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Cultura em movimento: o hip hop e a expressão artística na região de Sorocaba

A 9ª edição da Feira do Som será realizada no dia 22 de março, na Praça Frei Baraúna, reunindo artistas e manifestações da cultura hip hop

Por Vitória Rodrigues (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Foto: Weverton Rodrigues | Feira do Som

A Praça Frei Baraúna, em Sorocaba, recebe no dia 22 de março, próximo domingo, a 9ª edição da Feira do Som. O evento reúne artistas da cultura hip hop e promove batalhas de rima, apresentações musicais e outras formas de expressão artística. A iniciativa busca fortalecer a cena cultural da região e oferecer espaço para artistas independentes e para o público que acompanha o movimento.

A Feira do Som, iniciada em dezembro de 2024, é um projeto independente criado por Renan Sander Pereira, idealizador da produtora “O Som Nunca Acaba” e da “Batalha do Som”, ao lado de Weverton Rodrigues, conhecido como Dido, cofundador e apresentador oficial.

O evento reúne artistas independentes, produtores e o público em torno da música e de manifestações da cultura urbana. Além das apresentações musicais, o espaço também promove desfiles de moda, danças urbanas, graffiti, opções gastronômicas, e atividades voltadas à valorização do hip-hop e da produção cultural local.

Segundo Dido, “eventos como a Feira do Som são importantes porque servem como ponto de encontro de diferentes artistas e às vezes quase opostos em questão de vocação de arte, desde quem rima a quem pinta, de quem canta a quem dança. Podendo assim expandir sua arte para outros lugares.”

A Feira do Som surgiu como um desdobramento da Batalha do Som, criada em 2023, a iniciativa ajudou a fortalecer a cultura das batalhas de rima em Sorocaba. Na época em que o projeto começou, eventos na região até incluíam batalhas em suas programações, mas elas apareciam apenas como participações e não como atração principal.

A proposta da feira, no entanto, sempre foi criar um espaço próprio para a cultura urbana. “A visão era de que não importava o local, a feira teria que acontecer”, afirma. Para Dido, iniciativas como essa também encontram receptividade do público sorocabano. O organizador cita como exemplo a Feira do Beco do Inferno, voltada para a arte urbana, e destaca que a cidade costuma demonstrar interesse por eventos culturais. Apesar disso, ele aponta que a cultura ainda enfrenta desafios institucionais. “Mesmo que as pessoas consumam e aceitem a arte, ainda existe uma aprovação seletiva”.

As batalhas de rap são mais do que entretenimento, elas representam a continuidade de uma cultura que nasceu nas periferias como forma de expressão e resistência. Para o Matheus Hugo, mais conhecido por “Pezão MC”, as batalhas também funcionam como um espaço de expressão pessoal. “Eu acredito que as batalhas de rima me dão total liberdade para falar ou fazer tudo o que eu sinto ou penso naquele momento, enquanto estou rimando em cima de um beat ou até mesmo a capela.”

Pezão conta que seu primeiro contato com a Feira do Som foi no dia 19 de maio de 2024, quando participou de uma das batalhas de rima do evento. Antes disso, porém, o interesse pelo hip hop já vinha de anos. “Em 2014 eu vi batalha de rima na internet com meus amigos e a gente rimava brincando na rua. Em 2017 eu encostei para assistir, mas só no finalzinho de 2022 que eu comecei a rimar. De lá para cá não parei mais.”

Mais do que competição, as batalhas de rima também carregam histórias pessoais e significados profundos para quem participa. Pezão comenta sobre o significado da batalha para ele, “se eu tivesse que definir as batalhas de rima em uma palavra seria ‘esperança’, porque acredito que com isso, podemos trabalhar para ter um mundo melhor, com mais igualdade e respeito a todos”. Já Dido relembra uma batalha que o marcou, “minha mãe faleceu em 2025 e ela só viu uma batalha na vida. Foi uma batalha em que eu estava e ganhei para ela.”

