Até onde vai a empatia com a saúde mental?
Campanhas de conscientização reforçam a importância do cuidado psicológico, mas nem todos os transtornos recebem o mesmo acolhimento social.
Por Beatriz Viana (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Imagem de divulgação
Falar sobre saúde mental nunca foi tão comum. Basta abrir qualquer rede social para ser inundado por frases sobre autocuidado, lembretes de terapia e discursos sobre empatia que parecem estar em todo lugar, das campanhas publicitárias aos murais das empresas. Agora em maio, os Estados Unidos celebram o Mental Health Awareness Month, uma iniciativa que já completa 77 anos. Mas, olhando de perto, fica a dúvida: estamos mesmo avançando ou estamos apenas selecionando quais dores merecem nossa atenção?
A verdade é que, apesar de todo o progresso, existe um “filtro” na aceitação social. Transtornos como ansiedade e burnout foram abraçados pelo debate público, especialmente após a pandemia. Mas quando falamos de diagnósticos mais complexos e estigmatizados, como o Transtorno Bipolar ou o Borderline, o acolhimento muitas vezes dá lugar ao afastamento. Onde termina a frase motivacional e começa o medo?
O National Institute of Mental Health aponta que o tabu sobre esses transtornos ainda é a maior barreira para quem precisa de ajuda. E os números no Brasil reforçam a gravidade da situação: em 2025, o Ministério da Previdência registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais. É um recorde que esconde uma realidade cruel: muitos desses pacientes relatam que a empatia acaba quando os sintomas deixam de ser “aceitáveis”.
É fácil ter empatia com quem está cansado ou triste; o desafio é manter o apoio diante de oscilações intensas de humor, da impulsividade ou de crises emocionais que fogem ao controle. Em fóruns e redes sociais, o relato é quase sempre o mesmo: o medo de ser reduzido a um diagnóstico. E o preconceito mais doloroso costuma acontecer dentro de casa.
Para muitos, a própria família se torna um tribunal. Sintomas psicológicos reais são lidos como agressividade, exagero ou até manipulação. Existe uma dificuldade imensa em separar a pessoa do transtorno, o que faz com que muitos escolham o silêncio. Por medo de serem vistos como “loucos” ou “perigosos”, eles escondem o que sentem, evitam pedir ajuda e se isolam em um ciclo de culpa e desumanização. Especialistas alertam que esse julgamento adia a busca por tratamento profissional. Muita gente hesita em procurar ajuda simplesmente por medo do que os outros vão pensar.
O debate sobre saúde mental avançou, sim, mas ele não pode se limitar a discursos confortáveis. Conscientizar de verdade exige presença nos momentos difíceis, inclusive quando os sintomas são incompreensíveis para quem olha de fora. Mais do que repetir palavras bonitas sobre acolhimento, precisamos encarar a pergunta que campanhas como o Mental Health Awareness Month nos propõem: até onde vai a nossa empatia quando o outro deixa de ser fácil de lidar?
