O Balé que Movimenta Corações
Uma reflexão sobre a importância da dança clássica
Por Giullia Castro Della Déa e Heloísa Maria (Agência Focas – Jornalismo Uniso)
Espetáculo Purpose 2025, cena final: Casamento da Branca de Neve | Fonte: Ballet Gabriela Mangini
Em uma entrevista para a revista Variety, o renomado ator americano Timothée Chalamet, de 30 anos, fez um comentário sobre as artes clássicas, referindo-se a ópera e ao balé, que gerou grande repercussão nas redes sociais. Na entrevista, Timothée discutia ao lado de Matthew McConaughey, temas como a indústria do entretenimento, as mudanças de comportamento de consumo do público, as crises do cinema, o streaming e a capacidade de atenção nesse contexto cinematográfico. Durante a conversa, Timothée fez a seguinte comparação: “eu não quero trabalhar em ballet ou ópera, ou coisas onde você tem que dizer ‘Ei, ajude a manter isso vivo’, mesmo que ninguém mais se importe com isso […] todo o respeito ao pessoal do ballet e da ópera. Acabei de perder 14 centavos de audiência. Tomei um tiro de graça agora”. Ao final, ele imitou um canto de ópera, como forma de piada para brincar com a situação.
Apesar da entrevista ter sido realizada no dia 21 de fevereiro, foi no início de março que a fala de Chalamet voltou aos holofotes com uma alta repercussão negativa, recebendo críticas pela sua postura depreciativa sobre a ópera e o balé, classificando-os como “artes sem importância”. Além do público, instituições como The Metropolitan Opera (Nova York, EUA), Escola Bolshoi (Joinville, Santa Catarina), Dance Theatre of Harlem (Nova York, EUA), companhias internacionais e algumas casas de ópera também se manifestaram diante à situação, manifestando seu descontentamento e até utilizando do assunto para divulgar a realidade sobre a indústria artística, que se mostra muito respeitada, valorizada e importante.

Timothée Chalamet em entrevista à Variety, 2026 | Fonte: Variety
Pensando especialmente na dança clássica, esse acontecimento provoca a reflexão sobre o que tornaria o balé especial? Uma análise histórica e cultural permite observar essa arte como muito mais do que dança. O balé é altamente técnico. Exige disciplina, concentração e alongamento. Além disso, a dança é uma forma de comunicação artística que transmite emoções. Giovanna Camargo, estudante de Publicidade e Propaganda e professora de dança, fala um pouco sobre a dedicação que o balé exige. “[Uma] coisa muito importante é a questão da força. A bailarina é vista como muito delicada e a gente realmente é, a gente tem que transparecer essa delicadeza. Mas existe uma frase que machuca bastante quem é bailarino, aquela que fala: ‘aí, tá achando difícil, faz balé’.Bom, não é assim que funciona, porque o balé é uma modalidade bem difícil, que exige muita força e entendimento do seu corpo. Você precisa saber usar muito bem seu corpo para conseguir fazer os passos. Exige muito trabalho.”
A professora de balé, Anna Sophia Daquila, comenta a fala do ator, além de reforçar o próprio interesse pela dança. “Acho que eles não entendem que o balé é sim uma profissão. Inclusive, eu sou bailarina, eu sou professora de dança e isso é uma profissão. As pessoas ganham dinheiro com isso, as pessoas acham que a gente faz de boa vontade, não é de boa vontade, a gente tá ali recebendo para dançar. As pessoas pagam para assistir a gente, mas esquecem disso, né? As pessoas também dão valor à arte ao vivo, que eu acho que é ainda mais impactante. O balé representa pra mim uma paixão, um lugar que eu me sinto eu mesma e que eu posso me expressar sem palavras.”
Anna Sophia aconselha aqueles que têm o desejo de começar na dança. “Se você tem vontade, vai lá, tenta, se joga, não importa a idade, não importa se você tem três, se você tem seis, se você tem 20, 30 anos, começa. Eu sei que tem muito esse estereótipo de que você tem que começar novo para ter uma carreira. Eu inclusive comecei muito nova, mas se é a vontade do seu coração, se joga.”

Anna Sophia em sua aula de dança no EDA (Escola de Desenvolvimento Artístico) | Fonte: Arquivo pessoal
As palavras do ator, por outro lado, comprovaram outro ponto de vista sobre o balé. A mídia só voltou a tratar do assunto porque uma celebridade mainstream falou primeiro. A cultura da dança não é noticiada diariamente, como o lançamento de um filme ou uma série. Isso não significa que o balé não seja importante, mas parece que o mundo ainda não entendeu o seu valor.
A transformação da paixão pela dança em trabalho é real, a admiração torna-se sustento e impacto na vida das pessoas. Essa é a realidade da professora Gabriela Mangini Freitas, de 36 anos. Gabriela iniciou na dança aos 10 anos de idade, com altos e baixos acompanhados de muita inspiração e dedicação. Ela fundou, com ajuda de seu pai, sua própria escola, a “Ballet Gabriela Mangini”, em São Roque, em 2009. Gabriela, na época, tinha apenas 18 anos de idade, mas desde sempre seguia com convicção em seu propósito na dança. “O balé representa a minha vida e, acima de tudo, um propósito divino. Ensinar é algo que ninguém pode tirar de você. Poder realizar o sonho de outras pessoas, seja da criança que quer ser bailarina ou do adulto que está resgatando um desejo antigo, é uma realização pessoal imensa”, compartilha a professora ao falar sobre o significado da dança em sua vida. Além da técnica, a sala de aula também traz a importância do carinho e da compreensão, criando uma relação de troca, segundo a professora. “As alunas me ensinam muito sobre empatia e paciência. Só compreendemos verdadeiramente o que é ensinar quando nos colocamos no lugar de quem está aprendendo algo novo. Elas me lembram que não sou apenas uma professora; muitas vezes, elas buscam um abraço ou um acolhimento. Especialmente com as crianças, aprendo sobre a pureza e a importância de criar memórias afetivas que vão além da técnica.”
Assim como em qualquer trabalho, a profissão exige esforço, cuidado e profissionalismo, características também necessárias nos eventos envolvendo o mundo do balé. Em dezembro de 2025, a escola proporcionou o espetáculo Purpose, uma apresentação baseada no conto da Branca de Neve, contando com dançarinos de diferentes idades e modalidades. “O espetáculo é como um ‘casamento’ que preparamos durante o ano inteiro”, conta Gabriela. “Começamos o processo em janeiro para que tudo esteja pronto em dezembro. Ver o resultado final no palco é a materialização de todo o meu trabalho criativo, desde a escolha do figurino até a trilha sonora. É um momento de conexão profunda entre a equipe, os alunos e os pais.”
A professora, ao concluir, traz seu olhar profissional em relação aos preconceitos e estereótipos ainda existentes. “Há ainda um estereótipo de que o balé é algo ‘quadrado’ ou seletivo, restrito apenas às pessoas magras ou aquelas que começaram na infância. Hoje, lutamos para mostrar que o balé é para todos. Ele traz benefícios que vão muito além do palco, como disciplina, coordenação motora e socialização. A música clássica, por exemplo, tem o poder de centralizar e acalmar, algo que todos deveriam experienciar.”
O balé traz consigo algo muito além de apenas um conjunto de passos e técnica, ele carrega o sentimento e história de cada indivíduo que mergulha nesse universo, sendo capaz de revelar corações, sonhos e até moldar estilos de vida, conectando bailarinos através da melodia clássica com seu amor pela arte.
[Texto desenvolvido na disciplina de Jornalismo especializado, ministrada pela professora Georgia de Mattos]
