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Pluribus e a importância da arte feita por humanos

Em uma realidade onde cada vez mais a inteligência artificial domina o nosso cotidiano, uma série chama a atenção na internet por incluir em seus créditos finais a frase “Esse programa foi feito por humanos”.

Juliano Rosa (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Esse texto contém spoilers do primeiro episódio da série.

Com um início deslumbrante e impactante, Pluribus instaura um mistério constante desde sua primeira cena e traz reflexões para os seus espectadores, e, diferente de outras produções recentes, não subestima a inteligência de quem a assiste.

A nova série da AppleTV, criada e roteirizada por Vince Gilligan, responsável pelo brilhante mundo de Breaking Bad(2008) e Better Call Saul (2015), reencontra Rhea Seahorn, que brilhou como Kim Wexler no seu universo. Dessa vez como Carol, uma escritora, que apesar de possuir muitos fãs, se sente constantemente fracassada e triste. 

Quando em um belo dia, todos ao redor da escritora começam a convulsionar, inclusive a sua esposa Helen, ela se vê em um momento completamente atípico, conversando com o presidente dos EUA através do telefone enquanto o vê em um pronunciamento na TV. O político explica que todas as pessoas do mundo são uma só, graças a uma anomalia alienígena que aconteceu no planeta. Carol é apenas uma das treze pessoas de todo o globo, a permanecer com sua consciência em meio ao fenômeno. 

A obra aborda temas e reflexões importantes na contemporaneidade, como o valor da individualidade, a positividade tóxica, e a otimização da produtividade humana, mas sem pressa nenhuma de entregar as respostas para os espectadores, fato que pode afastar o interesse de muita gente. 

O grande sucesso da televisão durante seu período de transmissão, Stranger Things, da Netflix, recebeu grandes críticas devido às fragilidades na escrita do roteiro, surgindo até mesmo rumores de que os idealizadores foram obrigados a elaborar um roteiro mais expositivo, para suprir a tendência de pessoas que costumam assistir conteúdos com o celular na mão, colaborando com artigo publicado pelo veículo britânico “The Guardian”, em janeiro de 2025. 

(https://www.theguardian.com/tv-and-radio/2025/jan/17/not-second-screen-enough-is-netflix-deliberately-dumbing-down-tv-so-people-can-watch-while-scrolling)

Pluribus não é o tipo de entretenimento que esse um público adepto a essa maneira de consumir arte, se sentirá confortável. A direção de Vince Gilligan usa e abusa do silêncio e da contemplação como caminho de narrar uma história, necessitando uma atenção maior do espectador para acompanhar a trama, diferente do modelo que supostamente foi adotado pela gigante do streaming. 

Além do foco na atenção de quem a assiste, o diretor e roteirista sempre deixou claro seu posicionamento a respeito do uso de inteligência artificial em filmes e séries. Em entrevista ao veículo “Variety” em outubro de 2023, Gilligansoltou a seguinte aspa: “Não digo como em O Exterminador do Futuro, que as máquinas vão nos exterminar, mas quem quer viver num mundo em que a criatividade é dada a máquinas?”, questionou Gilligan. “Acho que [IA] é besteira. É uma máquina gigante de plágio, na sua forma atual. Acho que o ChatGPT sabe o que está escrevendo como uma torradeira sabe que está fazendo torradas. Não há inteligência – é uma maravilha do marketing.”

Pouco mais de dois anos depois, Pluribus veio para reafirmar a visão de seu criador, e para além de uma simples frase de efeito nos créditos finais, a temática da série é enfática ao retratar a perda da individualidade humana em prol de personalidades homogêneas, fenômeno que vem acontecendo gradativamente, desde a criação das redes sociais e que explodiu com a chegada das IAs ao grande público.

Afinal, quantas vezes já não batemos o olho em algum post ou vídeo nas redes sociais e detectamos na mesma hora legendas e roteiros que nitidamente foram gerados por um ChatGPT? Desde conteúdos viralizados até páginas de pessoas públicas, frases prontas e sem alma estão cada vez mais frequentes, e basta um pouco de experiência na leitura que é fácil de detectar. Quando esse movimento alcançar os grandes estúdios, como a Disney investindo US$ 1 bi na empresa OpenAI (criadora da ferramenta ChatGPT), passaremos a ter a sétima arte como um mero experimento de um algoritmo? O futuro não podemos prever, mas Pluribus reforça além de uma boa trama, um manifesto contra esse movimento global. 

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