O jornalismo cruzadista em O Diabo Veste Prada 2 (2026)
Para quem é jornalista, o filme O Diabo Veste Prada 2, sequência do já clássico longa de 2006, pode ser facilmente lido como um filme de terror. Poderia ser uma distopia, se não fosse atual. No filme, o cenário editorial é completamente diferente do de 2006: o jornalismo tradicional é retratado sob profundos ataques de um mundo cada vez mais desesperado por lucro e economias mesquinhas. Andy Sachs agora não é mais uma recém-formada sonhadora, mas uma jornalista renomada; mas nem seu prestígio e seus prêmios a protegem de uma demissão em massa por parte da publicação onde trabalhava. Mas algumas coisas na personagem não mudaram. Ela continua idealista e continua vendo no jornalismo uma missão quase sagrada. Essa visão sacralizada de seu ofício faz com que ela considere seu sucateamento como uma heresia. O jornalismo a move e pode-se dizer que sua vida foi quase monástica: sem marido, sem filhos e com pouca vida social, Andy vive de contar histórias e expor verdades no seu trabalho.
Na outra ponta da história, Miranda Priestly está tão acuada e desvalorizada que fica irreconhecível. Pouco sobrou daquela soberba gloriosa. A Runway, como diz Nigel, não é mais uma revista há muito tempo. Os tempos são outros. Algumas coisas melhoraram: o medo de processos e cancelamentos amansaram o comportamento cruel da editora-chefe da maior revista de moda do mundo. Mas também mudou a lógica da produção de uma revista, porque o jeito de consumir uma revista mudou. Agora, pouco importam as vendas de seus exemplares físicos; realmente importantes são as métricas em cima dos cliques em links do site da revista, e quais são as matérias mais lidas e compartilhadas. Não sejamos ingênuos, jornais e revistas sempre foram empresas e, como tais, sempre visaram o lucro e a ampla circulação. Porém, a lógica dos algoritmos e dos cliques rápidos é especialmente carrasca da liberdade editorial e criativa.
E isso nos leva à terceira mudança significativa em relação ao mundo que deixamos no fim do primeiro filme. O CEO da editora da Runway, Irv Ravitz, falece e a empresa passa a ser comandada por seu filho, um muito estereotipado empresário moderninho e ignorante, que só pensa em lucros a curto prazo e parece não ter muitos neurônios utilizados. Esse é o novo chefe de Miranda, e é nas mãos desse personagem deplorável que está o futuro da Runway, revista onde, a esta altura do filme, Andy voltou a trabalhar, agora como editora de matérias especiais, tentando dar um tom de prestígio e profundidade a mais para a decadente revista. Fechando o cenário, temos um bilionário acéfalo disposto a comprar a Runway apenas para presentear sua namorada, numa clara alusão ao mundo real, onde a esposa de Jeff Bezos tenta se aproximar cada vez mais da revista Vogue.
Todos conhecemos Andy Sachs desde o primeiro filme. Não apenas apaixonada pelo jornalismo, ela tem uma verdadeira intransigência na sua defesa. O filme se desenrola basicamente na oposição entre Andy e Miranda. Enquanto Miranda, quem diria, está desgostosa e de mãos atadas, Andy não desiste e usa de todos os subterfúgios para salvar a revista Runway, não porque considere seu conteúdo particularmente relevante, mas porque entende que, se até o monstro editorial de proporções titânicas onde trabalhou vinte anos atrás está nesse estado de decrepitude, o que será de publicações independentes? De publicações de denúncia? Ela se apega à Runway como um símbolo, e a própria Miranda sintetiza isso muito bem, dizendo que Andy vê a revista como a última tábua boiando de um Titanic afundado.
E são muito interessantes os métodos que Andy usa em sua cruzada, porque são métodos do trabalho do jornalista: o faro, a observação, a criatividade, o diálogo, a busca por fontes e por construir conexões. Pode-se dizer, ao fim do filme, que sua demanda foi bem sucedida, mas o gosto é amargo, pois sabe-se que foi momentâneo e até humilhante. Andy alcançou seu objetivo não pela superioridade moral e ética de seus argumentos, mas porque soube transformar sua defesa do jornalismo numa rixa entre bilionários cheios de caprichos. Ela vence menos pela argumentação do que pela astúcia. Claro, astúcia é uma qualidade importante num jornalista, mas é mais própria dos que manipulam a verdade do que dos que mostram a verdade.
Pode-se dizer, concluindo tanto o filme quanto esta coluna, que o jornalismo sempre dá um jeito de sobreviver. Mas quando ele vai poder de fato viver?

