O extraordinário no ordinário através do jornalismo de Eliane Brum
Por Lindsey Cardoso (Agência Focas – Jornalismo Uniso)
As grandes mídias geralmente dão prioridade a figuras de autoridade, dados e informações oficiais. No livro “O olho da rua: uma repórter em busca da literatura da vida real”, Eliane Brum volta seu foco para indivíduos que raramente ganham destaque nas reportagens. Lançado originalmente em 2008, este volume reúne dez reportagens extensas e não apenas conta as histórias, mas também revela os bastidores de cada investigação, incluindo as descobertas, os obstáculos, as decisões e os dilemas enfrentados.
A obra aborda assuntos cruciais e delicados do Brasil, como a pobreza extrema, o abandono e a solidão na terceira idade, o isolamento geográfico na Amazônia e a proximidade da morte, trazendo à tona pessoas historicamente marginalizadas e tratadas como invisíveis. A mente por trás desse retrato humano é Eliane Brum, uma jornalista, escritora e documentarista gaúcha, cuja carreira é definida pela busca de narrativas que geralmente ficam à margem das notícias. Ela atuou como repórter especial na revista Época e como colunista da revista espanhola El País. Em “A vida que ninguém vê” (2006), premiado com o Jabuti de Reportagem em 2007, essa característica já se manifestava ao transformar cidadãos comuns em personagens centrais de histórias que poderiam ter passado despercebidas. A própria autora se descreve como uma “escutadeira”, um termo que ajuda a entender sua abordagem jornalística e que também está presente em “O olho da rua”.
Sob o aspecto técnico, o livro exibe elementos notáveis do jornalismo literário, como a criação de cenas vívidas, a detalhada descrição dos cenários, a profundidade dada aos personagens e a imersão da repórter. As fotografias também enriquecem a narrativa, indo além de meras ilustrações. Outro ponto distintivo é a inclusão dos bastidores, demonstrando que o processo de reportagem envolve incertezas, equívocos e escolhas. Entretanto, em certos trechos, a intensidade dos relatos e detalhamentos podem tornar a leitura mais densa, demandando um ritmo mais pausado ao leitor casual.
Em resumo, o livro parece uma experiência sobre aprender a olhar. A jornalista mostra que fazer jornalismo não significa apenas encontrar informações, mas estar disposto a escutar e compreender quem está por trás dela. Mesmo sendo densa em alguns momentos, “O olho da rua” se destaca por aproximar jornalismo e literatura sem abandonar a realidade, além de propor ao leitor enxergar pessoas e situações que muitas vezes são varridas para debaixo do tapete.

