O outro lado da gestação
Entre hormônios e noites sem dormir, a gravidez nem sempre é um conto de fadas. Três histórias reais mostram o que a maternidade esconde
Por: Julio Ribeiro (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Ser mãe é o sonho de muitas mulheres, um desejo antigo que floresce antes mesmo de entender sua dimensão. Mas a gestação raramente se parece com o que se imagina: enjoos que queimam a manhã, frustrações que se acumulam como nuvens carregadas, e sensações inesperadas que sacodem o corpo e a mente. Essa realidade não passa despercebida. As mães a sentem em cada passo, em cada mudança, enfrentando o peso e a beleza de um corpo que se transforma para criar outra vida.
O processo, muitas vezes, começa após a descoberta da gravidez. A novidade gera uma reação que varia de pessoa para pessoa. É nesse intervalo entre o ideal e o real que as histórias de Wilma Antunes e Evenize Batista ganham força. No caso de Wilma , grávida de 4 meses, o percurso foi — e continua — turbulento.
Os três primeiros meses a derrubaram física e emocionalmente. O alívio só veio no segundo trimestre, quando o corpo finalmente devolveu a ela algum ânimo. “Sinto que minha essência voltou. Quero aproveitar”, diz.
Com a melhora, veio algo ainda mais importante: a sensação de estar grávida de verdade. “Agora consigo sentir afeição pelo bebê, tocar na barriga, ficar feliz.” O vínculo, antes distante, começou a se formar devagar, exatamente como ela acredita que o amor materno é: construído, não imediato.
Para os próximos meses, Wilma deseja algo simples e profundo: criar presença. “Quero um vínculo entre mim, o bebê e o pai. Nós três. Quero focar nisso.”
Pensar no pós-parto ainda parece nebuloso, mas ela sabe que quer tempo exclusivo com o bebê. “Quero ficar seis meses só com ele. Criar o vínculo no colo, naquele cheirinho gostoso.”
A maternidade também traz uma chance de romper histórias. Wilma deseja ser diferente da mãe que teve ausente, e reverencia o pai que tentou preenchê-la. “Quero que meu filho cresça sabendo que é amado demais.”
Em suas palavras, fica claro que a riqueza que pretende oferecer não é material. “Quero que ele seja rico de afeto. Que não se sinta um peso. Quero deixar um legado.” Ela sonha em colocar no mundo uma pessoa boa, com caráter, “aquela pessoa que tem uma energia boa”.
Mas junto do desejo vem o medo. “Toda gestante tem medo de doença ou anomalia.” E, ainda assim, ela descobriu dentro de si uma coragem inesperada. “Eu fui forte. A gravidez deixa a mulher forte, mesmo quando deixa frágil.”
É essa dualidade que define sua trajetória até aqui: sensibilidade e força coexistindo. E, apesar da dureza do início, ela não hesita: “Se não tivesse acontecido, eu repetiria. Está valendo a experiência.”

Um olhar clínico sobre o invisível
Assim como Wilma, inúmeras mulheres atravessam a gestação acompanhadas por sensações que não aparecem em ultrassons. Na atenção primária, quem testemunha essas nuances são profissionais como Crislaine Santana, enfermeira da Estratégia Saúde da Família, que acompanha mulheres desde a adolescência até o climatério. Seu trabalho é uma linha contínua de cuidado: do pré-natal às orientações de parto, do planejamento familiar ao apoio emocional.
Ela observa que a gestação, apesar de comum, nunca é igual. O corpo reage a um turbilhão de hormônios (hCG, progesterona, estrogênio) que explicam boa parte dos enjoos, da exaustão e da instabilidade emocional tão presentes nas falas de mulheres como Wilma. O início costuma ser o trecho mais árduo da travessia: náuseas, cansaço extremo, sono fragmentado e o medo silencioso do que pode dar errado.
Mas Crislaine reforça algo que muitas gestantes demoram a perceber: “Cada experiência é individual. A saúde prévia, o estilo de vida, o suporte familiar e até a história emocional influenciam diretamente na forma como a gestação acontece.”
No fundo, não existe gestante “forte” ou “frágil”: existe uma mulher tentando atravessar, do jeito que consegue, a maior mudança da vida.
Entre silêncio e o milagre de três batimentos
A história de Evenize vem muito antes dos trigêmeos. Começa no ato de tentar; tentativa, espera e recomeços. Foram um ano e meio de tentativas frustradas, marcadas por dúvidas que pesam: “Será que o problema é comigo?”
A primeira gravidez chegou em 2011 e desapareceu poucos dias depois. Ela tinha contado para todos, então, precisou contar sobre a perda também. Doeu nela, foi um luto que acaba também respingando no casamento. A endometriose, antes tratada como detalhe, finalmente ganhou nome e peso. Entretanto, mesmo após a cirurgia, a gestação não vinha.
