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Hallyu: a Coreia deixou de ser tão distante

Cultura pop sul-coreana conquistou o Brasil com música, séries, moda e culinária

Por: Thayana De Almeida (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Paredes brancas e apenas uma lilás, duas camas de solteiro e um notebook em cima da minha colcha, provavelmente da mesma cor daquela parede onde as camas ficavam encostadas. Tenho quase certeza de que foi assim que conheci o K-pop, foi assim que ouvi pela primeira vez “Fantastic Baby” ou vi o primeiro moletom de donuts – referências. Naquele tempo, em 2016, era um pouco mais difícil encontrar conteúdo sobre K-pop e a cultura sul-coreana. Lembro que, naquela época, era difícil entender os nomes dos idols, usávamos fansubs para acompanhar os vídeos legendados, e os fanpages no Facebook eram uma das poucas fontes confiáveis de informação. Era como fazer parte de um clube secreto – quem sabia, sabia.

Fonte: Ilustração feito por Fernanda Helena De Campos
Fonte: Foto autoral – Thayana De Almeida

Atualmente, todos já fomos expostos a algo dessa cultura, desde músicas até desenhos. Você já deve ter ouvido falar do filme “Guerreiras do K-pop”, que virou febre recentemente, ainda mais com a música “Golden” que viralizou nas redes sociais. O famoso grupo de K-pop BTS (Bangtan Boys) é responsável pelo “pave the way”, pois também foi fundamental para disseminar e pavimentar o K-pop e a cultura sul-coreana pelo mundo. Até quem nunca ouviu o gênero sabe quem eles são ou já ouviu alguma coisa relacionada. Essa expressão também é usada porque reconhece que o grupo quebrou barreiras ao bater recordes, fazer colaborações com artistas ocidentais, fazer discursos na ONU e esgotar turnês e vendas de álbuns, tornando-se referência para outros artistas de K-pop (ou não).

Fontes: G1, Jornal da USP, Correio 24h, Jornal O Casarão – UFF

É comum ver jovens usando camisetas com nomes de grupos coreanos, dançando em praças públicas ou até falando palavras em coreano no dia a dia. O que antes parecia distante, hoje faz parte do vocabulário e da rotina de muitos adolescentes e adultos brasileiros. O fenômeno “Onda Coreana” é a massiva exportação e popularização global da cultura sul-coreana, especialmente a partir da década de 1990, abrangendo K-pop, K-dramas (novelas), filmes, beleza e culinária. No entanto, o sucesso esperado só foi alcançado em 2019, após o filme “Parasita” ser lançado e ganhar o Oscar em 2020, alcançando um público muito maior. Em 2022, houve mais uma repercussão com o “Round 6”, foi sucesso absoluto, até o público que tinha certo preconceito com as dramaturgias coreanas cedeu e passou a assistir.

Acesse o trailer do filme Parasita: https://www.youtube.com/watch?v=m4jfE-TxC24

Acesse o trailer da série Round 6: https://www.youtube.com/watch?v=xqkmwzZMy7Q

Parasita, primeiro filme sul-coreano a vencer o Oscar e a série Squid Game que quebrou recordes de audiência, a Coreia consolida sua força global no audiovisual | Imagens Web

Silvia Vendelim, de 50 anos, administradora em uma empresa de transporte, sempre consumiu entretenimento asiático, mas passou a consumir muito mais nos últimos anos. Ela relata como se insere na cultura assistindo aos famosos K-dramas, que se tornaram uma janela para entender melhor a sociedade coreana. Para Silvia, esses dramas vão muito além do entretenimento: pelos contextos das histórias é possível perceber nuances das relações familiares, das dinâmicas de trabalho e do senso de comunidade que permeia a cultura sul-coreana. Ela destaca que através dos doramas, aprendeu a valorizar a importância do respeito às hierarquias e dos laços afetivos, que muitas vezes são retratados com delicadeza e profundidade. 

