O jornalismo fictício em Ghostwatch (1992)
Na noite de Halloween de 1992, a emissora BBC, no Reino Unido, exibiu um programa especial chamado Ghostwatch. A obra consistia em uma espécie de documentário ou mesmo reportagem falsa, em que apresentadores reais, como o entrevistador Michael Parkinson e a apresentadora infantil Sarah Greene, investigavam uma casa supostamente mal-assombrada na Inglaterra.
Explicar o conceito de Ghostwatch é difícil em 2026, num mundo onde já estamos habituados a gêneros cinematográficos que utilizam elementos documentais para contar histórias fictícias, como o mockumentary e o found footage, subgênero do terror popularizado pelo filme A Bruxa de Blair. Mas é importante lembrar que A Bruxa de Blair só foi lançado em 1999. O público de 1992 era praticamente analfabeto nesse subgênero ficcional que mistura ficção e realidade. Isso fez com que o conceito do especial da BBC fosse recebido pelo público de forma, como veremos, muito dramática.
Tentemos primeiro resumir o enredo de Ghostwatch. O programa foi exibido já gravado, mas simulava uma transmissão ao vivo num estúdio com um link externo. No estúdio, Michael Parkinson, um célebre jornalista, apresentava o especial. Seria como ter alguém do calibre de Pedro Bial ou William Bonner na função, para termos uma comparação com a mídia brasileira. No estúdio, ele está acompanhado de uma especialista em fenômenos paranormais e de uma central telefônica, onde supostamente telefonistas estariam recebendo ligações ao vivo de telespectadores contando suas próprias experiências sobrenaturais. Como o programa era gravado, os telefonemas também eram fictícios, e o espectador do mundo real que tentasse ligar deveria ouvir uma mensagem gravada da BBC anunciando que Ghostwatch era uma obra de ficção. No link externo, a apresentadora Sarah Greene está numa casa supostamente mal-assombrada onde vive uma mulher com suas duas filhas crianças. Estes são os dois cenários de Ghostwatch.
O programa mescla elementos que passam credibilidade documental, como as vans e equipamentos da BBC, com elementos de decoração que tendem ao esotérico, como caveiras em cima de uma lareira no cenário de onde Michael Parkinson faz a apresentação. Um homem que é apresentado como um técnico mostra o esquema de câmeras colocados na casa. Esses detalhes ajudam a dar veracidade. Tudo no enredo de Ghostwatch leva a crer que se trata de algo verídico, inclusive com alguns clichês clássicos de programas jornalísticos e de variedades. A especialista em fenômenos paranormais responde a uma pergunta sobre a influência da data nos eventos possíveis. Ela diz que há mais relatos de assombrações no Halloween do que em qualquer outra data do ano, mas ressalta que isso pode acontecer porque é um momento em que as pessoas esperam ver coisas. Esse tipo de resposta evasiva é típico de quem quer passar credibilidade. Isso sustenta o tom verídico do próprio programa, afastando dele o sensacionalismo.
Há, porém, alguns detalhes que desmontam a ilusão. Talvez as pessoas se dessem conta de que o programa não era ao vivo pela ausência de falhas comuns em transmissões do tipo, como delays em conversas com o link externo e cortes muito precisos e bem enquadrados, deixando claro para o olhar atento que se tratava de um programa gravado e editado. Mesmo assim, a BBC se cercou de precauções. Antes da exibição do especial, houve uma mensagem avisando que o programa a seguir era uma obra de ficção, seguida do logo da BBC 1, divisão da emissora responsável por obras ficcionais ou de entretenimento. Numa comparação, seria como ter o logo da Central Globo de Produção, ao invés da Central Globo de Jornalismo. As chamadas anunciando a atração ao longo do dia também se referiam a Ghostwatch como uma obra de ficção. Além disso, havia também as já mencionadas mensagens gravadas de aviso aos que ligassem para a emissora.
Voltando ao enredo do programa, há uma reviravolta que quebra mais ainda com a linha entre ficção e realidade – e que é particularmente interessante de ser analisada em estudos sobre a mídia. Em dado momento, a central de telefonistas recebe ligações dizendo que o fantasma que assombra a casa mostrada no programa está agora assombrando também as casas dos telespectadores. Apavorados, os apresentadores se dão conta do que fizeram: ao exibir o programa, eles deram acesso ao fantasma para assombrar todas as casas do Reino Unido, e também o estúdio de gravação. O programa termina mostrando o apresentador Michael Parkinson como que possuído pela entidade.
Foi um caos. As linhas telefônicas da BBC ficaram congestionadas, e as pessoas não tiveram acesso à tal mensagem gravada e tranquilizadora. Uma mulher processou a emissora porque seu marido se sujou nas calças. Houve relatos de crianças sem conseguir dormir e de telespectadores com estresse pós-traumático. Mas o pior foi o caso de um jovem com deficiência intelectual que ouviu barulhos estranhos em sua casa durante a transmissão do programa e acabou por cometer suicídio, de tão desesperado que ficou. Ghostwatch ficou infame, e por muito anos a BBC fingiu que o programa nunca existiu.
Porém, 34 anos depois, podemos aplaudir a genialidade e o pioneirismo artístico de Ghostwatch, uma obra que brincou com gêneros e universos distintos. O especial foi uma das primeiras obras audiovisuais a utilizar a forma documental para dar uma roupagem e um senso de realidade ao terror. A bem da verdade, esse recurso já havia sido usado antes, como em O Massacre da Serra Elétrica, de 1974. Mas Ghostwatch foi muito além. Ele usou da credibilidade de uma emissora e de apresentadores consagrados interpretando a si próprios, quebrou o acordo tácito entre emissor e telespectador e, talvez o mais interessante de tudo, trouxe uma metáfora do poder da mídia: ao exibir uma história na televisão, ela “contamina” todas as casas que têm um aparelho ligado.
Porém, essa quebra de “contrato” tem um preço. Mesmo com todos os anúncios e precauções, usar formatos jornalísticos e documentais, usar jornalistas reais como personagens de ficção, isso tudo confunde o público ao nível de romper paradigmas. De certa forma, Ghostwatch já prenunciava um fenômeno que vivemos hoje, o da descredibilização de jornalistas e emissoras, além do rompimento da realidade com o surgimento da chamada “pós-verdade”.
A lição que Ghostwatch nos deixa é que a arte goza de uma liberdade da qual o jornalismo não pode se beneficiar. Nossa profissão exige os dois pés na realidade se não quisermos ser assombrados pelo descrédito da opinião pública.


