AgronomiaEconomiaJornalismojornalismo digitaljornalismo onlineUniso

O impacto da incerteza climática nas produções de arroz no Rio Grande do Sul em 2026

Eventos extremos no campo afetam produtores, alteram preços e expõem desigualdades estruturais na produção de alimentos no Brasil.

Por Raíssa Rosendo, Rayane Azevedo e Sophia Ruivo (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Produção da lavoura de arroz | Foto: arquivo pessoal Leonardo Munari, Fazenda Munari

A irregularidade climática tem afetado a produtividade agrícola no Brasil, com impactos distintos entre regiões produtoras e culturas.

Apesar da previsão de safra recorde de soja estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 177,8 milhões de toneladas na temporada 2025/26, um crescimento de 3,7%, eventos extremos, como secas e excesso de chuvas, têm pressionado o cultivo de alimentos básicos, como arroz e feijão, encarecendo o abastecimento e aprofundando desigualdades no país.

Nesse contexto, a imprevisibilidade climática se tornou um dos principais entraves para a produção de grãos essenciais. A incerteza no regime de chuvas, seja pela escassez ou pelo excesso em curtos períodos, dificulta o planejamento das lavouras e compromete a produtividade.

Os impactos são mais intensos no Rio Grande do Sul, principal produtor de arroz do país, que tem enfrentado uma sequência de enchentes e alagamentos capazes de comprometer áreas inteiras de cultivo.

Um dos produtores afetados é o agricultor Leonardo Munari, da região norte do estado, em Torres. Segundo ele, a instabilidade climática vai além das lavouras e atinge diretamente a tomada de decisões no campo. “As previsões estão muito inseguras. Como tomar uma decisão importante sem confiança no tempo? A gente pode perder uma lavoura de 30 hectares por erro de previsão.”

Nesse cenário de constante instabilidade climática, o doutor em Engenharia Agrícola, professor Admilson Irio Ribeiro, explica que há uma diferença estrutural entre os modelos de produção agrícola no país. Segundo ele, culturas voltadas ao mercado internacional contam com maior nível tecnológico, enquanto os alimentos destinados ao consumo interno enfrentam mais limitações. “A variação climática traz dificuldade de manter uma produtividade constante. A produção de alimentos mesmo no Brasil, no caso, a produção de alimentos para a mesa, ele vem da agricultura familiar e das pequenas propriedades. Esse número chega a ser cerca de 60% dos produtos que estão na nossa mesa, vem da pequena propriedade. E, muitas vezes, a gente não tem uma política bem definida, tanto do ponto de vista de fomento quanto também de assistência tecnológica.”

A fala evidencia que, além dos impactos climáticos, há também uma desigualdade estrutural no campo, que afeta diretamente a capacidade de adaptação dos produtores de alimentos básicos.

Na prática, essa desigualdade se materializa nas diferenças de terreno de plantio, nas formas de produção e na escala produtiva, do pequeno ao grande produtor. No caso de Munari, a situação se agrava por ele atuar em áreas de várzea, regiões naturalmente mais suscetíveis a alagamentos e que dependem diretamente do comportamento dos rios e do volume de chuvas.

Além da imprevisibilidade, o excesso de precipitação tem provocado impactos diretos na lavoura. “O problema são chuvas de 120 a 150 milímetros em 24 horas”, explica. Nessas condições, “as áreas alagam e a água demora muito para baixar” e, em muitos casos, “quando está baixando, vem outra pancada e levanta tudo de novo”.

Os prejuízos são recorrentes e afetam diretamente a produção. “Perdemos arroz embaixo da água” e “teve área que precisou ser replantada por causa da chuva”, relata o agricultor. Segundo ele, a situação tem se repetido com frequência: “quase todo ano a gente tem problema com excesso de chuva”.

Mesmo diante desses desafios, o problema não se limita ao clima. “A produtividade é boa, mas não compensa plantar” e “o preço do arroz está extremamente defasado”, afirma Munari, ao destacar o descompasso entre custo de produção e retorno financeiro.

A instabilidade relatada no campo é reflexo de um cenário mais amplo. Segundo o professor Admilson Irio Ribeiro, “a gente tem uma instabilidade no regime de chuvas” e “os eventos climáticos ficaram mais severos, com grande variação de temperatura e chuva”, o que intensifica ainda mais os desafios enfrentados pelos produtores.

Fazenda Munari devastada pela enchente, produção alagada e perdida | Foto: Leonardo Munari

Esses efeitos também se refletem na economia nacional, principalmente, na mesa do consumidor.

