Resistência indígena durante a colonização contemporânea
A exposição “Terra Rasgada: memória e resistência indígena”, abre espaço para debates sobre preservação dos costumes e culturas originárias
Por Antony Moscatelli (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Líder indígena Williams Tataendy (Kara’i Tataendy) da aldeia Gwyra Pepó | Foto: Gustavo Cassillo
Ao longo dos anos, o Brasil teve o início de sua história apresentada a partir da saída das caravelas de Portugal, propagando um apagamento da memória sobre o que já acontecia aqui antes da, hoje já entendida como, invasão europeia. Essa narrativa, repetida em livros didáticos e museus, não somente ignora a existência de centenas de povos originários, mas encomenda uma versão conveniente, para muitos, do passado.
Em Sorocaba, essa versão da história está retratada na pintura “Fundação de Sorocaba”, obra de Ettore Marangoni, criada para o tricentenário da cidade em 1951. A obra mostra um grupo de indígenas em posição de subalterna ao bandeirante Baltazar Fernandes, em 1654.


Obra “Fundação de Sorocaba”, de Ettore Marangoni | Em ordem: Larissa Girardi, Cristian Miguel Brazão e Mateus Lopes Teixeira, mostrando frases ditas por indígenas ao verem a pintura | Foto: Antony Moscatelli
A professora do curso de História da Uniso, Larissa Girardi Losarda (33), museóloga, historiadora e arquiteta, explica que essa pintura “é criada para ser uma janela no tempo. Ela é criada para uma pessoa ver e falar: foi assim que aconteceu.” Os pintores seguiam um protocolo para pintar os bandeirantes, justamente para moldar essa imagem, “você não observa o bandeirante com a arma em punho, ele está parado e as armas estão penduradas. Por quê? Porque ele tem que ser bom, ele tem que ser justo.”
Enquanto para alguns, Baltazar Fernandes é tido como um herói sorocabano, com estátuas espalhadas pela cidade, para o estudante de ciências biológicas, Cristian Miguel Brazão (23), da etnia Baniwa (e para outros indígenas), essa percepção é bem diferente.
“Eu senti uma sensação estranha [ao ver a pintura] de que tinha algo errado. Era como se [ele] estivesse disciplinando os indígenas, só que a forma que foi retratada é como se fosse de uma forma boa, sem maltratar as pessoas. Eu não vi como se fosse uma informação certa. Foi a primeira vez que pensei ‘como eles representam algo assim e ainda colocam como se a pessoa fosse um herói?’” Cristian relata também que outras imagens, principalmente relacionadas à catequização o fizeram pensar sobre a própria comunidade. “Eu me lembro que, na minha infância, a gente tinha umas tradições sobre danças, apresentações, sobre rituais de passagem. Aí, com o tempo, foi sumindo. Onde eu nasci, pouco dela tem se mantido. Tanto que, vindo de mim, pouco eu sei da minha cultura. Então por que isso está sendo retratado de uma forma boa, sendo que, por causa disso, eu acabei esquecendo um pouco da minha cultura?”

Cristian Miguel Brazão | Foto: Gustavo Cassillo
Os europeus equiparavam a cultura que girava em torno da religião cristã à civilidade, e aqueles que não eram “civilizáveis” eram vistos como “selvagens” e “bárbaros”. Assim se deu início ao processo de catequização, em que os indígenas foram impedidos de exercerem sua espiritualidade e obrigados a seguir os dogmas católicos. Nesse caminho, aqueles que se negaram foram intitulados “bárbaros” e foram mortos.
No início do século XVI, a população indígena brasileira girava em torno de 5 milhões de pessoas, organizadas em mais de 2 mil povos. O órgão oficial Serviço de Proteção ao Indígena (SPI), na década de 1960, estimou que essa população tinha cerca de 100 mil pessoas.
Segundo o Censo demográfico de 2022 (IBGE), a população indígena representa 0,83% da população do Brasil, o que ainda sim representa um aumento significativo de 76,6% em relação ao censo de 2010.
O líder Guarani-Mbyá, Williams Tataendy (Kara’i Tataendy), da aldeia Gwyra Pepó, em Tapiraí, conta que “quando houve esses conflitos, o próprio colonizador falava ‘o pajé é um feiticeiro, então isso que está fazendo mal para a sua aldeia’, algumas etnias foram exterminadas por causa disso, porque o próprio colonizador jogava indígenas contra os indígenas.”
Kuhupi Waurá (29), da etnia Waurá, entende “o apagamento de crenças como uma forma de apagar as memórias, a cultura e tudo mais”. Considerando que a espiritualidade é intrínseca à vida e ao modo como os indígenas se relacionam com ela, a catequização foi o primeiro passo para o apagamento das identidades dos povos originários do Brasil.

