RPG de mesa é estudado e aplicado como ferramenta para desenvolver habilidades sociais na psicoterapia
Sessões com jogos de interpretação de papéis têm sido usadas por psicólogos para estimular interação, cooperação e reflexão sobre comportamento entre adolescentes
Por Gabriela Dias (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

RPG é um jogo de interpretação que chegou no Brasil por volta da década 1980 | Foto: Freepik
Em volta de uma mesa, um grupo descreve as decisões de seus personagens em um mundo imaginário. O que parece apenas um jogo de RPG (Role-Playing Game), na verdade, faz parte de uma sessão terapêutica. Cada escolha, conflito e diálogo ajuda a trabalhar as habilidades sociais.
O Role-Playing Game se destaca por oferecer experiências baseadas na imaginação, criatividade e interação entre os jogadores. O RPG, definido como um jogo de interpretação de papéis, teve seu primeiro livro publicado em 1974, com o lançamento do jogo Dungeons & Dragons (D&D), por Gary Gygax e Dave Arneson, que tiveram como inspiração os jogos de tabuleiro e de estratégia de guerra.
No Brasil, o livro chegou na década de 1980, devido a estudantes universitários que conseguiram importar um exemplar e fotocopiavam para amigos, o que fez com que fossem conhecidos como “Geração Xerox”.
Décadas depois, foi nesse mesmo universo dos jogos de interpretação que o psicólogo Germano Henning teve seu primeiro contato com o RPG, “eu joguei muito RPG, mas eu não fui aquele cara que consumia, lia muitos livros, nada. Jogava RPG, gostava muito de jogar RPG eletrônico, mas aquela experiência de jogar RPG de mesa foi muito marcante”. Foi em seu último ano do curso de Psicologia, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em 2009, que ele sentiu pela primeira vez vontade em aplicar isso em sua profissão. A ideia surgiu no contexto da época, quando o vício em jogos eletrônicos ganhava destaque e impulsionava discussões na área.
Um estudo nacional norte-americano de Douglas Gentile, publicado em 2009, pela Science News, indicou uma prevalência que variava, mas já apontava sinais de alerta. A pesquisa mostrou que, entre 1.178 jovens analisados, cerca de 8,5% a 10% dos jogadores apresentavam comportamentos compatíveis com vício, seguindo padrões semelhantes aos observados no jogo patológico, associado a jogos de azar.
Germano conta que, naquele período, grande parte de seus pacientes apresentava uso excessivo de RPGs eletrônicos, então, a ideia inicial era tirar essas pessoas do digital e levá-las à prática presencial “e a habilidade social foi entrando muito aos poucos”.
Foi em 2013 que Germano Henning, Raissa Roberti Benevides e Túlio Andrade formaram o Grupo D20, com jovens de 14 a 16 anos, diagnosticados com diferentes condições, como Transtorno Opositor Desafiador (TOD), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e uso abusivo de jogos eletrônicos. Mesmo sem referências bibliográficas na época, o sucesso da iniciativa garantiu a expansão do projeto e a criação de múltiplos grupos, incorporando elementos lúdicos e atividades gamificadas, que aumentavam a adesão dos participantes. “Hoje em dia, nós temos uma clínica grande, com 70 clientes, mais ou menos, com essa prática”, completa Germano Henning.
Essa relação entre RPG e análise comportamental também tem despertado interesse no meio acadêmico. Victor Yuri Ykemoto, psicólogo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, estudou o tema em sua pesquisa intitulada “Uso de RPG de mesa em terapia analítico-comportamental: revisão de escopo”.
A utilização do RPG na psicoterapia é estruturada com um psicólogo como o mestre, fazendo com que a mediação trabalhe de forma criativa vários aspectos que “você não conseguiria ou teria mais dificuldade para trabalhar na vida real, fora do jogo”, completa Victor.

Victor Ykemoto durante a apresentação de sua pesquisa no XXXIV Encontro da ABPMC, em 2025 | Foto: Arquivo pessoal
Germano, em sua pesquisa de mestrado, realizada na Universidade de São Paulo (USP) entre os anos de 2019 a 2021, com o tema “A terapia analítico-comportamental das habilidades sociais em grupo para adolescentes com uso do RPG e da gamificação”, explica o processo. Em seu estudo foram analisados dados de meninos entre os 12 e 17 anos, em um consultório particular.

