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Castração: Um Gesto de Amor ou uma Necessidade?

Do milagre da “cachorra de cemitério” à prevenção de doenças: por que essa cirurgia é o maior ato de amor e responsabilidade do tutor

Por: Marizete Resende (Agência Focas – Jornalismo Uniso)

Em meio à rotina de mutirões de castração, onde dezenas de cirurgias são feitas em tendas improvisadas, a linha entre a vida e a morte pode ser muito tênue. Carlos Alves, coordenador logístico de campanhas, conta um caso que ficou marcado em sua memória.“Lembro de uma cadela magra, com algumas cicatrizes no corpo, chegou trazida por voluntários. A cirurgia parecia tranquila, mas de repente, ela entrou em parada cardiorrespiratória. O coração parou, e o silêncio tomou conta da tenda improvisada. Fizemos massagem, ventilação, abrimos o abdómen três vezes tentando conter o sangramento, e por um instante, achei que a perderíamos. O calor, o barulho das pessoas lá fora, o som dos instrumentos para mim, tudo sumiu, e só existia ela ali lutando. Depois de longos minutos, o coração voltou a bater. Demorou para acordar da anestesia, mas quando finalmente abriu os olhos e moveu o rabo, senti um aperto no peito se aliviando. Mais tarde, descobrimos que era uma cadela de cemitério, acostumada a vagar entre túmulos. Foi impossível não pensar que, de algum jeito, ela já sabia o caminho de volta da morte.”

Essa dedicação em salvar uma vida é a essência do trabalho. “A castração é um ato de amor que salva vidas, previne doenças e ajuda no combate ao abandono.” Mais do que uma cirurgia, é uma intervenção que melhora a saúde, o comportamento e o bem-estar do animal.

Fonte: Marizete Resende

Saúde em Primeiro Lugar: Os Benefícios Técnicos

Se você ainda tem dúvidas sobre castrar seu pet, o lado técnico da medicina veterinária traz respostas. Julia Santana, de 27 anos, veterinária cirurgiã, explica que as práticas evoluíram.

Nas fêmeas, a cirurgia realizada entre o primeiro e o segundo cio diminui drasticamente a chance de desenvolver tumor de mama. Já para os machos, a castração é a aliada perfeita para reduzir comportamentos indesejados, como a marcação de território e a agressividade.

Giovanna Maria, veterinária que atua em castramóvel no interior de São Paulo, complementa a lista de vantagens: “Evita doenças nas fêmeas, como a prevenção do câncer de mama, e nos machos, o câncer de próstata. Além disso, ajuda no controle populacional.”

Apesar de ser um ato de amor e prevenção, o procedimento exige atenção no momento certo. A veterinária Julia explica que em casos de filhotes que ainda não fecharam as fises (a parte responsável pelo crescimento ósseo), o ideal é esperar que o animal tenha entre 18 e 24 meses, para evitar distúrbios ortopédicos e metabólicos. Existem também raças com características que exigem cuidado redobrado na anestesia, como as braquicefálicas (focinho curto), incluindo shih tzu, pugs e bulldogs. Em raças como o Golden Retriever, estudos apontam uma maior incidência de determinados tumores após a castração precoce, embora ainda sejam necessárias mais pesquisas para conclusões definitivas.

Preparação e Segurança: O Essencial no Pré e Pós-Operatório

A segurança do seu pet começa antes mesmo de ele entrar na sala de cirurgia. No pré-operatório, é importante que o animal esteja clinicamente saudável, com a vacinação atualizada e livre de ectoparasitas, como pulgas e carrapatos. A higiene no dia da cirurgia também é importante. Exames laboratoriais, como hemograma e avaliação das funções renal e hepática, devem ser realizados sempre que possível para detectar qualquer condição que possa comprometer a anestesia ou a cirurgia em si, além de exames cardiológicos em casos específicos.

O jejum antes da cirurgia é indispensável. Quando anestesiado, o animal relaxa toda a musculatura, inclusive a do estômago. A válvula que segura o alimento dentro do estômago, chamada cárdia, também relaxa. Se o animal tiver comido recentemente, pode acabar vomitando durante a anestesia e aspirar o conteúdo para os pulmões (broncoaspiração). Como estará inconsciente, não consegue expulsar o vômito, o que pode causar pneumonia ou outras complicações sérias durante a cirurgia.

O Medo da Anestesia e os Cuidados Pós-Cirurgia

A anestesia é, sem dúvida, a maior preocupação dos tutores, e com razão. Segundo a veterinária Fabiana Santos, 43 anos, a anestesia dissociativa é a mais utilizada em campanhas, mas a inalatória também pode ser aplicada, dependendo do paciente. Fabiana ressalta que a triagem clínica bem feita é essencial para adaptar a medicação e identificar riscos. “Casos de parada cardiorrespiratória, embora raros, podem acontecer”, alerta Fabiana. Mas o mais comum é que isso ocorra logo após a indução anestésica. A boa notícia é que com o protocolo e o monitoramento corretos, o procedimento é muito seguro.

