ColunaJornalismo em Obras

O jornalismo ignorante de O Mundo por Philomena Cunk (2022)

A série O Mundo por Philomena Cunk, de 2022, pertence ao gênero “mockumentary”, ou seja, um documentário “falso”. Nesse caso, trata-se de uma sátira dos documentários históricos sisudos e superficiais feitos pela mídia britânica. Na série, a atriz Diane Morgan interpreta Philomena Cunk, uma jornalista que está sempre de sobretudo xadrez, tem olhar contemplativo e faz perguntas propositalmente estúpidas, quando não absurdas. Ela entrevista intelectuais reais e sérios e os deixa estupefatos com perguntas sem sentido, num humor de constrangimento. Mas o que se revela nas perguntas de Philomena Cunk é interessante de ser analisado por nós jornalistas.

O entrevistador é um curioso, tem suas próprias dúvidas, suas inquietações sinceras; mas ele é também um narrador, alguém que tece uma narrativa em forma de perguntas, uma narrativa que o bom entrevistador sabe conduzir sem induzir, desviar sem se perder. A entrevista é uma narrativa construída em forma de diálogo. Em entrevista à jornalista Marília Gabriela, a apresentadora Ana Maria Braga disse certa vez que em muitas ocasiões ela fingia não ter um conhecimento que de fato tinha para poder fazer uma pergunta para o entrevistado. Isso é comum na vida de quem entrevista. Precisamos ser também advogados do público, não podendo pressupor um conhecimento específico por parte da audiência.

A personagem Philomena Cunk, no alto de sua ignorância, com preparo precário dos temas de suas entrevistas, acaba por ter raciocínios peculiares, questionamentos tão absurdos, ligando temas aparentemente díspares, que resultam em perguntas interessantes, questões que, em seu anacronismo, revelam inquietações humanas reais, sobretudo daqueles que não dominam conhecimentos específicos sobre história. É uma sátira que revela sentimentos verdadeiros, angústias plausíveis, perguntas como “Por que os seres humanos fazem guerra?” ou “Por que religiões que pregam a paz são intolerantes?”. No fim, todo o absurdo revela a profunda melancolia do mundo real. Vale ressaltar que a série estreou em 2022 e foi produzida durante a pandemia de COVID-19, e essa pandemia não só é mencionada na série como lhe confere o ar de desalento e medo apocalíptico que aqueles anos tiveram.

Que reflexões isso pode trazer para nós jornalistas? Bem, talvez de que o ato de entrevistar requer uma dose de conhecimento, mas talvez uma dose de ignorância, ainda que uma ignorância “fingida”. É necessário ser porta-voz e guia do público, pensar um pouco com a cabeça de quem vai assistir ou ler as entrevistas. Um bom entrevistador é um equilibrista entre a ignorância e o conhecimento, entre si e entre o público.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *