{"id":6919,"date":"2026-10-19T11:25:01","date_gmt":"2026-10-19T14:25:01","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=6919"},"modified":"2026-10-19T11:25:27","modified_gmt":"2026-10-19T14:25:27","slug":"devolver-a-voz-preservar-a-memoria-o-jornalismo-de-daniela-arbex","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/10\/19\/devolver-a-voz-preservar-a-memoria-o-jornalismo-de-daniela-arbex\/","title":{"rendered":"Devolver a voz, preservar a mem\u00f3ria: o jornalismo de Daniela Arbex"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Por Gabriela Margato (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex exp\u00f5e uma das p\u00e1ginas mais dolorosas e ocultadas da hist\u00f3ria do pa\u00eds: o dia a dia do Hospital Col\u00f4nia de Barbacena, em Minas Gerais. Fundado no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o hospital deveria acolher pessoas em sofrimento mental, mas acabou se transformando em um espa\u00e7o de abandono, viol\u00eancia e morte. Ao longo de d\u00e9cadas, milhares de pessoas foram enviadas para l\u00e1 \u2014 muitas sem diagn\u00f3stico de doen\u00e7a mental, simplesmente por serem consideradas inconvenientes, pobres ou socialmente indesej\u00e1veis. Entre elas havia mulheres (e amantes) gr\u00e1vidas, crian\u00e7as, moradores de rua, homossexuais, filhos desobedientes e pessoas que contrariavam os padr\u00f5es impostos pela sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Daniela reconstr\u00f3i muitas dessas hist\u00f3rias a partir de documentos, fotografias, depoimentos de sobreviventes, funcion\u00e1rios e familiares. O resultado \u00e9 um retrato estarrecedor de uma institui\u00e7\u00e3o em que a dignidade humana foi completamente destru\u00edda. Os internos eram submetidos \u00e0 fome, ao frio, \u00e0 falta de higiene, \u00e0 superlota\u00e7\u00e3o e a tratamentos desumanos, como os choques el\u00e9tricos aplicados muitas vezes sem qualquer crit\u00e9rio terap\u00eautico. Muitos chegavam de trem, em condi\u00e7\u00f5es degradantes, e eram reduzidos a n\u00fameros, sem nome, identidade ou qualquer possibilidade real de defesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos aspectos mais emocionantes do livro est\u00e1 justamente na tentativa de devolver humanidade para essas pessoas. A autora n\u00e3o apresenta as v\u00edtimas como \u201capenas mais um an\u00f4nimo\u201d: ela recupera hist\u00f3rias, rostos, v\u00ednculos, lembran\u00e7as e, principalmente, identidades. Os relatos de sobreviventes e familiares revelam a dor de quem foi separado de casa, a esperan\u00e7a de quem aguardava uma visita e o trauma de quem precisou reconstruir a pr\u00f3pria vida depois de sair do hospital. As fotografias e as cenas narradas s\u00e3o dif\u00edceis de esquecer, mas n\u00e3o aparecem como explora\u00e7\u00e3o do sofrimento; elas funcionam como testemunho e, sobretudo, den\u00fancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem entregar todos os acontecimentos da obra, \u00e9 poss\u00edvel dizer que a leitura provoca indigna\u00e7\u00e3o, tristeza e, ao mesmo tempo, uma reflex\u00e3o necess\u00e1ria sobre a forma como a sociedade trata aqueles que n\u00e3o se encaixam adequadamente em seus padr\u00f5es. O livro tamb\u00e9m questiona a omiss\u00e3o do Estado, dos profissionais e de uma comunidade que, durante muito tempo, preferiu n\u00e3o olhar para o que acontecia atr\u00e1s dos muros do Hospital Col\u00f4nia. Mais do que contar uma trag\u00e9dia do passado, a jornalista alerta para os perigos do preconceito, da institucionaliza\u00e7\u00e3o e da desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escrita de Daniela Arbex \u00e9, ao mesmo tempo, expl\u00edcita e emocionante. Somente ela consegue descrever fatos t\u00e3o pavorosos com tanta sensibilidade, cuidado e respeito pelas v\u00edtimas e por suas fam\u00edlias. Sua linguagem \u00e9 firme quando precisa denunciar, mas tamb\u00e9m \u00e9 delicada ao acompanhar mem\u00f3rias e feridas pessoais. Por isso, Holocausto Brasileiro \u00e9 uma obra dif\u00edcil, por\u00e9m indispens\u00e1vel: um livro que incomoda, emociona e impede que a hist\u00f3ria de Barbacena seja novamente apagada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Daniela Arbex \u00e9 jornalista e escritora mineira, nascida em Juiz de Fora. Escolheu o jornalismo ainda adolescente e formou-se em Comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Trabalhou por mais de duas d\u00e9cadas no jornal Tribuna de Minas, onde se destacou pelo jornalismo investigativo e por reportagens sobre viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos. Mais tarde, tornou-se conhecida tamb\u00e9m pelos livros-reportagem, entre eles Holocausto Brasileiro, Arrastados e Todo Dia a Mesma Noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na rela\u00e7\u00e3o com as fontes, especialmente sobreviventes e familiares de v\u00edtimas, Arbex valoriza a escuta atenta, o acolhimento e a empatia. Ela procura respeitar a dor de quem conta experi\u00eancias dif\u00edceis, sem perder o compromisso jornal\u00edstico: checar depoimentos, confrontar vers\u00f5es e apurar os fatos. A jornalista tamb\u00e9m descreve sua escrita como detalhada e sensorial, constru\u00edda para aproximar o leitor dos lugares e das experi\u00eancias narradas e despertar empatia por pessoas que muitas vezes foram reduzidas ao anonimato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gabriela Margato (Ag\u00eancia Focas \u2013 Jornalismo Uniso) Em Holocausto Brasileiro, Daniela Arbex exp\u00f5e uma das p\u00e1ginas mais dolorosas e<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6920,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","footnotes":""},"categories":[15,16,9,151,144,14],"tags":[30,29,65,28],"class_list":["post-6919","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-jornalismo","category-jornalismo-digital","category-jornalismo-online","category-livro-reportagem","category-resenha","category-uniso","tag-focas","tag-jornalismo","tag-resenha","tag-uniso"],"featured_image_urls":{"full":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images.jpg",727,1080,false],"thumbnail":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-150x150.jpg",150,150,true],"medium":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-202x300.jpg",202,300,true],"medium_large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images.jpg",727,1080,false],"large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-689x1024.jpg",689,1024,true],"1536x1536":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images.jpg",727,1080,false],"2048x2048":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images.jpg",727,1080,false],"colormag-highlighted-post":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-392x272.jpg",392,272,true],"colormag-featured-post-medium":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-390x205.jpg",390,205,true],"colormag-featured-post-small":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-130x90.jpg",130,90,true],"colormag-featured-image":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-727x445.jpg",727,445,true],"colormag-default-news":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-150x150.jpg",150,150,true],"colormag-featured-image-large":["https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/images-727x600.jpg",727,600,true]},"author_info":{"info":["focas"]},"category_info":"<a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo\/\" rel=\"category tag\">Jornalismo<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-digital\/\" rel=\"category tag\">jornalismo digital<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/jornalismo-online\/\" rel=\"category tag\">jornalismo online<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/livro-reportagem\/\" rel=\"category tag\">Livro reportagem<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/resenha\/\" rel=\"category tag\">Resenha<\/a> <a href=\"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/category\/uniso\/\" rel=\"category tag\">Uniso<\/a>","tag_info":"Uniso","comment_count":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6919","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6919"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6919\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6921,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6919\/revisions\/6921"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6920"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6919"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6919"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6919"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}