O jornalismo que aproxima em Hiroshima, de John Hersey (1946)
No posfácio da edição brasileira de Hiroshima, o autor Matinas Suzuki Jr. escreve que a obra é “uma espécie de Cidadão Kane do jornalismo”. A referência é ao filme de 1941 considerado como o melhor filme de todos os tempos, e um dos mais inovadores. A reportagem “Hiroshima”, do autor estadunidense John Hersey, foi publicada pela primeira vez em 1946 pela revista The New Yorker, uma das mais prestigiadas revistas do mundo, em uma edição especial, que foi dedicada exclusivamente ao extenso material escrito por Hersey em seu período de pouco menos de um mês em Hiroshima, onde focou seu trabalho no relato da experiência de seis moradores da cidade que sobreviveram à bomba atômica detonada pelos estadunidenses em 6 de agosto de 1946, que levou à morte de pelo menos 100 mil pessoas e deixou centenas de milhares feridas ou adoecidas.
Suzuki Jr. faz uma contextualização histórica da mentalidade estadunidense sobre a bomba atômica à época da publicação da reportagem. Em 1946, o espírito era de vitória, e considerava-se a bomba atômica um avanço científico necessário para o estabelecimento da paz. Pouco se sabia, por parte do grande público, sobre o que de fato aconteceu em Hiroshima e Nagasaki, e não havia proximidade entre o estadunidense médio e o japonês médio vítima das bombas. Isso se devia não apenas ao sentimento de sair do lado vitorioso na Segunda Guerra Mundial, mas também de um controle de informação ditado pelo governo dos Estados Unidos sobre o tema. Foi nesse contexto que a reportagem de Hersey foi publicada.
Quarenta anos depois, Hersey voltou a Hiroshima e reencontrou os personagens que serviram seus relatos à reportagem, e a forma como suas vidas seguiram afetadas pela bomba ressoa nessa nova reportagem, anexada à original em publicações subsequentes.
Pode-se elencar vários méritos na reportagem, que demonstram o talento do autor para o ofício do jornalista. Um deles é a escolha contar a história pela perspectiva dos personagens. John Hersey pouco fala sobre dados, sobre conceitos científicos. Ele entende que o que mobiliza o ser humano é a história de outro ser humano. Por isso, o autor conta a experiência de seis pessoas que estavam em Hiroshima no dia da detonação da bomba e sobreviveram. É por meio desses relatos que ele conduz sua narrativa. Havia um distanciamento geográfico e cultural em relação ao público dos Estados Unidos e os japoneses, aliados a um sentimento de animosidade advindo da guerra. Por isso, a escolha de Hersey de contar a história de cidadãos comuns aproxima o personagem do leitor.
Os personagens escolhidos por Hersey são:
Kiyoshi Tatimoto, um pastor metodista japonês que viveu nos Estados Unidos;
Hatsuyo Nakamura, uma costureira e dona de casa;
Masakazu Fujii, um médico dono de um hospital particular;
Wilhelm Kleinsorge, um padre jesuíta alemão que vivia em Hiroshima;
Terufumi Sasaki, um médico cirurgião recém-formado;
Toshiko Sasaki, uma funcionária administrativa e escriturária.
A escolha, dentre todos os sobreviventes, desses seis personagens, é particularmente feliz para um retrato humano do desastre, pois se tem, com esse recorte, um panorama da sociedade japonesa antes da bomba, e também uma narrativa de como diferentes estratos da sociedade lidaram com o ocorrido. Por exemplo, o ponto de vista de um padre alemão, um estrangeiro, porém de um país aliado do Japão na guerra, e cuja missão religiosa é fundamental para sua atuação nos acontecimentos que se seguem à detonação da bomba. Outro exemplo interessante é o preconceito que o Sr. Tatimoto sofre por ser cristão e considerado anti-japonês por ter conexões com os EUA, rivais do Japão na guerra.
Os pontos de vista de dois médicos diametralmente diferentes é igualmente interessante. Enquanto o rico e egoísta Dr. Fujii se recolhe em dores e pouco tempo depois da bomba se muda da cidade, o recém-formado Dr. Sasaki trabalha incansavelmente ajudando os feridos. Os pontos de vista de uma dona de casa e mãe de família e de uma jovem solteira cujo noivo simplesmente desaparece depois da bomba enriquecem o livro com a perspectiva feminina sobre a guerra e a barbárie, onde mulheres e crianças saem prejudicadas de formas particulares, principalmente por conta do abandono.
Outro ponto de destaque no livro é a forma como elementos mais comuns à literatura são usados para compor a reportagem. O estilo de John Hersey é direto, não explicita a opinião do autor e deixa o relato falar por si. Porém, é possível perceber a sutileza de sua escrita no uso de alguns recursos literários. Um deles é a ironia. Um exemplo é a sobreposição de dois parágrafos contando a história do Dr. Sasaki:
“Todas as manhãs reunia-se com sua equipe e pronunciava seu sermão predileto: não trabalhar só por dinheiro; cumprir em primeiro lugar as obrigações para com o paciente e deixar o dinheiro em segundo plano […]
O Dr. Sasaki via seu capital crescer mais e mais.”
Segue-se então um relato sobre o enriquecimento do médico, que viveu expandindo seus negócios na medicina e vivendo cercado de luxo, contando com abatimentos do governo nos seu imposto de renda, oferecidos para médicos no Japão.
Há também recursos literários na maneira como a barbárie é descrita. Certas passagens se utilizam do grotesco para dar a ênfase requerida para o massacre ali cometido. Algumas passagens lembram o Inferno de Dante Alighieri e os poemas de William Blake sobre o inferno, como este trecho da experiência do padre Kleinsorge:
“[…] deparou com uns vinte homens, todos no mesmo estado horripilante: o rosto inteiramente queimado, as órbitas vazias, as faces marcadas pelo líquido que escorrera das córneas derretidas […] Sua boca se reduzira a uma chaga intumescida e coberta de pus, e eles não podiam juntar os lábios para receber o bico da chaleira.”
O autor explora também uma outra competência muito importante do jornalista que vai cobrir eventos em terras estrangeiras: a etnografia. Por mais que o trabalho de Hersey seja o de aproximar o leitor da realidade das vítimas da bomba, o autor também faz um trabalho em pontuar as diferenças culturais dos japoneses, num esforço etnográfico de mostrar a mentalidade de um povo frente a eventos dessa magnitude. Isso fica presente na abnegação de boa parte dos personagens, e também na sua resiliência como um traço cultural. O autor chega a usar o termo “atávico” para descrever tais comportamentos, dentre os quais pode-se destacar a grande importância dada aos ritos funerários e a enorme devoção ao imperador, símbolo da unidade de um povo.
Pode-se dizer que a reportagem de John Hersey, bem como seu desdobramento publicado décadas depois, são importantes para o jornalismo literário por usarem recursos científicos e literários para contar sua história, e por entender que o jornalismo trata, antes de tudo, de pessoas. A contribuição da obra para o jornalismo é imensa e em múltiplos aspectos, pois pode-se encontrar nela o uso brilhante de várias competências muito caras ao nosso ofício. A reportagem representa o ápice de onde o jornalismo pode chegar em termos de excelência e relevância, e por isso é um trabalho muito inspirador, em especial para quem está começando na profissão.


