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O Professor Carnaval!

Para os intolerantes, reforço o que falo há muito tempo: carnaval é cultura, é aula de história, é exaltação das nossas religiões de matriz africana, é ambiente de luta do povo preto e periférico, é onde os excluídos podem ter horas de alegria, além de ser a engrenagem que gira a economia desde o ambulante ao turista.

Estar em uma noite no Sambódromo do Anhembi pelo segundo ano consecutivo é algo que me orgulha grandemente. Geralmente, após o mês de novembro, já começo a prestar atenção nos burburinhos que rolam sobre os enredos, mas por conta da correria de fim de semestre, consigo me inteirar melhor no mês de janeiro.

Mês em que faço algo que já está virando um ritual: ouvir todos os sambas-enredos e selecionar aqueles que mais me atraem. Depois, analisar a letra de um por um, tanto para decorar quanto para entender a ideia que irá para a avenida.

Nunca escondi que por conta do meu time do coração sou Gaviões da Fiel, mas como bom sambista, jamais serei clubista. E isso ficará perceptível no decorrer deste texto.

Fiquei muito feliz por minha escola do coração trazer pela primeira vez a temática africana em seu enredo de 2025, ano em que o seu samba-enredo mais famoso (O Que É Bom É Para Sempre) completa 30 carnavais. Duvido que você nunca tenha ouvido/cantado aquele pedacinho: “Me dê a mão, me abraça / Viaja comigo pro céu / Sou gavião, levanto a taça / Com muito orgulho, pra delírio da fiel”.

Irin Ajó Emi Ojisé – A Viagem do Espírito Mensageiro foi o tema da Gaviões, que contou a história das máscaras utilizadas em rituais africanos. A escola, que em sua entrada sempre levanta o sambódromo transformando-o em uma arquibancada de futebol, fez um belo desfile terminando em 3ª lugar na classificação final, uma posição melhor em relação a 2024 quando ficou em 4º. “Sou a revolta que não teme a demanda / Liberdade em Aruanda é palavra deferida”, reforçou seu samba-enredo.

Outra escola que eu não tinha muita proximidade, mas me encantou com a força de seu samba-enredo, muito comentado na mídia, foi a Barroca Zona Sul, com a canção intitulada Os Nove Oruns de Iansã. Falando sobre a orixá dos ventos e trovoadas e que segundo a crença das religiões de matriz africana é a regente de 2025, o samba-enredo da escola possuía uma melodia empolgante e uma letra bem ritmada que deixou uma excelente reflexão:

 Que a verdade possa iluminar

A fé em cada coração

Quando ecoar

O tambor que arrepia meu Ilê

E o bem maior desbotar toda escuridão

O fogo que arde pra purificar

É mais uma chance de recomeçar

Reflete no olhar da criança

A paz de Oxalá

Com o samba-enredo Cantando Contos: Reinos da Literatura, a Império de Casa Verde nos fez refletir sobre o quanto acreditamos em histórias (principalmente em quadrinhos) sem perceber muitas vezes o quanto são ilusões ou que replicamos falas capacitistas, racistas que constavam nessas histórias que vimos na infância:

Qual é a graça da criança que não cresce?

E o sentido de zombar dos Sete Anões?

Por que o príncipe só beija Cinderela?

E as borralheiras não despertam paixões?

Achei sensacional outro trecho que traz críticas sociais pesadíssimas:

Na Gotham City das desigualdades

Coringas se espalham por aí

Não é maravilha a realidade

O que fomos enganados, não tá no gibi

No sítio em que a preta Anastácia está na cozinha

Pertence ao Visconde a sabedoria

Abençoada pela sua madrinha Leci Brandão e inspirados por Nelson Mandela e Martin Luther King, a Acadêmicos do Tatuapé trouxe um samba-enredo em que seu título serve também como um alerta para a sociedade: Justiça: A Injustiça Num Lugar Qualquer É Uma Ameaça à Justiça Em Todo Lugar. Além de questionar qual será a receita da paz, a escola fez uma advertência: “Bata seu tambor, respeite a minha fé / Reza pra quem é de aleluia / Ou pra quem é do axé” e uma afirmação: “O poder do povo preto está presente em nós / marginalizados, excluídos / que a justiça seja sempre a nossa voz!

Fazendo uma reedição de 2009, a Tom Maior trouxe o samba-enredo Uma Nova Angola Se Abre Para o Mundo! Em Nome da Paz, Martinho da Vila Canta a Liberdade!, a escola reforçou a importância da cultura africana:

É nova Angola com mais amor

Seus ideais, de independência e libertação

Chega de guerra e opressão

Buscando o caminho da paz

Um povo que tanto sofreu

Renasceu

E brilha o sol da nova era

Reconstruindo a sua história

Rainha Nzinga guerreira

Com seu exemplo, rompeu fronteiras

Entre correntes e lamentos

A Negritude atravessou o mar

Fazendo desse chão seu gueto

O Brasil é negro, e hoje vem sambar

Outra que não está entre as mais famosas do samba paulista, mas que trouxe um tema importantíssimo, foi a Mocidade Unida da Mooca que bradou: “Se a branca ignorância é o ato que não cessa / o meu samba ecoa na floresta!” A escola apresentou o samba-enredo Krenak – O Presente Ancestral, que além de dar destaque a pessoa de Ailton, chamou os povos indígenas para a luta contra os opressores:

Levanta povo Tupi, o dono da terra

Enterra essa gente, da selva de pedra

Pisa nesse chão, o nosso quinhão

Entoa seu grito de guerra

Hey, há, hey! É fogo no invasor!

Hey, há, hey! A cura da minha dor!