Depois da cirurgia, o pet precisa de um ambiente aquecido, seguro e dentro de casa, sob supervisão. O pós-operatório exige cuidados específicos que não devem ser ignorados. Restringir os movimentos é importante para evitar que os pontos se abram ou inflamem. O uso do colar elizabetano (o famoso “abajur”) ou da roupinha cirúrgica é necessário para impedir que o animal lamba ou morda o local da cirurgia, prevenindo infecções, o animal deve usar por no mínimo uns 7 dias.

A medicação prescrita pelo veterinário, geralmente antibiótico e anti-inflamatório, deve ser administrada corretamente e dentro do prazo indicado. O tutor também deve observar sinais anormais, como febre, secreções incomuns, apatia ou qualquer mudança de comportamento. A auxiliar veterinária Nataly Martins explica que nos castramóveis os fios geralmente não são absorvíveis, ou seja, não caem sozinhos e precisam ser retirados entre sete e dez dias após a cirurgia. A remoção pode ser feita em uma clínica de apoio ou pelo próprio tutor, desde que com cuidado. Nataly comenta que há diversos vídeos explicativos disponíveis na internet e que o procedimento é simples, rápido e seguro para o animal.

Porque a “Vacina Anti-Cio” Não é Recomendada

Se você já pensou em usar a chamada “vacina anti-cio” como alternativa, saiba que ela não é recomendada pelos profissionais e, para muitos, já deveria ter sido proibida. Trata-se de uma aplicação com altas doses de hormônios, usada em gatas e cadelas para impedir o cio, mas que traz riscos sérios à saúde do animal, principalmente quando é aplicada de forma contínua.

Pode causar problemas sérios, como piometra, que é uma infecção no útero, tumores de mama ou até a morte dos filhotes, quando a injeção é aplicada sem saber que a fêmea está prenha. “Os filhotes acabam ficando presos no útero e começam a apodrecer”, explica Julia. Ela também lembra que muitos tutores ainda aplicam a vacina de forma errada, como quando veem a fêmea cruzando e decidem dar a injeção para evitar a prenhez. A vacina também pode causar efeitos em gatas, como hiperplasia mamária felina (inchaço mamário). “É uma bomba hormonal”, resume a veterinária. A recomendação dos profissionais é clara: a castração cirúrgica continua sendo o método mais seguro e eficaz para evitar crias indesejadas e garantir a saúde do animal.

A Rotina das Campanhas: Castramóveis em Ação

Tudo isso só é possível graças à rotina intensa e organizada das campanhas. Nataly Martins, de 27 anos, auxiliar veterinária com três anos de experiência em castração, garante que a triagem é rápida e eficiente. “A gente pega a senha, o tutor passa com o animal para a veterinária que faz perguntas sobre o histórico do animal, como se ele já foi atropelado ou sofreu algum acidente. A veterinária verifica também se o animal está apto para a cirurgia”, explica Nataly. Se o animal tiver histórico de atropelamento ou for de rua, ele pode ser considerado inapto para a castração, visando evitar riscos maiores.

Após a cirurgia, todos os animais recebem medicação pós-operatória que deve ser administrada dois dias depois da castração. O animal sai do castramóvel medicado e pronto para a recuperação.

Apesar dos desafios logísticos, a campanha tem um impacto social imenso. “As castrações particulares são caras, e a campanha realmente facilita muito a vida dessas famílias”, afirma Carlos Alves, 53 anos, coordenador logístico de campanhas de castração, que trabalhou por cinco anos no castramóvel. Ele destaca um dos maiores desafios enfrentados: a infraestrutura. Muitas vezes, é necessário pedir apoio da guarda municipal ou da polícia para garantir a segurança. “Infelizmente, já houve casos de roubo ou danos ao material, mas tentamos lidar da maneira mais amigável possível”, afirma.

As prefeituras das cidades, com o apoio de vereadores, são responsáveis por organizar os locais das campanhas. “Em uma campanha que participei, chamamos de pinga-pinga, pois montamos e desmontamos a estrutura de cada cidade durante 30 dias”, conta Carlos. Esse processo exige muita organização e a adaptação das barracas, que precisam ser leves e flexíveis para facilitar o trabalho.

O Impacto Social: Um Ciclo de Amor

No fundo, a castração é uma questão de saúde pública e um passo importante na luta contra o abandono. A veterinária Julia Santana diferencia: “Para um animal com tutor, a situação é controlada. Mas para animais em abrigos ou ONGs, a castração precisa ser imediata, pois é a única forma de evitar a criação de mais filhotes e a superpopulação nas ruas.”

A protetora Alessandra da Silva, de 54 anos, enfatiza que, no interior, muitas pessoas ainda soltam seus animais para cruzar livremente, o que gera mais filhotes e mais abandono. “A castração, portanto, é um ato de amor, pois evita que esse ciclo de abandono continue.”

Giovanna Maria resume a importância do trabalho com campanhas: “Escolhi trabalhar com castração porque é uma área da medicina coletiva que traz muitos benefícios não só para os animais, mas para a sociedade como um todo. Acredito que esse serviço enriquece tanto a parte profissional quanto a parte pessoal.”

Com os cuidados certos e a orientação adequada, a castração cirúrgica continua sendo o método mais seguro e benéfico para garantir que mais animais tenham uma vida saudável e, acima de tudo, para que o ciclo de abandono seja finalmente interrompido.

Fonte: Marizete Resende

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