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O jornalismo obcecado de Inventando Anna

A minissérie Inventando Anna, de 2022, é um potente retrato de algumas coisas ao mesmo tempo incômodas e intrínsecas ao “sonho americano”, como a ambição, o julgamento pelas aparências e a tendência a transformar tudo em espetáculo. Porém, para nós jornalistas, o que a série mostra, voluntária ou involuntariamente, é como o nosso ofício opera nessa sociedade tão dada ao consumo e a uma moralidade ambígua.

A minissérie conta a história da golpista Anna Sorokin, que utilizava o nome Anna Delvey. De origem russa e tendo vivido boa parte da vida na Alemanha e um período na Inglaterra, Anna mudou-se para Nova York e criou uma persona de herdeira alemã, uma milionária esnobe e fashionista que rapidamente fez amizade com a alta sociedade nova-iorquina e usou desses contatos para tentar abrir um clube cultural e artístico de elite na cidade. O ambicioso projeto precisava de vultosos empréstimos, e Anna chegou absurdamente perto de consegui-los antes de ser presa por dar calotes em hotéis caros onde se hospedava.

Porém, dizer que a protagonista da série é Anna Delvey seria um erro de julgamento. Anna é o objeto de estudo e fascínio da real protagonista da série, a jornalista Vívian Kent, personagem fictícia inspirada na jornalista real Jessica Pressler, que escreveu o perfil sobre Anna Delvey para a New York Magazine, que tornou a golpista conhecida mundialmente. É por meio dessa personagem que entramos nos dilemas éticos e também emocionais do jornalismo. Vivian Kent, poucos anos antes, cometeu um erro ético em uma reportagem, um erro que não foi só dela, mas pelo qual foi responsabilizada sozinha. Descredibilizada, Vivian se agarra à história de Anna como uma tábua de salvação, dedicando todo seu tempo e energia a investigar o caso, entrevistar pessoas ligadas a Anna, tentando entender como ela conseguiu enganar tanta gente. Os métodos de Vivian burlam a ética profissional em vários momentos: ela visita Anna na prisão sem se anunciar como jornalista, mantém relações nada profissionais com a defesa e a acusação do caso, persegue testemunhas etc. Vivian se comporta de forma desesperada, como se sua vida dependesse dessa reportagem. Para um jornalista investigativo, a bem da verdade, esse nível de dedicação, para não dizer obsessão, é algo interessante de se ter. Porém, a personagem ultrapassa limites perigosos, barreiras éticas e morais que não apenas constrangem suas fontes e colegas, mas a deixam exposta física e emocionalmente. Dessa forma, a minissérie acaba por retratar, nessa personagem, como funciona a sociedade e o imaginário estadunidenses, sobretudo o de Nova York: para sobreviver e se destacar, não há limites, e o resultado, no caso, a reportagem, compensa todas as transgressões.

Mas o que vemos não é isso. Uma vez publicada a reportagem, Vivian está tão ligada emocionalmente ao caso e à própria Anna que não consegue se desvencilhar dele. Por mais que seus chefes lhe cobrem que parta para uma nova história, Vivian segue imersa no caso Anna Delvey, se sentindo responsável pela dimensão midiática que ele tomou. De repente, Anna Delvey se torna uma diva, um ícone fashion e de comportamento, com seus looks durante o julgamento se tornando assunto de debate público, entre outras bizarrices. Quanto mais Vivian tenta “apagar o fogo”, mais vai se tornando parte dessa histeria.

Os episódios da minissérie vêm acompanhados de um aviso que diz que o que é mostrado ali é totalmente verdade, exceto as partes que foram completamente inventadas. Isso serve não só para Anna e suas mentiras, mas também para Vivian, uma jornalista que exemplifica que o jornalista não existe apenas para mostrar a realidade. Essa é uma visão ingênua, utópica. O jornalista existe para tecer narrativas a partir da realidade, porque é por meio de narrativas que compreendemos o caos que é o mundo. Isso, em si, não é mentir, mas sim ordenar os fatos numa sequência lógica, criar argumentos, tentar explicar como fenômenos como Anna Delvey surgem. Existe no jornalista algo de detetive e algo de sociólogo, e essa minissérie, mesmo que com dribles éticos, mostra isso bem.

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