Entre o conforto e a expressão: o desafio de se vestir na correria da universidade
As pressões, necessidades e adaptações que moldam o ato de se vestir na realidade dinâmica dos estudantes de hoje
Por Nathalia Moreira Gussom (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Na rotina cheia de aulas, trabalhos e estágios, universitários buscam equilibrar conforto e estilo para expressar quem são — sem abrir mão da praticidade. Acontece que muitos estudantes têm uma vida híbrida, precisando adequar identidade, conforto e profissionalismo. Este desafio diário torna-se quase uma arte, especialmente para estudantes jovens, que ainda estão conquistando seu lugar no mundo.
A moda é uma questão de identidade. A mais simples camisa pode indicar a que grupo você pertence e qual tipo de conteúdo consome. Quando se fala de universidade, a moda pode até sugerir o curso que o aluno faz. Afinal, a roupa é capaz de direcionar a pessoa para seu campo de convivência: ao ver um estudante com roupas formais, por exemplo, logo deduzimos que ele faça Direito; ao ver alguém de branco, pensamos em alguma área da saúde. Muitas vezes, esses paradigmas impedem, constroem ou influenciam o estilo particular dos estudantes.
Entretanto, muitos desses jovens possuem jornadas híbridas, transitando diariamente entre o ambiente acadêmico e o profissional. No trabalho, existe uma maneira adequada de se portar, e o bom senso se torna essencial na escolha da vestimenta. Ao serem entrevistados, vários alunos confirmaram que já deixaram de usar determinadas peças por não serem bem vistas no ambiente profissional.
Mas os estudantes não desanimam. Artie Fernandes, de 19 anos, que estuda Psicologia e trabalha, encontrou uma forma criativa de preservar sua identidade: personaliza sua bolsa com elementos que o representam. “Costumo usar alguns bottons, chaveiros, photocards e entre outros.” Assim, consegue se sentir ele mesmo em um ambiente mais formal.

Já a aluna de Produção Fonográfica, Nathalia Kovacs, de 22 anos, usa outras estratégias para expressar quem é: “Minha identidade não é vista apenas pelas roupas, mas também pela maquiagem que às vezes faço ou por algum acessório que uso. Acho que isso transparece bem. Mas sou muito versátil em questões de estilo; para quem me vê em um único dia, provavelmente se cria um estereótipo diferente do que alguém formaria se me visse durante uma semana, por exemplo.”

Além disso, existem diversas maneiras de manter uma identidade visual, adotando elementos que se tornam marcas pessoais. A aluna de Direito Yasmim Nicole de Souza, por exemplo, explicou que possui um dress code rigoroso no fórum onde estagia. Ela descreve seu estilo como clássico, incorporando referências dos anos 1970 às suas vestimentas, sempre respeitando as normas de decoro do local. Para manter sua marca própria, afirma que não abre mão de certos elementos: “Franja, desde criança tenho e não consigo ficar sem. Mantenho um estilo nostálgico, gosto de me inspirar nas décadas passadas. Gosto de frequentar brechós e garimpar peças originais de época. Não abandono delineador, salvo em dias de muito cansaço e correria. Peças de lã e tricô uso desde sempre. Sapatos com solado grosso sempre faço questão de usar. Gosto de meias divertidas, como meias-calças e meias listradas, mas no dia a dia preciso deixá-las de lado.”
Larissa Perez, também aluna de Direito e estagiária no mesmo fórum, prioriza sempre o conforto. Sua peça-chave são as calças jeans, versáteis e adaptáveis, que podem ser usadas em qualquer lugar e ocasião e permitem transitar entre os diferentes ambientes do seu dia. Apesar de estarem inseridas no mesmo ambiente e seguirem a mesma rotina, Larissa e Yasmim possuem perspectivas diferentes sobre estilo. Com essa dualidade, elas quebram o estereótipo de que, no Direito, admite-se apenas o uso de roupas formais. Cada uma coloca um pouco de si em suas vestes e, com isso, demonstram que o curso não define seu estilo — e que é possível manter uma identidade pessoal mesmo seguindo o dress code da empresa.
Cada pessoa tem sua própria maneira de se expressar e mostrar ao mundo quem é. A aluna de Nutrição, Karen Matos Nascimento, de 20 anos, tenta sempre incluir alguma peça rosa em seus looks. Já o aluno de Jornalismo, Cauê Pereira, prefere usar camisetas com estampas relacionadas aos seus ídolos, filmes e bandas favoritas — como Beyoncé, por exemplo. Enquanto isso, Kauan Mateus Portela, que também cursa Jornalismo, reconhece que as mudanças de ambiente ao longo do dia alteram diretamente seu vestuário: “Influenciam muito! No trabalho, apenas roupas pretas, sem estampas e sem modelos muito diferentes. Na faculdade, me visto com mais personalidade, mas também com parcimônia a depender do tipo de aula e do que vamos fazer no dia. Em casa, apenas pijama.”
Para alguns, a escolha da roupa não é apenas uma questão de personalidade, mas também de proteção. Na entrevista, principalmente as mulheres que andam de ônibus relataram sentir-se retraídas na hora de escolher o que vestir, evitando saias, vestidos, decotes e roupas coladas na tentativa de escapar de possíveis assédios.
Diante de tantas rotinas, identidades e realidades distintas, torna-se evidente que a moda na vida universitária vai muito além da estética. Ela é linguagem, proteção, conforto, pertencimento e, sobretudo, expressão. Entre jornadas híbridas, exigências profissionais, deslocamentos longos e inseguranças cotidianas, cada estudante encontra um jeito próprio de marcar presença no mundo — seja em um acessório discreto, em uma cor preferida, em um elemento nostálgico ou até mesmo na adaptação forçada pelas circunstâncias.
No fim, o estilo de cada um revela não apenas quem são, mas também os espaços que ocupam e os desafios que enfrentam. E, mesmo diante das limitações impostas pelo ambiente de trabalho, pela rotina intensa ou pelo medo de assédio, os estudantes mostram que ainda é possível preservar a identidade. A roupa, nesse cenário, deixa de ser apenas vestimenta para se tornar narrativa: a história que cada universitário escolhe (ou precisa) contar todos os dias.
