O jornalismo transformador em Histórias Cruzadas (2011)
Uma maneira convencional de analisar o filme Histórias Cruzadas, de 2011, seria dizer que ele conta a história de Eugenia, chamada por todos de Skeeter, uma aspirante a jornalista, que retorna depois de formada para sua cidade, Jackson, no estado do Mississipi nos anos 1960, época da segregação racial nos Estados Unidos. Lá, ela começa a reparar no racismo contido na esfera doméstica das casas de suas amigas, nas relações entre as patroas brancas, como Hilly e Elizabeth, e as empregadas negras, como Aibeleen e Minny. A partir disso, ela decide convencer as empregadas a lhe contarem suas histórias, como forma de desmistificar essa relação doméstica, expondo o abismo racial e social nessas relações, num sistema que, em diferentes graus, fere a todos. Skeeter foi criada por uma empregada negra e vê sua relação de amor por essa figura materna negra ser deslegitimada por sua família e círculo social branco o tempo todo. É um afeto real, mas clandestino, pois não é reconhecido na sua importância. É uma relação que, pela estrutura em que se desenvolve, pode ser rompido pela própria estrutura que o criou conforme as necessidades das convenções sociais. É o que acontece com Constantine, empregada da família de Skeeter, demitida repentinamente para manter uma pose respeitável para a mãe de Skeeter. Essa motivação pessoal está no cerne do interesse da jornalista por expor a verdade sobre a crueldade desse sistema racista.
Se quisermos analisar o filme enxergando Skeeter como protagonista, há reflexões interessantes sobre o jornalismo a serem feitas. Uma delas é se o interesse jornalístico é necessariamente um interesse pessoal. O olhar jornalístico para detectar histórias que merecem ser contadas depende de uma sensibilidade ligada ao afeto? Para Skeeter, sim. É pelo seu envolvimento emocional com a empregada de sua casa que seu olhar se volta para as incongruências estruturais do racismo no Mississipi, algo profundamente presente no debate público da época, com a luta pelos direitos civis dos negros atingindo seu ápice nessa mesma época no país.
Ao longo do filme, Skeeter consegue recolher depoimentos de muitas empregadas domésticas negras e lança anonimamente o livro “A Resposta”, que rapidamente se torna um sucesso, pois expõe uma ferida que poucos estavam dispostos a sequer enxergar. Jornalistas dispostos a contar história como “A Resposta” precisam ser o rei de uma terra de cegos: seu olho precisa ver o que passa despercebido. Isso requer duas coisas: a primeira é uma certa pré-disposição de caráter, uma sensibilidade incomum. A segunda é o repertório. Skeeter estudou fora, viveu em um mundo cosmopolita e teve contato com centros de produção de conhecimento. Ela sabe que o mundo é maior do que Jackson, Mississipi. É imprescindível que o jornalista não seja conformado com as cercas de seu vilarejo: questionar é seu meio, e alargar as fronteiras é seu fim.
Porém, há uma outra maneira de se analisar o filme, colocando o protagonismo não na jornalista branca Skeeter, mas na sua principal colaboradora no livro, a empregada negra Aibeleen. Aibeleen, além de cuidar da casa, cuidou dos filhos de muitos de seus patrões, que por vezes recebiam mais afeto dela do que das mães.
Fala-se muito sobre o jornalista não “dar voz” a pessoas invisibilizadas, uma vez que elas não são mudas. Na verdade, o jornalista “amplifica” essas vozes. Essa distinção não é mero capricho retórico, mas uma diferença de princípios. E isso aparece retratado no filme no final de Aibeleen. Ela assume para si o papel de coautora do livro “A Resposta” e se propõe a seguir escrevendo. Ela compreende a riqueza da sua história pessoal e o modo como suas experiências são sintomáticas de uma sociedade. Ela lembra a escritora brasileira Carolina Maria de Jesus, que assumiu seu lugar entre as grandes autoras brasileiras relatando suas vivências. Isso ameniza a ideia de Skeeter como uma “salvadora branca”: esse desfecho coloca Aibeleen como a salvadora daquela comunidade. A cena da personagem sendo ovacionada na igreja dos negros corrobora isso. Foi a coragem de Aibeleen que tornou o livro possível, e foi a sua sensibilidade que o fez especial. Também é importante lembrar que foram os diários que Aibeleen escreveu ao longo da vida que deram corpo aos seus relatos. Mais do que contar sua história, ela a escreveu, dia após dia.
Seria Aibeleen uma espécie de jornalista também? Bem, pode-se dizer que ela tem características de uma boa profissional da área, como o olhar crítico para o mundo em que vive e a capacidade de fazer conexões. É graças às pontes que ela constrói com as outras empregadas que elas aceitam contas suas histórias. O respeito que Aibeleen inspira nessa comunidade é fundamental para essa adesão. A experiência de Aibeleen lhe permitiu não apenas entender sua história de vida, mas ter um longo trabalho de campo sobre a vida doméstica de famílias brancas do subúrbio. Ela passou por várias casas, cuidou de várias crianças, e suas conversas debochadas com Minny sobre seus patrões mostram enorme senso crítico e satírico no retrato dos brancos de classe média. A mudança de percepção de Aibeleen faz com que sua experiência de vida se revele ser também um longo trabalho de imersão num microcosmo das relações raciais e de classe no Mississipi.
Na última cena do filme, Aibeleen narra: “Ninguém nunca me perguntou como era ser eu. Quando eu disse a verdade, eu me senti livre.” Dessa forma, podemos concluir que houve um diálogo, uma cocriação entre Skeeter e Aibeleen. Um bom jornalista consegue afetar as pessoas, fazendo-as perceber boas histórias ao seu redor. É um efeito quase epidêmico, mas positivo, pois gera reflexão. A consciência de sua opressão, isso Aibeleen sempre teve, ninguém precisou ensiná-la que ela era oprimida. O que acontece ao longo do filme é algo muito mais complexo: é uma pessoa tomando para si o controle da própria história, e fazendo isso contando-a. Esse é o poder transformador das duas bases do jornalismo: o olhar e a história.


