Figurinista ajuda a manter viva a tradição do espetáculo Teatro das Monções em Porto Feliz
Rosemeire dos Reis fez da costura uma forma de sustentar a família e hoje ajuda na criação de personagens que dão vida aos palcos da cidade
Por Larissa Tirabassi, Marizete Resende, Mateus Teixeira e Ítalo Gabriel

Rosemeire começou a costurar aos 30 anos de idade | Crédito: Arquivo Pessoal
Às margens do rio Tietê, no Parque das Monções, atores entram em cena, refletores se acendem e histórias ganham vida diante do público. Mas antes que qualquer personagem apareça no palco, existe alguém trabalhando silenciosamente nos bastidores. Entre tecidos espalhados, linhas, agulhas e ajustes de última hora, a figurinista Rosemeire dos Reis, de 60 anos, transforma ideias em personagens e ajuda a manter viva uma das tradições culturais mais marcantes de Porto Feliz.
Há mais de cinco anos, Rosemeire participa das produções teatrais da cidade e se tornou uma das responsáveis pela criação dos figurinos que ajudam a construir a identidade visual dos espetáculos. Seu trabalho está presente especialmente no Espetáculo Teatro das Monções, tradição de mais de 71 anos que reúne cerca de três mil espectadores, além de outras produções culturais do município.
Mas a história de Rosemeire começou muito distante dos figurinos elaborados e das apresentações teatrais. Antes dos palcos, a costura surgiu por necessidade. Para conseguir dinheiro e ajudar a pagar a van escolar dos filhos, ela começou confeccionando pequenas roupas de boneca. O trabalho exigia dedicação diária e ocupava grande parte do seu tempo.
Os filhos cresceram acompanhando essa rotina. Viram a mãe acordar cedo, dormir tarde e passar horas costurando para garantir uma renda extra para a família. Hoje, sentem orgulho da trajetória construída por ela e fazem questão de prestigiar os espetáculos que recebem seus figurinos, além de continuarem apoiando seus estudos, projetos e sonhos.
A filha Karen Adriele, de 36 anos, gerente de hotelaria, afirma que sente orgulho ao observar a dedicação da mãe em cada projeto desenvolvido.
“Tenho muito orgulho em ver o cuidado, o carinho e a dedicação que ela coloca em cada peruca que faz para doação. Acho lindo como ela transforma isso em acolhimento para pessoas que estão passando por momentos difíceis. Os figurinos também são maravilhosos, porque através deles ela consegue contar histórias e transmitir emoção. Ver tudo o que ela faz me inspira muito”, diz.
O que começou como uma necessidade acabou se transformando em profissão. Aos poucos, Rosemeire foi estudando, aprendendo novas técnicas e ampliando conhecimentos. Fez cursos, desenvolveu habilidades em modelagem, passou a criar roupas teatrais e também aprendeu a confeccionar perucas.
“Me sinto realizada, feliz da vida. Graças a Deus. O que começou com roupinhas de boneca acabou se transformando em uma profissão e em parte da minha vida”, afirma.
A habilidade com as perucas ganhou um significado ainda maior. Atualmente, Rosemeire produz peças destinadas à ONG Anjos das Perucas, responsável por atender pessoas em tratamento contra o câncer que precisam desse suporte e não possuem condições financeiras para adquirir uma. “Tenho muito orgulho de pode ajudar”, diz.
Além do trabalho desenvolvido no Espetáculo Teatro das Monções, Rosemeire também atua junto a grupos teatrais da cidade, como o Saindo do Conto, colaborando com a criação de figurinos para diferentes produções.

Figurinos criados para o espetáculo “O Rapto da Emília” do grupo Saindo do Conto | Crédito: Thaís Giovanna
Para Rosemeire, criar um figurino vai muito além de escolher tecidos ou desenhar roupas. Antes de começar a produzir qualquer peça, ela procura conhecer o personagem e também quem irá interpretá-lo. Para isso, acompanha ensaios, lê textos e observa detalhes que podem influenciar diretamente na construção visual.
Ela explica que gosta de entender como o personagem anda, como se comporta e como a pessoa se movimenta no palco. Alguns atores possuem movimentos mais intensos, outros se movimentam menos, e isso interfere diretamente no processo criativo. Para ela, cada detalhe faz diferença, porque o figurino precisa acompanhar a personalidade do personagem e também oferecer conforto para quem estará em cena.
Com o passar dos anos, os desafios também cresceram. O que antes eram peças mais simples deu espaço para figurinos mais elaborados. Entre os trabalhos produzidos estão túnicas religiosas, roupas históricas e personagens mais complexos. No Espetáculo Teatro das Monções, ela precisou criar desde vestimentas simples para personagens plebeus até roupas com diversas camadas, tecidos e detalhes para representar personagens ricos.
Entre tantos trabalhos realizados, alguns personagens ocupam um lugar especial em sua memória. “A fada foi marcante porque era minha filha, e Jesus Cristo, porque foi lindo ver o espetáculo e como tudo foi feito”, relembra.

Figurino confeccionado para o espetáculo teatral “O Sequestro do Papai Noel” do Grupo Saindo do Conto | Crédito: Arquivo Pessoal
Para Rosemeire, o momento mais especial acontece quando as roupas deixam de ser apenas tecidos e passam a ganhar vida no palco. “Me sinto muito orgulhosa quando vejo alguém entrando no palco com algo que foi criado por mim. Gosto muito do que faço”, conta.
Mesmo após anos de experiência, ela acredita que ainda há muito a aprender. Aos 60 anos, continua estudando, buscando novos desafios e iniciando novos projetos. No ano passado concluiu o Ensino Médio e agora se prepara para compartilhar o que aprendeu ao longo da vida. “Quero aprender muito mais. Agora vou começar a dar aulas. Terminei meu ensino médio no ano passado e vou ensinar outras pessoas a costurarem perucas”, afirma.
Enquanto o público acompanha atores e cenas iluminadas no palco, poucos percebem o trabalho que acontece longe dos refletores. Quando as luzes se apagam e os figurinos retornam aos cabides, permanece algo que vai além do espetáculo: a história de uma mulher que começou costurando roupas de boneca para sustentar os filhos e hoje costura personagens, memórias e parte da cultura de Porto Feliz — além de usar seu trabalho para acolher e transformar a vida de outras pessoas.
