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Rota 66: o jornalismo diante da violência policial

Por Gabriéla Bandeiras (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Em Rota 66: a história da polícia que mata, Caco Barcellos transforma uma investigação jornalística sobre a atuação da ROTA, unidade da Polícia Militar de São Paulo, em uma obra que ultrapassa o relato de casos policiais. A partir da perseguição e morte de três jovens que estavam em um Fusca azul, o jornalista começa a investigar outras ocorrências e encontra padrões que revelam uma realidade muito maior de violência policial.

A narrativa é dividida em três partes: Rota 66, Os matadores e Os inocentes. Na primeira, o autor apresenta o caso que dá nome ao livro e intercala a reconstrução dos acontecimentos com episódios de sua própria trajetória como repórter. Essa alternância pode causar certo estranhamento no início, mas contribui para mostrar como suas experiências profissionais o aproximaram da investigação.

Na segunda parte, Caco Barcellos amplia a pesquisa e passa a analisar diversos casos envolvendo policiais. Com a ajuda de Sidney Rezende, ele reúne informações como nome, idade, profissão, endereço, cor da pele, local da morte e circunstâncias apresentadas para cada ocorrência. O volume de dados impressiona e mostra que a investigação exigiu muito mais do que acompanhar as versões oficiais. Foi necessário consultar documentos, jornais, testemunhas e cruzar informações para identificar padrões.

É nessa etapa que a obra ganha ainda mais força ao revelar a repetição de mortes e a presença de policiais envolvidos em diferentes ocorrências. A investigação também permite observar o perfil de muitas das vítimas, entre elas jovens pobres, negros, trabalhadores e pessoas sem antecedentes criminais. Assim, o livro não trata apenas da violência policial, mas também levanta questões relacionadas à desigualdade social e ao racismo.

Na terceira parte, Os inocentes, o foco se aproxima ainda mais das vítimas e de suas famílias. Os números apresentados anteriormente passam a ter nomes, rostos e histórias. Essa mudança é importante porque impede que as mortes sejam vistas apenas como estatísticas. Por trás de cada caso existem pessoas e familiares que buscam respostas e justiça.

Um dos pontos mais relevantes da obra é justamente o trabalho jornalístico realizado por Caco. O autor não se limita a reproduzir as versões apresentadas pelas autoridades, mas procura confrontá-las por meio de dados e investigação própria. Rota 66 mostra, na prática, a importância da apuração, da checagem e da persistência no jornalismo, especialmente quando estão envolvidas instituições de poder.

Apesar de ser uma leitura pesada, principalmente pela quantidade de mortes e pela descrição dos casos, a narrativa consegue prender a atenção. Em alguns momentos, o excesso de números e informações exige maior concentração, mas também reforça a dimensão da investigação.

Mesmo tratando de acontecimentos ocorridos décadas atrás, o livro continua provocando reflexões sobre violência policial, responsabilização, desigualdade e o papel da imprensa diante de versões oficiais. Rota 66 se destaca, portanto, não apenas como um registro de uma investigação sobre a polícia paulista, mas como um exemplo da força do jornalismo investigativo para questionar narrativas estabelecidas e dar visibilidade a histórias que poderiam permanecer esquecidas.

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