Kuhupi Waura | Foto: Gustavo Cassillo
Segundo Williams Tataendy, a espiritualidade se dá por uma conexão interior com o mundo e os seres encantados, que habitam o cotidiano dos povos originários. Diferente da visão eurocêntrica de religião, baseada na busca em se conectar com um Deus, os povos já são ligados individual e coletivamente com a ancestralidade, que habita e orienta suas vidas.
Esse epistemicídio, que Larissa Girardi explica como “processo que se relaciona com impor determinadas culturas, religiões, etc., e que se dá em um apagamento intencional”, resulta em uma grande parcela de brasileiros, os não-indígenas, que não conhece a história própria do Brasil, como diz Williams Tataendy.
E as histórias e memórias que sobreviveram, acabam se tornando meramente “estórias” para essa grande parcela de brasileiros, incorporadas a fantasias e alegorias de quem não sabe como conduzir essas histórias, até o momento em que elas se perdem de seu próprio significado, como Cristian exemplifica: “Na criação do mundo, existia o ser chamado Ñaporikoli, que criou as pessoas, os clãs, etnias e tudo mais, assim como nas demais crenças. Só que a nossa foi reduzida a ficção, e ela fica ridicularizada, você deixa de crer naquilo e deixa de contar a história por causa disso.”
Larissa ainda traz a preocupação de que, colocando essas memórias na categoria de ficção, essas culturas sejam vistas como algo “do passado, como se esses povos estivessem apenas no passado.”
Não somente no campo das narrativas, mas muito da materialidade indígena também é colocada no passado. “As produções, inclusive historiográficas locais, reforçam que ‘os indígenas viviam aqui’, ‘os povos que habitavam Sorocaba’… só que a gente entende que isso não está no passado. Por que a gente coloca na exposição “Terras rasgadas, memória e resistência indígena”? Porque as pessoas estão aqui. Resistindo desde que o período chamado de colonização foi iniciado, mas a despeito disso, para as pessoas indígenas essa colonização não acabou. Isso é um processo de colonização contemporânea. Querem botar no passado como se fosse algo resolvido, mas quem está vivendo isso cotidianamente entende que não acabou.”
Williams conta que sua filha estuda fora da aldeia, “ela veio e falou assim: ‘eu me sinto confusa, porque a gente estudou história hoje, mas as histórias não falam da gente que vive no Brasil’. A gente tem mais de 300 povos indígenas totalmente diferentes. Eu sou Guarani-Mbyá, se eu falar que conheço toda a etnia Guarani-Nhandewa, eu vou estar mentindo. Os livros falam do indígena, mas de qual?”
A exposição “Terra Rasgada: memória e resistência indígena”, que esteve na Uniso de 13 a 17 de abril, se propôs a abrir espaço para o olhar contemporâneo da arqueologia, que estuda o hoje. Além da exposição montada na biblioteca Aluísio de Almeida, na Uniso, a programação da semana incluiu apresentações e debates com convidados externos. A partir do incômodo gerado na primeira visita ao Museu Histórico Sorocabano, a curadoria do acervo foi feita a partir da materialidade indígena trazida pelos integrantes do Centro de Convivência Indígena (CCI), da UFSCar Sorocaba. A exposição teve como objetivo maior ressoar a necessidade de afirmar Sorocaba enquanto uma terra indígena.
“Sorocaba é uma cidade que tem vários sítios arqueológicos e a gente pouco fala sobre isso. Então, se a gente fosse analisar a nossa cidade enquanto documento histórico, a própria cidade de Sorocaba mostraria como se deu esse processo”, conta Larissa.
“Muito se fala, em história, sobre fontes escritas. Mas a gente sabe que a maior parte dos grupos humanos não se utilizavam de fontes escritas. Então a memória era a parte principal da história deles”, explica o historiador e mestre em arqueologia Mateus Lopes Teixeira (30) sobre o reconhecimento de documentos históricos. “Hoje, um guarani, como o Líder Williams, sabe fazer a roça do mesmo jeito que os ancestrais dele faziam há 2.500 anos atrás. Esse é o peso da memória ancestral, ninguém escreveu isso para ele.”
Na aldeia Gwyra Pepó, a ancestralidade e a história são os pilares que mantém a cultura forte. “Os jovens falam assim: ‘Por que você é forte hoje?’ Porque a gente está sendo guiado pelos nossos ancestrais, que estão aqui com a gente. Isso é espiritualidade. A gente está sempre no dia a dia conversando com eles para eles sentirem como é importante eles também se fortalecerem, para que a nossa cultura continue sendo realidade”, conta Williams. “Eu sempre falo que eu tenho orgulho de ser guarani. Eu sou guarani, eu sempre vou ser guarani. Na próxima reencarnação eu quero ser de novo guarani. E é isso que a gente passa para os nossos jovens. Isso nos fortalece e fortalece eles também.”
Entretanto, além da luta pela preservação da espiritualidade e modo de vida, os povos originários também estão ligados à luta pela preservação do território e do meio ambiente.
Em 2024, no Brasil, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI)(1) registrou 230 ocorrências envolvendo garimpo, madeireiros e grileiros e 154 casos de conflitos relacionados a direitos territoriais em 114 terras indígenas, além de 48 terras indígenas que registraram incêndios ou queimadas provocadas pela expansão de atividades ilegais. Segundo a ONU, mesmo representando apenas 6% da população mundial, os povos originários protegem cerca de 80% da fauna e da flora em todo o globo.
“A relação que as populações têm com a floresta é muito diferente de nós ocidentais. Cada vez mais no nosso mundo atual a gente entende que o território não sobrevive sem as suas populações originárias, infelizmente, o homem branco demonstrou que ele não é capaz”, pondera Mateus Teixeira.
Essa perseguição e marginalização dos povos indígenas, não só na luta pelo meio ambiente, mas por representatividade em cargos que possam ajudar de fato, estimulam jovens indígenas, como conta Williams. “A gente incentiva os nossos jovens a fazer uma universidade, para que possam ter mais indígenas capacitados para nos representar e representar os nossos territórios.”
A luta contra o preconceito é plural, como mencionou Larissa durante as apresentações da programação da exposição Terra Rasgada, “o racismo é um problema criado pelos brancos”. Por isso, nosso papel enquanto sociedade é ajudar a instrumentalizar e ampliar a voz dessas pessoas, para que possamos alcançar a democracia.
(1) Para saber mais, acesse o “Relatório: Dados de 2024 – Violência contra os povos indígenas no Brasil”: https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2025/07/relatorio-violencia-povos-indigenas-2024-cimi.pdf
