Água em Salto de Pirapora: avanço no abastecimento convive com nascentes degradadas e esgoto sem coleta
Pesquisas apontam que 40% das Áreas de Preservação Permanente na bacia do rio Pirapora estão sem cobertura vegetal; mais de um quarto dos moradores ainda não tem coleta de esgoto
Por Riki Kosuge (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Divulgação: Instagram
Quando chove forte em Salto de Pirapora, a água que desce pelos morros carrega junto terra, galhos e o que mais encontrar pela frente. Para quem mora às margens do rio Pirapora, essa cena se repete há anos, e não é à toa. Boa parte das encostas que deveriam estar cobertas por mata está exposta, e isso tem consequências diretas para quem depende daquela água.
O município avançou na infraestrutura de abastecimento. Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SINISA) de 2022, reunidos pelo Instituto Trata Brasil, indicam que cerca de 94% dos moradores são atendidos pela rede pública de água tratada, um índice expressivo para uma cidade do interior paulista. Mas esse número, por si só, não conta a história completa. Os outros 6% da população dependem de poços, minas e nascentes. E são exatamente essas fontes que estão sob maior pressão.
Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista que analisaram a bacia do rio Pirapora encontraram um dado preocupante: aproximadamente 40% das Áreas de Preservação Permanente, as faixas de vegetação que a lei exige ao redor de rios e nascentes, estão sem cobertura vegetal. O levantamento, publicado em 2021 na revista Estudos Geográficos, com dados referentes a 2019, confirmou que as áreas degradadas deixam os cursos d’água vulneráveis ao aporte excessivo de sedimentos. Um segundo estudo da mesma universidade, publicado em 2025, que avaliou a série histórica de 30 anos (1990 a 2019), identificou que 53,4% da bacia se encontra em estado crítico segundo o Índice de Comprometimento Hídrico da Agência Nacional de Águas. O aumento populacional aliado à redução no volume de precipitação anual tende a agravar esse quadro, comprometendo o abastecimento público de cidades como Salto de Pirapora.
“A vegetação ciliar não é enfeite. Ela segura o solo, filtra a água da chuva antes de chegar ao rio e mantém a temperatura e o nível dos cursos d’água estáveis”, explica a bióloga Fernanda Almeida, pesquisadora ambiental que integra um projeto de monitoramento de bacias há mais de uma década. “Quando você tira essa vegetação, o rio começa a receber sedimentos em excesso, o leito sofre assoreamento, e a qualidade da água cai. É um efeito em cadeia.”
O assoreamento, acúmulo de sedimentos no fundo dos rios, é um dos problemas mais visíveis na região. Além de reduzir a profundidade dos cursos d’água, o processo dificulta o abastecimento e encarece o tratamento da água captada. Se o abastecimento avançou, o esgotamento sanitário ainda patina. Segundo os mesmos dados do SINISA de 2022, cerca de 26% dos moradores de Salto de Pirapora, mais de 11 mil pessoas, não têm coleta de esgoto. Isso significa que uma parte considerável dos resíduos domésticos pode acabar indo para fossas, terrenos ou, no pior dos casos, direto para o solo e os rios.
O impacto não é imediato nem sempre visível, mas é real. Estudos acadêmicos conduzidos na última década sobre pontos da bacia identificaram que alguns parâmetros de qualidade da água ficam fora dos padrões estabelecidos pelos órgãos ambientais, especialmente em trechos próximos a áreas urbanas e agrícolas sem manejo adequado.
Para o engenheiro sanitarista Carlos Mendonça, que já prestou consultoria a municípios da região de Sorocaba, o problema em Salto de Pirapora é parecido com o de várias cidades paulistas de porte semelhante. “A rede de água chega primeiro porque é mais visível politicamente. O esgoto fica para depois, e esse ‘depois’ muitas vezes demora décadas”, afirma. “O que preocupa é que o esgoto sem tratamento contamina o lençol freático de forma silenciosa. Quando a população percebe, o dano já é grande.” Mendonça ressalta que os moradores da zona rural são os mais expostos, já que dependem mais diretamente de poços e nascentes. “Uma fossa mal construída a poucos metros de um poço pode contaminar a água que a família bebe todos os dias. Isso ainda acontece com frequência.” A equação econômica também pesa. Quanto mais degradada a bacia, mais caro fica tratar a água captada, e esse custo, em algum momento, chega na conta do consumidor ou nos cofres públicos.
A recomposição da vegetação nas APPs é apontada por especialistas como uma das estratégias mais custo-efetivas para proteger mananciais. Mas esbarra em obstáculos práticos: falta de fiscalização, pressão de atividades agropecuárias e ausência de incentivos econômicos para os proprietários que precisam recuperar as áreas em suas terras. “O produtor rural sozinho não vai fazer isso. Precisa de apoio técnico, de mudanças, de algum tipo de compensação”, diz Fernanda Almeida. “E a prefeitura precisa entender que investir na mata é investir no abastecimento de água da cidade. Não é gasto, é economia.” Salto de Pirapora não é um caso isolado nem um caso perdido. É, na verdade, um retrato bastante comum do interior paulista: infraestrutura urbana em expansão, mas com a base ambiental que sustenta essa expansão ainda frágil.
O avanço no abastecimento é real e deve ser reconhecido. Mas a proteção das nascentes, a ampliação da coleta de esgoto e o monitoramento contínuo da qualidade da água são condições para que esse avanço se sustente ao longo do tempo, especialmente num cenário de mudanças climáticas em que períodos de seca tendem a ser mais longos e mais severos. Sem nascente protegida, não há cano que resolva.
[Texto produzido para a disciplina Jornalismo Regional, ministrada pela professora Mônica Ribeiro]
