{"id":6958,"date":"2026-10-27T08:22:49","date_gmt":"2026-10-27T11:22:49","guid":{"rendered":"https:\/\/focas.uniso.br\/?p=6958"},"modified":"2026-10-27T08:23:11","modified_gmt":"2026-10-27T11:23:11","slug":"o-jornalismo-ficticio-em-ghostwatch-1992","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/focas.uniso.br\/index.php\/2026\/10\/27\/o-jornalismo-ficticio-em-ghostwatch-1992\/","title":{"rendered":"O jornalismo fict\u00edcio em Ghostwatch (1992)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;Na noite de Halloween de 1992, a emissora BBC, no Reino Unido, exibiu um programa especial chamado Ghostwatch. A obra consistia em uma esp\u00e9cie de document\u00e1rio ou mesmo reportagem falsa, em que apresentadores reais, como o entrevistador Michael Parkinson e a apresentadora infantil Sarah Greene, investigavam uma casa supostamente mal-assombrada na Inglaterra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Explicar o conceito de Ghostwatch \u00e9 dif\u00edcil em 2026, num mundo onde j\u00e1 estamos habituados a g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos que utilizam elementos documentais para contar hist\u00f3rias fict\u00edcias, como o mockumentary e o found footage, subg\u00eanero do terror popularizado pelo filme A Bruxa de Blair. Mas \u00e9 importante lembrar que A Bruxa de Blair s\u00f3 foi lan\u00e7ado em 1999. O p\u00fablico de 1992 era praticamente analfabeto nesse subg\u00eanero ficcional que mistura fic\u00e7\u00e3o e realidade. Isso fez com que o conceito do especial da BBC fosse recebido pelo p\u00fablico de forma, como veremos, muito dram\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tentemos primeiro resumir o enredo de Ghostwatch. O programa foi exibido j\u00e1 gravado, mas simulava uma transmiss\u00e3o ao vivo num est\u00fadio com um link externo. No est\u00fadio, Michael Parkinson, um c\u00e9lebre jornalista, apresentava o especial. Seria como ter algu\u00e9m do calibre de Pedro Bial ou William Bonner na fun\u00e7\u00e3o, para termos uma compara\u00e7\u00e3o com a m\u00eddia brasileira. No est\u00fadio, ele est\u00e1 acompanhado de uma especialista em fen\u00f4menos paranormais e de uma central telef\u00f4nica, onde supostamente telefonistas estariam recebendo liga\u00e7\u00f5es ao vivo de telespectadores contando suas pr\u00f3prias experi\u00eancias sobrenaturais. Como o programa era gravado, os telefonemas tamb\u00e9m eram fict\u00edcios, e o espectador do mundo real que tentasse ligar deveria ouvir uma mensagem gravada da BBC anunciando que Ghostwatch era uma obra de fic\u00e7\u00e3o. No link externo, a apresentadora Sarah Greene est\u00e1 numa casa supostamente mal-assombrada onde vive uma mulher com suas duas filhas crian\u00e7as. Estes s\u00e3o os dois cen\u00e1rios de Ghostwatch.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O programa mescla elementos que passam credibilidade documental, como as vans e equipamentos da BBC, com elementos de decora\u00e7\u00e3o que tendem ao esot\u00e9rico, como caveiras em cima de uma lareira no cen\u00e1rio de onde Michael Parkinson faz a apresenta\u00e7\u00e3o. Um homem que \u00e9 apresentado como um t\u00e9cnico mostra o esquema de c\u00e2meras colocados na casa. Esses detalhes ajudam a dar veracidade. Tudo no enredo de Ghostwatch leva a crer que se trata de algo ver\u00eddico, inclusive com alguns clich\u00eas cl\u00e1ssicos de programas jornal\u00edsticos e de variedades. A especialista em fen\u00f4menos paranormais responde a uma pergunta sobre a influ\u00eancia da data nos eventos poss\u00edveis. Ela diz que h\u00e1 mais relatos de assombra\u00e7\u00f5es no Halloween do que em qualquer outra data do ano, mas ressalta que isso pode acontecer porque \u00e9 um momento em que as pessoas esperam ver coisas. Esse tipo de resposta evasiva \u00e9 t\u00edpico de quem quer passar credibilidade. Isso sustenta o tom ver\u00eddico do pr\u00f3prio programa, afastando dele o sensacionalismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;H\u00e1, por\u00e9m, alguns detalhes que desmontam a ilus\u00e3o. Talvez as pessoas se dessem conta de que o programa n\u00e3o era ao vivo pela aus\u00eancia de falhas comuns em transmiss\u00f5es do tipo, como delays em conversas com o link externo e cortes muito precisos e bem enquadrados, deixando claro para o olhar atento que se tratava de um programa gravado e editado. Mesmo assim, a BBC se cercou de precau\u00e7\u00f5es. Antes da exibi\u00e7\u00e3o do especial, houve uma mensagem