Essa imersão também despertou sua curiosidade sobre a culinária, fazendo com que ela buscasse experimentar pratos típicos, assim como conhecer mais sobre os costumes, a moda e outras produções culturais da Coreia. Para ela, os K-dramas funcionam como uma ponte que conecta culturas diferentes, permitindo uma experiência de aprendizado que vai além da tela. Silvia ainda comenta que essa vivência influenciou seu modo de agir e pensar no dia a dia.

Assim como a Silvia, muitos se apaixonaram pela culinária coreana. O bulgogi, o tteokbokki e até o famoso lamen instantâneo começaram a fazer parte dos jantares temáticos entre amigos, sem contar o soju, bebida alcoólica muito comum no país. O sucesso da maquiagem coreana (K-beauty) e skin care também influenciou o mercado de cosméticos no Brasil, usando seus produtos e peles perfeitas (sem poros).

 Na moda não foi muito diferente, virou referência entre os jovens, principalmente para as jovens cristãs. Muitas dessas jovens adotaram, muito pelo “estilo” mesclar conforto, elegância e peças mais atuais. Na Coreia, peças oversized, saias plissadas, casacos volumosos e tênis robustos compõem um visual que é ao mesmo tempo moderno e delicado. O chamado “K-fashion” traz uma combinação singular, que prioriza a identidade visual e a autenticidade.                                                                                                                                                        De acordo com dados divulgados em 2022 pela Revista Capricho, desde 2018 os streamings de K-Pop aumentaram 230% globalmente. São cerca de 8 bilhões por mês em todo o mundo. Já na rede social X (antigo Twitter), o Brasil figura entre os países com maior volume de menções à cultura coreana, segundo dados divulgados por plataformas de análise de redes sociais.

O grande número de influenciadores sobre o tema também cresceu. É o caso de Yakine Reis,ou Yaks,  como é conhecida nas redes sociais. Ela é uma influencer de 29 anos que fala sobre body positive, e seu conteúdo é voltado para as famosas GG’s e suas vivências como jornalista.

Yakine Reis em um de seus passeios após se mudar para a Coreia do Sul | Foto via instagram @aquelayaks

Yaks se mudou para a Coreia do Sul depois de muito planejamento. Sempre ficou atenta aos riscos, mas se manteve aberta a uma nova aventura e, por isso, está vivenciando uma nova etapa em sua vida. A língua, sendo bem diferente do português, faz com que ela se sinta como um bebê, principalmente quando olha para as placas e sequer sabe o que está escrito. Os grandes centros, como Hannam-dong (distrito de Yongsan) e Seongsu-dong (bairro de Seongdong), são lugares onde encontra moda e cultura.

Criadora de conteúdo e jornalista com mais de 30 mil seguidores no tiktok conta como conheceu a cultura sul coreana | Foto via Instagram

Yaks ainda fala sobre como o Hallyu, a “Onda Coreana”, pode crescer nos próximos anos, mas ressalta que a Coreia deve aprender a andar com as próprias pernas e não ouvir apenas quem consome sua cultura fora da Ásia. Ela acrescenta que, apesar do Ocidente estar consumindo cada vez mais, ainda mantém uma visão deturpada e xenofóbica do país. “A Coreia é apenas um país como qualquer outro, mas que sabe usar a cultura para seu crescimento econômico.”

Ela conta que conheceu o K-pop através de sua melhor amiga, que já gostava do gênero. Sua amiga tinha 11 anos e, aos poucos, cativou nossa Yakine ainda criança. O audiovisual e a linguagem de marketing logo prenderam a atenção total da influenciadora. Mas nem tudo são flores: alguns fandoms mais afastaram do que aproximaram. Mesmo assim, a garota não desistiu. O “ser fã” – como ela diz – fez com que nutrisse um interesse pelo todo, incluindo um posicionamento social diante do mundo. 

O consumo de K-pop no Brasil não se limita à música: ele representa um processo mais profundo de aculturação. Segundo o estudo Fãs brasileiros de K-Pop: Um estudo sobre aculturação de consumo, de Armando Perez Palha (2021), esse fenômeno ocorre quando os fãs adaptam suas práticas culturais e de consumo a partir do contato com a cultura sul-coreana.

