9m \u00e9 importante lembrar que foram os di\u00e1rios que Aibeleen escreveu ao longo da vida que deram corpo aos seus relatos. Mais do que contar sua hist\u00f3ria, ela a escreveu, dia ap\u00f3s dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seria Aibeleen uma esp\u00e9cie de jornalista tamb\u00e9m? Bem, pode-se dizer que ela tem caracter\u00edsticas de uma boa profissional da \u00e1rea, como o olhar cr\u00edtico para o mundo em que vive e a capacidade de fazer conex\u00f5es. \u00c9 gra\u00e7as \u00e0s pontes que ela constr\u00f3i com as outras empregadas que elas aceitam contas suas hist\u00f3rias. O respeito que Aibeleen inspira nessa comunidade \u00e9 fundamental para essa ades\u00e3o. A experi\u00eancia de Aibeleen lhe permitiu n\u00e3o apenas entender sua hist\u00f3ria de vida, mas ter um longo trabalho de campo sobre a vida dom\u00e9stica de fam\u00edlias brancas do sub\u00farbio. Ela passou por v\u00e1rias casas, cuidou de v\u00e1rias crian\u00e7as, e suas conversas debochadas com Minny sobre seus patr\u00f5es mostram enorme senso cr\u00edtico e sat\u00edrico no retrato dos brancos de classe m\u00e9dia. A mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o de Aibeleen faz com que sua experi\u00eancia de vida se revele ser tamb\u00e9m um longo trabalho de imers\u00e3o num microcosmo das rela\u00e7\u00f5es raciais e de classe no Mississipi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na \u00faltima cena do filme, Aibeleen narra: \u201cNingu\u00e9m nunca me perguntou como era ser eu. Quando eu disse a verdade, eu me senti livre.\u201d Dessa forma, podemos concluir que houve um di\u00e1logo, uma cocria\u00e7\u00e3o entre Skeeter e Aibeleen. Um bom jornalista consegue afetar as pessoas, fazendo-as perceber boas hist\u00f3rias ao seu redor. \u00c9 um efeito quase epid\u00eamico, mas positivo, pois gera reflex\u00e3o. A consci\u00eancia de sua opress\u00e3o, isso Aibeleen sempre teve, ningu\u00e9m precisou ensin\u00e1-la que ela era oprimida. O que acontece ao longo do filme \u00e9 algo muito mais complexo: \u00e9 uma pessoa tomando para si o controle da pr\u00f3pria hist\u00f3ria, e fazendo isso contando-a. Esse \u00e9 o poder transformador das duas bases do jornalismo: o olhar e a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/0.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6640\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/0.jpeg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/0-300x100.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma maneira convencional de analisar o filme Hist\u00f3rias Cruzadas, de 2011, seria dizer que ele conta a hist\u00f3ria de<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6641,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[6,92],"tags":[30,29,96,28],"class_list":["post-6736","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coluna","category-jornalismo-em-obras","tag-focas","tag-jornalismo","tag-jornalismo-em-obras","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18.jpeg",1080,600,false],"thumbnail":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-150x150.jpeg",150,150,true],"medium":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-300x167.jpeg",300,167,true],"medium_large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-768x427.jpeg",768,427,true],"large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-1024x569.jpeg",800,445,true],"1536x1536":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18.jpeg",1080,600,false],"2048x2048":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18.jpeg",1080,600,false],"colormag-highlighted-post":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-392x272.jpeg",392,272,true],"colormag-featured-post-medium":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-390x205.jpeg",390,205,true],"colormag-featured-post-small":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-130x90.jpeg",130,90,true],"colormag-featured-image":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-800x445.jpeg",800,445,true],"colormag-default-news":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-150x150.jpeg",150,150,true],"colormag-featured-image-large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18.jpeg",1080,600,false]},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/coluna\/\" rel=\"category tag\">Coluna<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-em-obras\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo em Obras<\/a>","tag_info":"Jornalismo em Obras","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6736","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6736"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6736\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6737,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6736\/revisions\/6737"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6736"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6736"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6736"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}