Além do significado pessoal para os artistas, as batalhas são portas de entrada para muitos jovens na cultura hip hop. Para Pezão MC, o contato com as batalhas ajudou a definir seu próprio caminho. “Antes das batalhas de rima eu mal sabia o que eu gostaria de fazer da minha vida e hoje sinto que nasci pra isso.” Segundo o organizador Dido, a força das batalhas também está na acessibilidade. Como acontece em bairros e praças públicas, qualquer pessoa pode participar ou acompanhar, o que aproxima os jovens do movimento. Ele destaca ainda que hoje existem MCs e batalhas que se tornaram referências e acumulam milhares de seguidores, influenciando comportamentos, estilos e até escolhas de vida.

Eventos como a Feira do Som também contribuem para dar visibilidade a artistas iniciantes. De acordo com Dido, o espaço incentiva os MCs a se prepararem e desenvolverem suas habilidades. “Na Feira do Som os MCs são provocados a treinar, ter perspectiva e ter um bom desempenho como MC. Assim ganham espaço, visibilidade e contato com o público.” Para ele, a experiência também ajuda os participantes a entenderem melhor seu papel como artistas.

O público também tem papel fundamental nesse cenário. Nas batalhas, muitas vezes são os próprios espectadores que decidem quem vence cada duelo. Para Pezão, a energia da plateia influencia diretamente na performance dos artistas. “Assistir a uma batalha pela internet e presencialmente é bem diferente. Quando a plateia está mandando o máximo, a vibe muda completamente.”

Origem do hip hop e sua chegada ao Brasil

Por trás das batalhas de rima e da energia do público está uma cultura que atravessa gerações. Quando falamos da cultura hip-hop, não estamos tratando de um debate recente, mas de um movimento histórico. No Brasil, ela se consolidou na década de 1980, influenciada pelo que já acontecia nos Estados Unidos, mais especificamente no Bronx, em Nova York, onde surgiu como parte da cultura urbana das periferias.

Em um cenário marcado por violência, criminalidade e pobreza nas comunidades afro-americanas e latino-americanas, a música, a poesia e a dança se tornaram formas de expressão e protesto da realidade vivida. Uma das canções que ajudou a levar o hip-hop para o resto do mundo foi “Rapper’s Delight”, lançada em setembro de 1979 pelo grupo The Sugarhill Gang.

No Brasil, jovens das periferias passaram a se reunir em locais como a Galeria 24 de Maio e a estação São Bento do metrô, em São Paulo, para ouvir os sons vindos do Bronx e experimentar novos passos de dança. Mesmo visto por muitos como um estilo violento e marginalizado, o rap se espalhou rapidamente pelas periferias, fortalecendo a autoestima de jovens que buscavam se reconhecer dentro de uma sociedade marcada por preconceitos.

O primeiro álbum brasileiro dedicado exclusivamente ao rap foi a coletânea Hip-Hop Cultura de Rua, lançada em 1988. O disco apresentou ao público artistas como Thaíde e DJ Hum, MC Jack e Código 13, que se tornaram referências importantes. No ano seguinte, foi lançada a coletânea Consciência Black, Vol. I, responsável por projetar um dos grupos mais influentes da história do rap nacional, os Racionais MC’s. Formado por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay, o grupo ficou conhecido por abordar em suas músicas temas como a desigualdade social nas periferias e as injustiças enfrentadas pela população negra e periférica no Brasil.

Em Sorocaba, eventos como a Feira do Som ajudam a manter viva essa cultura, abrindo espaço para que novos artistas se expressem e para que o público acompanhe de perto a força do hip hop.

Serviço

Data: 22/03 (domingo)

Horário: A partir das 13h

Local: Praça Frei Baraúna

Endereço: Rua Cesário Mota, 145 – Centro, Sorocaba – SP

Entrada: Gratuita

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