Para o engenheiro agrônomo Prof. Dr. Manuel Enrique Gamero Guandique, o cenário climático não será impactado somente a curto prazo. As grandes enchentes que ocorreram em 2025 afetaram a maior parte das produções, e isso continua sendo um risco recorrente na região. “Nestes últimos anos, tem ocorrido muitos eventos extremos que afetaram e afetam diretamente a produção agrícola com destaque ao arroz e ao feijão. Essa variabilidade, seja anos muito secos ou muito chuvosos, influenciam diretamente nos preços desses alimentos.”

Segundo o pesquisador, a variabilidade climática interfere diretamente no comportamento do mercado, intensificando a oscilação da produção agrícola. Em anos de quebra de safra, como em 2025, a redução da oferta pressiona os preços para cima, enquanto em períodos de maior produção, a ampliação da oferta tende a reduzir os preços, evidenciando a relação direta entre clima e dinâmica de oferta e demanda.

Para Guandique, a pressão sobre os recursos naturais pode agravar ainda mais o cenário. De acordo com relatório da Agência Nacional de Águas (ANA), de 2025, a expansão da área cultivada de arroz no Rio Grande do Sul tem elevado significativamente a demanda por irrigação, pressionando a disponibilidade hídrica para os produtores.

Com isso, uma eventual redução da área plantada pode comprometer o abastecimento e impactar diretamente o custo dos alimentos para o consumidor.

Além das questões climáticas, a elevação dos preços de insumos adiciona uma preocupação com fertilizantes e combustíveis, associada às instabilidades geopolíticas de países exportadores, o que pode comprometer as próximas safras.“Há risco de falta de insumos e até de combustíveis suficientes para o plantio e a colheita, o que pode gerar um colapso no mercado de alimentos”, aponta o pesquisador.

O impacto deixa de ser restrito ao produtor e passa a atingir diretamente o consumidor. Dados coletados por meio de formulário feito para esta reportagem com 35 respostas indicam que 80% dos respondentes perceberam aumento nos preços de alimentos básicos recentemente. Na região de Sorocaba, onde as respostas foram registradas em cidades como Sorocaba, Votorantim, Araçoiaba da Serra, Ibiúna, Itapetininga e Piedade, a alta dos preços já se consolidou como parte do cotidiano.

O perfil dos participantes é diverso, com idades que variam entre 16 e 75 anos, o que evidencia que o impacto atinge diferentes faixas etárias e realidades sociais.

Gráfico de percepção de aumento dos alimentos básicos do formulário aplicado para a reportagem | Fonte: formulário autoral

Essa mudança altera a forma como o consumidor escolhe a qualidade dos produtos. No levantamento, 57,1% dos correspondentes alegaram que já deixaram de comprar um produto básico ou precisaram substituir uma marca pelo aumento dos preços.

Gráfico de mudança de comportamento do formulário aplicado para a reportagem | Fonte: formulário das autoras

Outras estratégias também são adotadas, como investir menos em lazer ou produtos que não são essenciais, diminuindo, assim, a qualidade de vida em prol do menor poder de consumo.

Entre as principais opiniões sobre propostas de intervenção, destacam-se termos como “diminuição dos impostos” e “políticas públicas de incentivo aos produtores”.

“Mais infraestrutura para produtores, principalmente da região, que sofrem para manter as safras e, consequentemente, distribuir alimentos para cidades próximas. Além disso, poderia ter mais práticas sociais para pessoas de baixa renda, principalmente vindas de grandes corporações que podem ajudar e fazer a diferença. Em geral, toda a política pública tem que ser responsável por se preocupar na questão da alimentação, dos preços e qualidades dos produtos oferecidos para seus habitantes, então é uma cobrança que precisa ser dirigida a políticos”, disse uma resposta anônima do formulário.

A percepção dos consumidores reforça o que acadêmicos e agricultores já apontam: a produção agrícola enfrenta limitações estruturais, instabilidade climática e acesso restrito a tecnologias, refletindo diretamente no aumento dos preços e na redução do poder de consumo da população.

Esse cenário se agrava ao se tornar cotidiano em uma sociedade marcada pela desigualdade, impactando diretamente a qualidade de vida e evidenciando a ausência de políticas eficazes em um setor essencial para a alimentação no país.

[Texto desenvolvido na disciplina jornalismo especializado, ministrada pela professora Georgia Mattos]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *