{"id":6858,"date":"2026-10-06T12:57:54","date_gmt":"2026-10-06T15:57:54","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=6858"},"modified":"2026-10-06T12:57:55","modified_gmt":"2026-10-06T15:57:55","slug":"o-jornalismo-que-aproxima-em-hiroshima-de-john-hersey-1946","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/10\/06\/o-jornalismo-que-aproxima-em-hiroshima-de-john-hersey-1946\/","title":{"rendered":"O jornalismo que aproxima em Hiroshima, de John Hersey (1946)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No posf\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o brasileira de Hiroshima, o autor Matinas Suzuki Jr. escreve que a obra \u00e9 \u201cuma esp\u00e9cie de Cidad\u00e3o Kane do jornalismo\u201d. A refer\u00eancia \u00e9 ao filme de 1941 considerado como o melhor filme de todos os tempos, e um dos mais inovadores. A reportagem \u201cHiroshima\u201d, do autor estadunidense John Hersey, foi publicada pela primeira vez em 1946 pela revista The New Yorker, uma das mais prestigiadas revistas do mundo, em uma edi\u00e7\u00e3o especial, que foi dedicada exclusivamente ao extenso material escrito por Hersey em seu per\u00edodo de pouco menos de um m\u00eas em Hiroshima, onde focou seu trabalho no relato da experi\u00eancia de seis moradores da cidade que sobreviveram \u00e0 bomba at\u00f4mica detonada pelos estadunidenses em 6 de agosto de 1946, que levou \u00e0 morte de pelo menos 100 mil pessoas e deixou centenas de milhares feridas ou adoecidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Suzuki Jr. faz uma contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da mentalidade estadunidense sobre a bomba at\u00f4mica \u00e0 \u00e9poca da publica\u00e7\u00e3o da reportagem. Em 1946, o esp\u00edrito era de vit\u00f3ria, e considerava-se a bomba at\u00f4mica um avan\u00e7o cient\u00edfico necess\u00e1rio para o estabelecimento da paz. Pouco se sabia, por parte do grande p\u00fablico, sobre o que de fato aconteceu em Hiroshima e Nagasaki, e n\u00e3o havia proximidade entre o estadunidense m\u00e9dio e o japon\u00eas m\u00e9dio v\u00edtima das bombas. Isso se devia n\u00e3o apenas ao sentimento de sair do lado vitorioso na Segunda Guerra Mundial, mas tamb\u00e9m de um controle de informa\u00e7\u00e3o ditado pelo governo dos Estados Unidos sobre o tema. Foi nesse contexto que a reportagem de Hersey foi publicada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quarenta anos depois, Hersey voltou a Hiroshima e reencontrou os personagens que serviram seus relatos \u00e0 reportagem, e a forma como suas vidas seguiram afetadas pela bomba ressoa nessa nova reportagem, anexada \u00e0 original em publica\u00e7\u00f5es subsequentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode-se elencar v\u00e1rios m\u00e9ritos na reportagem, que demonstram o talento do autor para o of\u00edcio do jornalista. Um deles \u00e9 a escolha contar a hist\u00f3ria pela perspectiva dos personagens. John Hersey pouco fala sobre dados, sobre conceitos cient\u00edficos. Ele entende que o que mobiliza o ser humano \u00e9 a hist\u00f3ria de outro ser humano. Por isso, o autor conta a experi\u00eancia de seis pessoas que estavam em Hiroshima no dia da detona\u00e7\u00e3o da bomba e sobreviveram. \u00c9 por meio desses relatos que ele conduz sua narrativa. Havia um distanciamento geogr\u00e1fico e cultural em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico dos Estados Unidos e os japoneses, aliados a um sentimento de animosidade advindo da guerra. Por isso, a escolha de Hersey de contar a hist\u00f3ria de cidad\u00e3os comuns aproxima o personagem do leitor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os personagens escolhidos por Hersey s\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kiyoshi Tatimoto, um pastor metodista japon\u00eas que viveu nos Estados Unidos;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hatsuyo Nakamura, uma costureira e dona de casa;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Masakazu Fujii, um m\u00e9dico dono de um hospital particular;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Wilhelm Kleinsorge, um padre jesu\u00edta alem\u00e3o que vivia em Hiroshima;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Terufumi Sasaki, um m\u00e9dico cirurgi\u00e3o rec\u00e9m-formado;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toshiko Sasaki, uma funcion\u00e1ria administrativa e escritur\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha, dentre todos os sobreviventes, desses seis personagens, \u00e9 particularmente feliz para um retrato humano do desastre, pois se tem, com esse recorte, um panorama da sociedade japonesa antes da bomba, e tamb\u00e9m uma narrativa de como diferentes estratos da sociedade lidaram com o ocorrido. Por exemplo, o ponto de vista de um padre alem\u00e3o, um estrangeiro, por\u00e9m de um pa\u00eds aliado do Jap\u00e3o na guerra, e cuja miss\u00e3o religiosa \u00e9 fundamental para sua atua\u00e7\u00e3o nos acontecimentos que se seguem \u00e0 detona\u00e7\u00e3o da bomba. Outro exemplo interessante \u00e9 o preconceito que o Sr. Tatimoto sofre por ser crist\u00e3o e considerado anti-japon\u00eas por ter conex\u00f5es com os EUA, rivais do Jap\u00e3o na guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pontos de vista de dois m\u00e9dicos diametralmente diferentes \u00e9 igualmente interessante. Enquanto o rico e ego\u00edsta Dr. Fujii se recolhe em dores e pouco tempo depois da bomba se muda da cidade, o rec\u00e9m-formado Dr. Sasaki trabalha incansavelmente ajudando os feridos. Os pontos de vista de uma dona de casa e m\u00e3e de fam\u00edlia e de uma jovem solteira cujo noivo simplesmente desaparece depois da bomba enriquecem o livro com a perspectiva feminina sobre a guerra e a barb\u00e1rie, onde mulheres e crian\u00e7as saem prejudicadas de formas particulares, principalmente por conta do abandono.