A pesquisa, que entrevistou fãs de diversas regiões do Brasil, identificou três dimensões desse processo: Cultura K-pop, Imagem Corpórea e Fluxos Culturais. Os fãs foram classificados como prossumidores — consumidores que também produzem e difundem conteúdo — e relataram mudanças na autoestima e na percepção de si mesmos, influenciados pela estética e pelos valores transmitidos pelos ídolos coreanos.

Essa transformação vai além do entretenimento: envolve práticas diárias, como cuidados pessoais, estilo de vestir e até hábitos alimentares. Os fluxos culturais, segundo Palha, permitem que costumes e tradições da Coreia do Sul sejam incorporados de forma localizada, criando uma ponte entre culturas distintas.

O estudo também destaca o papel da cultura participativa, onde os fãs não são apenas espectadores, mas agentes ativos na produção e circulação de conteúdo. Essa dinâmica é potencializada pelas mídias digitais, que permitem interação direta entre fãs e artistas, ampliando o alcance da chamada Hallyu 2.0, a nova fase da Onda Coreana impulsionada pela Web 2.0 e pelo consumo digital.

Apesar do brilho dos palcos e dos videoclipes, o K-pop também carrega debates importantes, como a pressão estética extrema, a jornada intensa de treinos e até casos de exploração dentro das agências. Raysa Gomes, que acompanha o universo do K-pop há mais de 10 anos, fala sobre essa problemática que faz parte desse meio. Ela comenta que, no início, tudo parecia glamour e diversão, mas com o tempo e seu amadurecimento percebeu que existiam questões sérias por trás das câmeras. Segundo Raysa, “Ser fã também é, muitas vezes, aprender a equilibrar admiração com senso crítico”. Essa consciência a fez repensar seu consumo: ela passou a se distanciar de algumas agências e até parou de ouvir determinados grupos cujas práticas ela considerava prejudiciais aos artistas e ao público. Para ela, é fundamental apoiar a arte e os artistas, mas sem ignorar os aspectos negativos e as injustiças que podem estar acontecendo por trás do sucesso e da fama.

Infelizmente, o mundo do K-pop também é marcado por casos de exploração e abusos dentro das agências. Muitos trainees, jovens que sonham em se tornar idols, enfrentam jornadas exaustivas de treinamentos que chegam a durar mais de 12 horas por dia, com pouco tempo para descanso ou vida pessoal. Além disso, há relatos de contratos rígidos e controladores, conhecidos como “contratos de escravidão”, que limitam a liberdade dos artistas e impõem cláusulas severas. Alguns idols já denunciaram pressões psicológicas, assédio e até manipulação financeira, mostrando que, por trás do brilho das apresentações e dos clipes produzidos, existe uma indústria intensa e, muitas vezes, desgastante.

Um dos escândalos mais impactantes nos últimos anos foi o caso do “Burning Sun”, que envolve acusações de abuso, tráfico e corrupção ligados a uma famosa casa noturna em Seul, com conexões que chegaram a envolver artistas do K-pop. O caso expôs problemas graves no meio artístico e empresarial, trazendo à tona a urgência de maior transparência e ética na indústria.

Fonte: Thayana De Almeida

A Cultura sul-coreana no Brasil segue em expansão, seja por meio da música, das séries, da moda ou da culinária. Entre fãs, curiosos, críticos e haters, o que se percebe é que o Hallyu já deixou de ser novidade e se tornou parte do cotidiano de muita gente, ocupando um espaço antes inimaginável. Entre descobertas, críticas e encantamentos, a cultura sul-coreana já não é mais distante. Está nos fones de ouvido, nas telas e nas conversas de quem a acompanha. Para muitos, é apenas entretenimento; para outros, uma forma de conexão com o mundo externo.

Para os curiosos, algumas palavras que foram usadas no texto.

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