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O jornalismo político na primeira fase de Senhora do Destino (2004)

13 de dezembro de 1968 é um dia importante na obra do novelista Aguinaldo Silva. É o dia em que Tieta é expulsa de sua cidade na novela homônima (1989) e é o dia em que Maria do Carmo chega ao Rio de Janeiro em Senhora do Destino (2004). E é um dia terrível na história do Brasil, em que o Ato Institucional Número 5 de 1968, o AI-5, foi imposto pelo presidente Costa e Silva e deu início ao período mais sombrio da ditadura militar. O AI-5 afetou diretamente a vida política do país, cassando direitos políticos de parlamentares e engrossando o controle da censura à imprensa.

A novela Senhora do Destino, exibida entre 2004 e 2005, foi o maior sucesso de audiência da Globo na década de 2000, e é lembrada pelos personagens marcantes, como a heroína batalhadora Maria do Carmo, o cômico Giovanni Improtta e principalmente pela vilã Nazaré Tedesco. Mas o que muitas vezes se perde na lembrança da trama é a sua primeira fase, que dura apenas três capítulos, e se passa justamente nos dias em torno do AI-5. Esses capítulos são uma verdadeira trama política, e nela o jornalismo tem papel central. Essa fase dá grande destaque a dona Josefa de Medeiros Duarte Pinto, dona do fictício jornal Diário de Notícias, interpretada por uma jornalista, Marília Gabriela.

Dona Josefa é uma mulher refinada, que transita nos grandes escalões do governo e da alta sociedade. Ela tem contato com pessoas importantes do regime, e isso lhe dá certa liberdade para publicar em seu jornal críticas ao governo militar. Em uma cena, vemos a personagem ditar um editorial onde apela pela ordem no país e critica os desmandos da ditadura. Dona Josefa é profundamente preocupada com a situação política do Brasil, é uma intelectual da elite que defende a liberdade de imprensa. Porém, seus posicionamentos e falas indicam um desprezo pela população humilde do país. Em uma cena, ela diz que o povo brasileiro só se preocupa com futebol e samba, não tem a mínima ideia do que se passa na política do país e não está nem aí para a escalada do autoritarismo dos militares. Dona Josefa é o retrato da elite esclarecida, mas não disposta a abrir mão de seus privilégios. Essa personagem, assim, representa a elite da esquerda brasileira, bem intencionada, mas com um olhar condescendente e julgador para com aqueles que diz defender.

A ela, opõe-se outro personagem, o jovem jornalista Dirceu de Castro. Enquanto dona Josefa tem as costas quentes graças a seus contatos no Planalto, Dirceu é descaradamente perseguido, e expressa um entendimento mais genuíno do povo brasileiro, entendimento esse que se manifesta na admiração que virá sentir por Maria do Carmo, retrato da mulher brasileira batalhadora e honesta.

Com a instituição do AI-5, o Diário de Notícias é o primeiro jornal a ser fechado, e seus principais colaboradores precisam fugir e se esconder para não serem presos. Dona Josefa, poderosa e influente demais para ser presa, é exilada do Brasil. Porém, um jornalista precisa ficar no jornal para receber os militares. Dirceu se voluntaria para ficar. Ele sabe que será preso e possivelmente torturado e até morto, mas ele escolhe ficar para ser testemunha dos horrores da ditadura. Dirceu diz que, ao ser preso, ele poderá ver e ouvir coisas que algum dia pretende contar, para que períodos sombrios como aquele não se repitam. Dessa forma, Dirceu de Castro se opõe a dona Josefa como um jornalista disposto a arriscar a própria vida para expor a verdade, para que seu testemunho sirva de alerta.

Em meio a tudo isso, o motorista de dona Josefa, Sebastião, e sua irmã, a retirante Maria do Carmo, representam o “povo” brasileiro, que não sabe direito o que está acontecendo e se surpreende ao ver o caos promovido pelos militares. O autor Aguinaldo Silva é um consagrado jornalista, que viveu a ditadura, sendo editor-chefe do primeiro jornal gay do Brasil, o Lampião da Esquina, e teve que lidar com a censura tanto no seu trabalho como jornalista quanto como autor de novelas. Por isso, seu retrato dos jornalistas e do povo brasileiro é certeiro. Ele mostra com muita lucidez o perigo de se ver alienado não só da sua liberdade, mas também do direito à informação. É por não entender o caos do Rio de Janeiro naquele dia que Maria do Carmo tem sua filha sequestrada. É por demorar para entender a gravidade da situação que o motorista Sebastião é pego desprevenido ao ser peça fundamental no cenário de guerra que se arma. Aguinaldo Silva mostra nesses três capítulos, e também nos mais de cem que se seguem, o poder libertador da informação, bem como a sordidez da mentira, representada primeiro pelos militares e posteriormente na trama pelo político demagogo Reginaldo e pela vilã Nazaré.

A telenovela brasileira sempre foi política, não só pelo seu alcance, mas pelo seu conteúdo. Em Senhora do Destino, vemos o poder transformador da ficção se aliar ao poder transformador do jornalismo, ofício indispensável para a manutenção da democracia.

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