Na segunda perda, o silêncio pesou mais do que qualquer exame. Foi o silêncio das pessoas que não sabiam o que dizer, e o das mulheres que, ao vê-la falar abertamente, quebraram o próprio mutismo. Trinta e três delas procuraram Evenize para confidenciar perdas que nunca haviam dito em voz alta. “Não é substituível aquele bebê”, ela afirma com a firmeza de quem transformou a dor em consciência. Aprendeu a lidar espiritualmente com o que viveu: “Eu dei o meu melhor para eles.”
Aos 39 anos, decidiu tentar Fertilização in Vitro — uma única vez. Deu certo. Três embriões transferidos. Quatro dias depois, um tombo; junto com o medo, uma experiência espiritual. “Grudem aí, fiquem com a mamãe”, disse ela em uma conversa silenciosa com aqueles que já considerava filhos.
O positivo veio. No ultrassom, um saco gestacional. Depois dois. Depois três. O médico respirou fundo e disse “temos um problema”. O marido não hesitou: “Problema nenhum.” Ela só precisou de uma resposta: “Os corações estão batendo?” Estavam. Todos eles.

A gestação de trigêmeos, cenário que os médicos classificam como de alto risco, foi, ironicamente, a fase mais tranquila de sua vida. Pilates, yoga, plenitude. Ela se olhava no espelho e se reconhecia linda, forte, inteira. Sentia que seu corpo, antes tão questionado, finalmente respondia. Era como se tudo tivesse entrado no eixo.
Mas um atendimento precipitado mudou a história. Evenize foi ao hospital apenas para um ultrassom de rotina e recebeu, da médica plantonista, entusiasmo irresponsável para “fazer um parto de trigêmeos”. Nada indicava urgência: sem contrações, sem sangramento, sem sofrimento fetal. Mesmo assim, a internação virou cesárea marcada para aquela tarde. “Eu tenho plena consciência de que não era pra ter nascido”, diz. “Foi uma violência obstétrica.”
Alice nasceu às 15h41. Max às 15h42. Olívia às 15h44. Ela não pôde fotografar os três juntos, como desejava. Mas ouviu os três choros, o que foi o suficiente.
Vieram os dias na UTI neonatal — rotina exaustiva e milagrosa. Cada grama era vitória. O marido ficou 20 dias ao lado das crianças; ela, 33. Aprendeu com todas as mães, com todos os profissionais. Entendeu o valor de cada minuto dentro do útero. E reconheceu que sua maternidade não é mais preciosa por ser tripla, apenas diferente.
Hoje, nove anos depois, os três estão saudáveis e cheios de vida. Ela cuida deles com amor e limites. Às vezes, lembra da barriga que não pôde despedir. Mas é grata a sua experiência:
“Eu amo a minha história!”
diz com convicção. E, se pudesse falar com a mulher que foi um dia, diria apenas: “Continua. Confia e segue. E, se puder, seja mais leve.”.
O que a técnica revela sobre trajetórias como a de Evenize?
Ao lidar diariamente com gestantes de alto risco, adolescentes, mulheres soropositivas, mães com doenças crônicas ou histórico de perdas, Crislaine observa algo que atravessa todas as histórias: o apoio muda tudo.
Uma gestação pode ser marcada por medo, culpa, fragilidade ou força, mas raramente é marcada por indiferença. “As preocupações se repetem: medo do parto, mudanças no corpo, instabilidade emocional, dificuldade para dormir, inchaço, dores, ansiedade sobre o futuro”, explica. Mesmo assim, cada mulher reage ao seu próprio ritmo, influenciada pela saúde prévia, pela estabilidade emocional e pela rede que a ampara.
Para ela, o que realmente faz diferença é o vínculo que se constrói no cuidado. Não o gesto técnico em si, mas a presença contínua: conhecer a história, reconhecer o medo, validar a dor. “Eu acompanho cada mulher, conheço cada história e, depois, cada bebê que chega.” Esse tipo de cuidado não termina na última consulta.
Quando nasce um bebê, nasce também outra mulher
O pós-parto, segundo Crislaine, é um território tão transformador quanto a gestação, às vezes até mais. A recuperação física, a queda hormonal, a privação de sono, a adaptação ao recém-nascido e a construção de um vínculo que ainda engatinha formam um cenário delicado.
“Coisas pequenas tornam-se enormes. O humor oscila. A culpa pesa”, ela descreve. E, apesar de tão comentada, a depressão pós-parto ainda vive envolta em tabu.
Mas há também uma potência que atravessa tudo isso, a mesma que aparece nas histórias de Wilma e Evenize. Uma força silenciosa que não grita, não posa, não se anuncia. Só se revela quando passa.
No fim, é assim que a maternidade se constrói: entre o que se espera e o que se vive, entre o medo e o milagre, entre o que dói e o que transforma. E, para muitas mulheres, é justamente aí, nesse território imperfeito, que nasce o amor para toda a vida.
