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Mulheres ocupam espaços, mas ainda enfrentam barreiras em áreas tradicionalmente masculinas

[Série Mês das Mulheres] Mesmo com avanço na formação acadêmica, desigualdade de gênero ainda marca o mercado de trabalho em setores como a engenharia

Por Maria Clara Russini (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Créditos: foto de divulgação

O número de mulheres em cursos e profissões historicamente dominados por homens tem crescido no Brasil, mas a inserção e permanência no mercado de trabalho ainda são atravessadas por desafios como preconceito, desconfiança e a necessidade constante de provar competência. Em áreas como a engenharia, esse cenário revela tanto avanços quanto desigualdades persistentes.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as mulheres já representam mais da metade dos estudantes no ensino superior. No entanto, quando se trata de cursos das áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), a presença feminina ainda é menor, especialmente na engenharia, onde a participação gira em torno de 30% a 35%, dependendo da especialidade.

No mercado de trabalho, a desigualdade se intensifica. Segundo levantamento da Organização Internacional do Trabalho, mulheres em áreas técnicas frequentemente enfrentam salários menores, menos oportunidades de liderança e ambientes predominantemente masculinos, o que pode impactar diretamente sua trajetória profissional.

A estudante de Engenharia Civil, Gabriela de Souza, relata que a escolha pelo curso veio do interesse em resolver problemas e entender o funcionamento das coisas. “A engenharia me chamou atenção justamente por isso, porque é uma área bem prática e desafiadora ao mesmo tempo.”

Apesar de não ter vivenciado assédio direto, Gabriela destaca que a desconfiança ainda é uma realidade comum. “Já passei por várias situações em que duvidaram da minha capacidade só por eu ser mulher, o que ainda é bem comum nesse meio.”

A inserção no mercado de trabalho também exige um esforço adicional. “No geral, o ambiente é respeitoso, mas muitas vezes você precisa provar mais que é capaz. Existe aquela desconfiança no começo, mas é muito bom quando você mostra que sabe o que está fazendo e conquista seu espaço.”

Já no início da trajetória acadêmica, o cenário também se mostra desafiador. Giovanna Vieira Figueiredo, estudante do 1º semestre de Engenharia Mecânica, conta que a escolha pelo curso surgiu da curiosidade e do contato familiar com a área. “Minha maior motivação foi minha paixão por querer entender as coisas. Sempre tive interesse em saber como tudo ao meu redor foi construído, e cresci vendo isso de perto, já que meu pai é mecânico.”

Mesmo sem ter vivenciado situações diretas de assédio, Giovanna revela que o medo faz parte da experiência. “Às vezes sinto receio por ser uma área dominada por homens e por ser a única mulher do curso. Isso acaba gerando insegurança.”

A ausência de outras mulheres no ambiente acadêmico também impacta sua vivência. “Eu sinto falta de outras mulheres no curso. É muito diferente ser a única e não ter outras para conversar.” Ainda assim, ela destaca o respeito dos colegas, “os meninos do meu curso me respeitam e é um ambiente bem saudável”.

A insegurança em relação ao futuro profissional também aparece. “Ainda não ingressei no mercado de trabalho, mas tenho medo de sofrer preconceito ou não ser reconhecida apenas por ser mulher.”

Situações de descrédito, mesmo fora do ambiente universitário, reforçam esse cenário. “Muitas pessoas me veem como incapaz de cursar engenharia, por ser um curso difícil e com muitos homens. Já ouvi comentários desse tipo e vejo que ainda duvidam das mulheres nessa área.”

Esse contexto reflete uma estrutura histórica que ainda associa determinadas profissões ao gênero masculino. Para especialistas, a mudança passa não apenas pelo acesso à educação, mas também pela transformação cultural dentro das empresas e instituições.

Mesmo diante das dificuldades, a motivação para seguir na área permanece forte entre muitas estudantes. Gabriela resume esse sentimento ao falar sobre sua trajetória, “o que me motiva é saber que eu estou construindo meus sonhos. Quero crescer na profissão e ser reconhecida por ser boa no que faço.”

Casos de preconceito, ainda que velados, também marcam essa caminhada. A estudante relembra uma situação em que se sentiu inferiorizada durante um trabalho, “a forma como ele [funcionário de uma obra] reagiu foi diferente comigo, ele disse que era melhor eu só terminar a faculdade e procurar outra coisa”. Para ela, no entanto, a experiência acabou se transformando em impulso. “Foi um momento em que eu me senti inferiorizada, mas ao mesmo tempo serviu como motivação pra continuar e provar, principalmente pra mim mesma, que eu sou capaz”.

Iniciativas de incentivo à participação feminina em áreas técnicas têm surgido nos últimos anos, tanto no setor público quanto privado, buscando reduzir desigualdades e ampliar oportunidades. Ainda assim, especialistas apontam que o avanço depende de mudanças estruturais mais profundas, que envolvam desde a educação básica até políticas de inclusão no ambiente corporativo.

Enquanto isso, histórias como as de Gabriela e Giovanna mostram que, apesar dos obstáculos, mulheres seguem ocupando e transformando espaços não apenas como exceção, mas como parte de uma mudança que, ainda que gradual, já está em curso.

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