avisando que o programa a seguir era uma obra de fic\u00e7\u00e3o, seguida do logo da BBC 1, divis\u00e3o da emissora respons\u00e1vel por obras ficcionais ou de entretenimento. Numa compara\u00e7\u00e3o, seria como ter o logo da Central Globo de Produ\u00e7\u00e3o, ao inv\u00e9s da Central Globo de Jornalismo. As chamadas anunciando a atra\u00e7\u00e3o ao longo do dia tamb\u00e9m se referiam a Ghostwatch como uma obra de fic\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, havia tamb\u00e9m as j\u00e1 mencionadas mensagens gravadas de aviso aos que ligassem para a emissora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Voltando ao enredo do programa, h\u00e1 uma reviravolta que quebra mais ainda com a linha entre fic\u00e7\u00e3o e realidade &#8211; e que \u00e9 particularmente interessante de ser analisada em estudos sobre a m\u00eddia. Em dado momento, a central de telefonistas recebe liga\u00e7\u00f5es dizendo que o fantasma que assombra a casa mostrada no programa est\u00e1 agora assombrando tamb\u00e9m as casas dos telespectadores. Apavorados, os apresentadores se d\u00e3o conta do que fizeram: ao exibir o programa, eles deram acesso ao fantasma para assombrar todas as casas do Reino Unido, e tamb\u00e9m o est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o. O programa termina mostrando o apresentador Michael Parkinson como que possu\u00eddo pela entidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Foi um caos. As linhas telef\u00f4nicas da BBC ficaram congestionadas, e as pessoas n\u00e3o tiveram acesso \u00e0 tal mensagem gravada e tranquilizadora. Uma mulher processou a emissora porque seu marido se sujou nas cal\u00e7as. Houve relatos de crian\u00e7as sem conseguir dormir e de telespectadores com estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. Mas o pior foi o caso de um jovem com defici\u00eancia intelectual que ouviu barulhos estranhos em sua casa durante a transmiss\u00e3o do programa e acabou por cometer suic\u00eddio, de t\u00e3o desesperado que ficou. Ghostwatch ficou infame, e por muito anos a BBC fingiu que o programa nunca existiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por\u00e9m, 34 anos depois, podemos aplaudir a genialidade e o pioneirismo art\u00edstico de Ghostwatch, uma obra que brincou com g\u00eaneros e universos distintos. O especial foi uma das primeiras obras audiovisuais a utilizar a forma documental para dar uma roupagem e um senso de realidade ao terror. A bem da verdade, esse recurso j\u00e1 havia sido usado antes, como em O Massacre da Serra El\u00e9trica, de 1974. Mas Ghostwatch foi muito al\u00e9m. Ele usou da credibilidade de uma emissora e de apresentadores consagrados interpretando a si pr\u00f3prios, quebrou o acordo t\u00e1cito entre emissor e telespectador e, talvez o mais interessante de tudo, trouxe uma met\u00e1fora do poder da m\u00eddia: ao exibir uma hist\u00f3ria na televis\u00e3o, ela \u201ccontamina\u201d todas as casas que t\u00eam um aparelho ligado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por\u00e9m, essa quebra de \u201ccontrato\u201d tem um pre\u00e7o. Mesmo com todos os an\u00fancios e precau\u00e7\u00f5es, usar formatos jornal\u00edsticos e documentais, usar jornalistas reais como personagens de fic\u00e7\u00e3o, isso tudo confunde o p\u00fablico ao n\u00edvel de romper paradigmas. De certa forma, Ghostwatch j\u00e1 prenunciava um fen\u00f4meno que vivemos hoje, o da descredibiliza\u00e7\u00e3o de jornalistas e emissoras, al\u00e9m do rompimento da realidade com o surgimento da chamada \u201cp\u00f3s-verdade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A li\u00e7\u00e3o que Ghostwatch nos deixa \u00e9 que a arte goza de uma liberdade da qual o jornalismo n\u00e3o pode se beneficiar. Nossa profiss\u00e3o exige os dois p\u00e9s na realidade se n\u00e3o quisermos ser assombrados pelo descr\u00e9dito da opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"200\" src=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ass-guebert-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6614\" srcset=\"https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ass-guebert-1.jpg 600w, https:\/\/focas.uniso.br\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/ass-guebert-1-300x100.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;Na noite de Halloween de 1992, a emissora BBC, no Reino Unido, exibiu um programa especial chamado Ghostwatch. 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