Se o tempo não apaga a verdade

Evoco a ancestralidade

Na segunda noite de desfiles (sábado 1˚ de março), na qual estive presente, foi lindo ver a Águia de Ouro trazer o cantor Benito di Paula como tema e um carro alegórico com os personagens do desenho Snoop & Charlie Brown. Teve também o desfile da então atual bicampeã do carnaval Mocidade Alegre(falando sobre patuás e outras formas de proteção), a Vai-Vai, que no raiar do sol e com arquibancadas vibrantes, falou sobre o multiartista Zé Celso, falecido em 2023. E a Acadêmicos do Tucuruvi, que na minha opinião foi a escola que mais deixou a desejar em todos os quesitos (não à toa que foi uma das rebaixadas).

Deixei para falar por último da Estrela do Terceiro Milênio por um simples motivo: foi a escola que me fez arrepiar o corpo todo e cair em lágrimas em vários momentos do desfile, principalmente na passagem de carro alegóricos com as figuras da Dona Hermínia (personagem do eterno Paulo Gustavo) e de meu ídolo Freddie Mercury com o punho erguido.

Antes de ir para o sambódromo, ouvi o samba-enredo “Muito Além do Arco-Íris!” várias vezes. Achei muito interessante, mas não tinha a noção da magnitude que ele causava cantado ao vivo. Eu fui um dos que mais entoou a canção, que apesar da pouca “torcida” foi contagiando e gerando novos adeptos por toda a avenida. E um detalhe muito importante: essa escola é uma das poucas (se não for a única) que possui uma mulher como intérprete principal do samba-enredo.

Todos nós sabemos que o Brasil é o país que mais mata pessoas Lgbtqiap+ no mundo. Ver a galera cantando com liberdade, sem medo de demonstrar suas emoções e chacoalhando muito seus leques nas cores do arco-íris, é algo que guardarei na memória para sempre. Por isso, faço questão de transcrever aqui para você que me lê, o samba-enredo na íntegra:

Pecado é a sua hipocrisia

Que em nome de Deus, me silencia

Se o ódio condena quem sou

Punhal do pudor sangra a poesia

Veja, a maldade dessa gente

Perseguindo o diferente

Desde os tempos de Cabral

Eu respeito a sua crença

Mas não chame de doença

Sentimento natural

Não há mal que seja eterno

Que vá pro inferno a sua moral

Abri minhas asas, mostrei meu valor

Erguendo a bandeira do amor

A paz ganha voz, orgulho às ruas

Depois do arco-íris, o brilho da Lua

A luz da ancestralidade é a coragem

Que ensina a viver minha verdade

Quero um colo pra me acolher

Num banho de axé, o meu caminho benzer

Resisto, para existir

Eu sou a arte que inspira a vida

Pra ver essa avenida colorida

Respeite o que é de direito

Saia da frente com seu preconceito

Na liberdade de um novo amanhecer

Pra sempre florescer

Brilha minha Estrela, faz valer a pena

Nasci pra vencer cada alma pequena

Vai à luta, Grajaú! Manifesto, pé na porta

Toda forma de amar importa

Em relação ao resultado, não concordei muito, pois acredito que outras escolas foram melhores que a campeã Rosas de Ouro. Mas eu não sou um dos jurados, que apesar de marinheiros de primeira viagem em 2025, receberam treinamento para a execução da função. Sobre a outra escola rebaixada, a Mancha Verde, vou me abster para não parecer clubista (risos).

Sobre o Rio de Janeiro, não pude acompanhar muito, mas na minha seleção os melhores sambas-enredos foram: Salgueiro (Salgueiro de Corpo Fechado), Viradouro (Malunguinho: O Mensageiro de Três Mundos), Beija-Flor – campeã, com direito à despedida de seu intérprete há mais de 50 anos, Neguinho da Beija-Flor – (Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas), Imperatriz Leopoldinense (Ómi Tútú ao Olúfon – Água Fresca Para o Senhor de Ifón) e mais dois que irei comentar separadamente a seguir.

Lembra que no começo do texto eu falei que o carnaval é aula de história? Então, para mim foi. Apesar de ser um admirador dos conteúdos que envolvem o continente africano, eu não conhecia a história de Xica Manicongo, a primeira travesti do Brasil. Xica grita: “Eu, travesti / estou no cruzo da esquina / Pra enfrentar a chacina”.

Sabe como eu aprendi um pouco e criei curiosidade em ir pesquisar? Após ouvir o lindo samba-enredo Quem Tem Medo de Xica Manicongo? da Paraíso do Tuiuti (escola esta que apresentou em 2018 um samba-enredo pedrada e que você deveria ouvir: Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?). Vou deixar uns trechinhos do samba da Xica só para despertar sua curiosidade para ver o resto:

Não venha me julgar,

Pela boca que eu beijo

Pela cor da minha blusa

E a fé que eu professar

Não venha me julgar

Eu conheço o meu desejo

Este dedo que acusa

Não vai me fazer parar

Faz tempo que eu digo não

Ao velho discurso cristão, sou Manicongo

Lembra que falei também que o carnaval é a exaltação das nossas religiões de matriz africanas? Então, teve uma escola do Rio de Janeiro que foi penalizada por, no seu samba-enredo (Egbé Iyá Nassô) conter, segundo a jurada que avaliou, “muitas palavras em iorubá”. Mas isso é um pouco contraditório, não? Já que o tema da escola Unidos de Padre Miguel era o CANDOMBLÉ.

Vou repetir: a escola foi penalizada por usar a língua iorubá em um texto onde a temática era uma religião de origem africana.

Acho que essa jurada precisa aprender mais com o Professor Carnaval.

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