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto de destaque no livro \u00e9 a forma como elementos mais comuns \u00e0 literatura s\u00e3o usados para compor a reportagem. O estilo de John Hersey \u00e9 direto, n\u00e3o explicita a opini\u00e3o do autor e deixa o relato falar por si. Por\u00e9m, \u00e9 poss\u00edvel perceber a sutileza de sua escrita no uso de alguns recursos liter\u00e1rios. Um deles \u00e9 a ironia. Um exemplo \u00e9 a sobreposi\u00e7\u00e3o de dois par\u00e1grafos contando a hist\u00f3ria do Dr. Sasaki:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTodas as manh\u00e3s reunia-se com sua equipe e pronunciava seu serm\u00e3o predileto: n\u00e3o trabalhar s\u00f3 por dinheiro; cumprir em primeiro lugar as obriga\u00e7\u00f5es para com o paciente e deixar o dinheiro em segundo plano [&#8230;]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Dr. Sasaki via seu capital crescer mais e mais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segue-se ent\u00e3o um relato sobre o enriquecimento do m\u00e9dico, que viveu expandindo seus neg\u00f3cios na medicina e vivendo cercado de luxo, contando com abatimentos do governo nos seu imposto de renda, oferecidos para m\u00e9dicos no Jap\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m recursos liter\u00e1rios na maneira como a barb\u00e1rie \u00e9 descrita. Certas passagens se utilizam do grotesco para dar a \u00eanfase requerida para o massacre ali cometido. Algumas passagens lembram o Inferno de Dante Alighieri e os poemas de William Blake sobre o inferno, como este trecho da experi\u00eancia do padre Kleinsorge:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;[&#8230;] deparou com uns vinte homens, todos no mesmo estado horripilante: o rosto inteiramente queimado, as \u00f3rbitas vazias, as faces marcadas pelo l\u00edquido que escorrera das c\u00f3rneas derretidas [&#8230;] Sua boca se reduzira a uma chaga intumescida e coberta de pus, e eles n\u00e3o podiam juntar os l\u00e1bios para receber o bico da chaleira.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O autor explora tamb\u00e9m uma outra compet\u00eancia muito importante do jornalista que vai cobrir eventos em terras estrangeiras: a etnografia. Por mais que o trabalho de Hersey seja o de aproximar o leitor da realidade das v\u00edtimas da bomba, o autor tamb\u00e9m faz um trabalho em pontuar as diferen\u00e7as culturais dos japoneses, num esfor\u00e7o etnogr\u00e1fico de mostrar a mentalidade de um povo frente a eventos dessa magnitude. Isso fica presente na abnega\u00e7\u00e3o de boa parte dos personagens, e tamb\u00e9m na sua resili\u00eancia como um tra\u00e7o cultural. O autor chega a usar o termo \u201cat\u00e1vico\u201d para descrever tais comportamentos, dentre os quais pode-se destacar a grande import\u00e2ncia dada aos ritos funer\u00e1rios e a enorme devo\u00e7\u00e3o ao imperador, s\u00edmbolo da unidade de um povo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode-se dizer que a reportagem de John Hersey, bem como seu desdobramento publicado d\u00e9cadas depois, s\u00e3o importantes para o jornalismo liter\u00e1rio por usarem recursos cient\u00edficos e liter\u00e1rios para contar sua hist\u00f3ria, e por entender que o jornalismo trata, antes de tudo, de pessoas. A contribui\u00e7\u00e3o da obra para o jornalismo \u00e9 imensa e em m\u00faltiplos aspectos, pois pode-se encontrar nela o uso brilhante de v\u00e1rias compet\u00eancias muito caras ao nosso of\u00edcio. A reportagem representa o \u00e1pice de onde o jornalismo pode chegar em termos de excel\u00eancia e relev\u00e2ncia, e por isso \u00e9 um trabalho muito inspirador, em especial para quem est\u00e1 come\u00e7ando na profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ass-guebert.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6859\" style=\"width:760px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ass-guebert.jpg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/ass-guebert-300x100.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No posf\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o brasileira de Hiroshima, o autor Matinas Suzuki Jr. escreve que a obra \u00e9 \u201cuma esp\u00e9cie de<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6641,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[6,92],"tags":[85,96],"class_list":["post-6858","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coluna","category-jornalismo-em-obras","tag-coluna","tag-jornalismo-em-obras"],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18.jpeg",1080,600,false],"thumbnail":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-150x150.jpeg",150,150,true],"medium":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-300x167.jpeg",300,167,true],"medium_large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-768x427.jpeg",768,427,true],"large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-1024x569.jpeg",800,445,true],"1536x1536":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18.jpeg",1080,600,false],"2048x2048":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18.jpeg",1080,600,false],"colormag-highlighted-post":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-392x272.jpeg",392,272,true],"colormag-featured-post-medium":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-390x205.jpeg",390,205,true],"colormag-featured-post-small":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-130x90.jpeg",130,90,true],"colormag-featured-image":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-800x445.jpeg",800,445,true],"colormag-default-news":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18-150x150.jpeg",150,150,true],"colormag-featured-image-large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-01-at-11.37.18.jpeg",1080,600,false]},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/coluna\/\" rel=\"category tag\">Coluna<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-em-obras\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo em Obras<\/a>","tag_info":"Jornalismo em Obras","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6858","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6858"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6858\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6860,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6858\/revisions\/6860"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6858"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6858"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6858"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}