Germano Henning, mestre em Psicologia Clínica pela USP | Foto: Reprodução
Primeiro, é feita uma entrevista dividida em duas sessões individuais que duram entre 50 e 60 minutos. A primeira com os pais para coletar o histórico clínico do paciente e a segunda sessão com o paciente, buscando estabelecer um vínculo e utilizando informações previamente coletadas na sessão com os responsáveis para guiar e avaliar o participante. Durante a sessão, o terapeuta utiliza manuais sobre comportamento e habilidades sociais para entender melhor o paciente. A partir disso, ele traça um perfil e cria uma breve simulação de RPG, usando o jogo como forma de trabalhar essas habilidades. Essa etapa tinha como objetivo motivar e aumentar a probabilidade de o participante retornar a próxima sessão. Para finalizar, era informada a viabilidade da participação do paciente no grupo que ele seria incluído.
As sessões são planejadas previamente para cada participante, com o objetivo de intervir individualmente no comportamento-alvo de cada um. “Por exemplo, estamos jogando RPG de mesa com cinco crianças que têm dificuldade em puxar conversa, em interação social, criação de relacionamento. Toda vez que a gente cria esse objetivo dentro do jogo ou essa situação para ele passar por ela e ele consegue de forma aceitável, a gente acaba dando uma moeda de troca no jogo, ou seja, às vezes um equipamento, dinheiro dentro jogo ou alguma coisa que vai ajudá-lo na aventura”, diz Ykemoto.
Ykemoto utiliza, em sua pesquisa, a Análise do Comportamento Aplicada, um método muito aplicado hoje em dia para tratamento de crianças autistas. O tratamento é baseado em uma técnica da psicologia comportamental, a análise funcional, que identifica as causas e consequências de um comportamento, focando na sua função, não apenas na forma.
A generalização de repertórios, na Análise do Comportamento, ocorre quando habilidades aprendidas em um contexto específico, como a terapia, passam a ser utilizadas em diferentes situações do dia a dia. Isso significa que os comportamentos desenvolvidos não ficam restritos ao ambiente em que foram ensinados, tornando-se mais funcionais e aplicáveis na vida real, como ao usar uma comunicação mais assertiva em casa, no trabalho ou em interações sociais.
No entanto, durante o desenvolvimento da pesquisa, um fator inesperado alterou parte da dinâmica das sessões, em 2020 ocorreu a pandemia de COVID-19 e por esse motivo foi preciso migrar as sessões para uma plataforma online e fechada, o Discord, impactando o planejamento antes proposto. “O que foi superlegal, teve alguns resultados inesperados, o pessoal conversava muito mais. No consultório, eles conversavam entre diferentes grupos só na recepção. No Discord, eles conversavam 24h”, diz o pesquisador. Mas Germano também explica que o ambiente online dificilmente favorece o desenvolvimento dessas habilidades. Segundo ele, a dificuldade de treinar habilidades sociais de forma remota é maior, pois não há o contato direto entre as pessoas. Ykemoto corrobora, afirmando que nessa modalidade talvez não seja explorado 100% do potencial do paciente.
Para Paulo Cesar da Silva, psicólogo, a surpresa da utilização do RPG na psicoterapia não foi tão grande devido a existência de outras técnicas bastante conhecidas como, por exemplo, o psicodrama – método que utiliza a dramatização para explorar conflitos, emoções e relações, estimulando espontaneidade e criatividade ao encenar situações e buscar novas perspectivas e soluções – e o sociodrama – em que a dramatização e técnicas ativas para explorar e resolver conflitos grupais, sociais ou institucionais são utilizadas. Essas técnicas são exemplos de práticas que utilizam dessa interpretação de papéis, em um contexto individual ou grupal.
Para Paulo, o uso dessas práticas pode ajudar na construção do vínculo entre terapeuta e paciente, principalmente quando o recurso já faz parte do universo da pessoa atendida. Segundo ele, trazer elementos familiares para a sessão pode deixar o paciente mais à vontade e facilita o processo terapêutico. Além disso, ao agir por meio de personagens, a pessoa consegue se expressar de forma indireta sobre situações e sentimentos “por mais que não seja algo familiar ou que faça parte do mundo da pessoa que está procurando a terapia, ela pode se permitir tentar, que é muito do que a terapia propõe em vários momentos e contextos”, completa o psicólogo.

Paulo Silva, psicólogo, formado pela Universidade Cruzeiro do Sul há 7 anos | Foto: Arquivo pessoal
Assim como em outras abordagens da psicologia, é preciso saber utilizá-las, caso contrário seu objetivo do porquê ele está usando essa ferramenta pode não fazer sentido ou não ser a ferramenta mais assertiva para o andamento do processo em questão, podendo até mesmo tirar o foco do que de fato é importante.
Apesar de utilizar a metodologia da ética comportamental – um campo das ciências sociais que investiga como as pessoas agem diante de dilemas éticos – em seus atendimentos, Paulo diz estar aberto para estudar mais se tiver a oportunidade e que é adepto da utilização de ferramentas na terapia “até um pouco para ajudar ou quebrar o gelo ou o estereótipo do que a pessoa pensa que é terapia”, completa.
Os resultados da pesquisa de mestrado de Germano Henning indicam que o uso do RPG de mesa em sessões de terapia em grupo pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades sociais entre adolescentes. Parte dos participantes apresentou aumento na frequência de comportamentos socialmente habilidosos e menor dificuldade nas interações após as sessões presenciais. Mesmo com limitações, como o número reduzido de participantes e as adaptações para o formato online durante a pandemia, o estudo sugere que o RPG pode ser uma ferramenta complementar na psicoterapia, permitindo que comportamentos e interações sociais sejam observados e até mensurados dentro e fora do ambiente terapêutico.
[Texto desenvolvido na disciplina de Jornalismo especializado, ministrada pela professora Georgia de Mattos]
