Rachel Loh: a engenheira que abriu caminho para as mulheres no automobilismo brasileiro
Primeira engenheira de motorsport do Brasil e única mulher na engenharia da Stock Car, Rachel Loh transformou desafios em conquistas e hoje trabalha para ampliar o espaço feminino no esporte por meio da Comissão Feminina de Automobilismo
Por Yasmin Campos (Agência Focas – Jornalismo Uniso)
Quando Rachel Loh, de 45 anos, entrou na faculdade de Engenharia Mecânica, jamais imaginou que encontraria ali o caminho para viver do automobilismo. O que começou como um projeto universitário se transformou em uma carreira pioneira, marcada por conquistas, desafios impostos pelo preconceito e pelo compromisso em abrir portas para outras mulheres.
Foi durante a graduação em Engenharia Mecânica que Rachel descobriu o automobilismo. Apesar de não ter se identificado inicialmente com o curso, a participação em um projeto de extensão universitária mudou completamente sua trajetória. A experiência despertou uma paixão que definiria toda a sua carreira.
Antes mesmo de concluir a graduação, Rachel já sabia que queria dedicar sua vida ao esporte a motor. Desde que se formou, nunca trabalhou em outra área.
Ao longo da carreira, precisou enfrentar um ambiente predominantemente masculino. Segundo ela, a necessidade de provar competência começou ainda dentro da universidade, onde ouviu de professores que aquele não era lugar para mulheres.
Embora afirme que o preconceito no ambiente profissional nem sempre seja explícito, Rachel explica que a cobrança sobre as mulheres continua sendo muito maior. “Você aprende desde a faculdade que precisa ser três vezes melhor para ser aceita.”
Um episódio marcante aconteceu logo no início da carreira. Rachel conta que foi escolhida para participar de um projeto como piloto de testes porque pesava cerca de 20 quilos a menos que os homens da equipe. Na época, a diferença de peso era determinante para os testes e acabou se tornando a oportunidade que abriu uma importante porta em sua trajetória no automobilismo.
O talento e a dedicação fizeram Rachel alcançar outro feito histórico: tornar-se a primeira engenheira de motorsport do Brasil. Atualmente, ela também é a única mulher na engenharia da Stock Car, cenário que, segundo ela, demonstra que ainda existe um longo caminho para alcançar maior igualdade dentro das categorias nacionais. Hoje, Rachel atua como engenheira de competição da AMattheis Motorsport, uma das principais equipes da Stock Car, além de ser engenheira da piloto Bia Figueiredo na Copa Truck.

Ação Girls Like Racing durante Etapa de Interlagos na Stock Car (Rachel é a de amarelo) | Foto: redes sociais Stock Car
Um dos momentos mais marcantes da carreira aconteceu justamente na chegada à equipe. Após assumir uma função de maior responsabilidade, substituindo um experiente engenheiro, Rachel viu o trabalho ser questionado por parte do paddock – o termo remete à equipe de pista.
Na primeira etapa da temporada, a equipe conquistou uma dobradinha. Como reconhecimento, o chefe da equipe, Andreas Mattheis, pediu que Rachel subisse ao pódio para representar a AMattheis Motorsport e mostrar que a decisão de contratá-la havia sido adequada.
Mais do que ocupar um espaço técnico, Rachel acredita que a representatividade possui um papel essencial na transformação do automobilismo. Para ela, meninas precisam crescer vendo mulheres ocupando cargos de liderança, na engenharia e em outras funções tradicionalmente dominadas por homens. Segundo Rachel, isso contribui para que novas gerações entendam que também pertencem a esses espaços.
Apesar dos avanços, ela acredita que ainda é preciso mudar a mentalidade da sociedade e incentivar as mulheres a acreditarem que são capazes de conquistar esses ambientes.
“A competência não tem gênero.” Essa missão ganhou ainda mais força quando Rachel passou a integrar a Comissão Feminina de Automobilismo da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA).
Segundo ela, aceitar o convite para fazer parte da comissão foi uma das decisões mais importantes da sua vida. O grupo trabalha para criar políticas, fortalecer a presença feminina e construir um ambiente mais respeitoso dentro do esporte.
Para a engenheira, esse talvez seja seu maior legado: deixar um esporte mais inclusivo para as próximas gerações, onde meninas possam ingressar no automobilismo sem enfrentar as mesmas barreiras que marcaram o início da sua trajetória.
Ao falar diretamente com jovens que sonham em seguir carreira na engenharia ou no esporte a motor, Rachel deixa um conselho simples, mas carregado de experiência.
Ela incentiva que ninguém permita que outras pessoas determinem seus limites, lembra que fracassos fazem parte do processo e reforça que trabalhar no automobilismo exige dedicação, renúncias e muito autoconhecimento.
Mas, acima de tudo, ela faz questão de deixar uma mensagem que resume toda a sua história: correr atrás dos próprios sonhos e nunca deixar que alguém diga o que uma mulher pode ou não pode conquistar.

