Corrida: o esporte individual que mais cria companhia
Por Larissa Bartels (Agência Focas – Jornalismo Uniso)
Pedro Arieta (regata laranja) cruza a chegada da Maratona de Boston com o corredor que auxiliou, 2025 | Arquivo pessoal
Existem pessoas que acordam cedo no domingo para ir à igreja. Outros para fazer feira. E há aqueles que escolhem acordar às seis da manhã para, voluntariamente, correr quilômetros sob o sol que nem nasceu direito ainda. Quando você vê pela primeira vez dezenas de pessoas se aglomerando na linha de largada, ajeitando tênis, conferindo relógios, alguns visivelmente nervosos, acredito que a primeira pergunta que vem à cabeça é: por quê?
A maioria não vai ganhar dinheiro com isso. Em alguns casos, não há troféu algum esperando, apenas água e banana. Ah, sim, e a medalha — não podemos esquecer da medalha. Só resta a promessa de simplesmente cruzar uma linha pintada no asfalto e, quem sabe, tirar alguns segundos do tempo pessoal. Particularmente, você não me encontraria correndo em tal horário, a não ser que eu estivesse fugindo de um assalto, talvez.
Mas eles estão ali: centenas, juntos para correr sozinhos. E seu número só cresce.
Quando o mundo parou, os pés continuaram
A corrida se tornou o esporte mais praticado em 2024. O dado, divulgado pelo Strava — aplicativo fitness mais famoso entre atletas e influenciadores da área, tendo sua funcionalidade como uma rede social para atletas — surpreende e ao mesmo tempo faz todo sentido. Afinal, em uma era de aparências saudáveis, pilates, crossfit, funcional e uma infinidade de modalidades disputam nossa atenção (e nosso dinheiro). Mas foi a corrida, a mais antiga e simples de todas, que se tornou grande campeã e continua conquistando corações.
A explicação começa, paradoxalmente, no isolamento. Uma pesquisa da Olympikus em parceria com a Box1824 revelou que 75% dos corredores amadores brasileiros começaram a praticar entre 2021 e 2022. Em plena pandemia. Quando academias fecharam e o mundo encolheu até caber dentro de casa, a corrida ofereceu uma válvula de escape literal: a possibilidade de movimento, de respirar fora de quatro paredes, de sentir que o corpo ainda existia além dos cômodos que você ocupava em seu lar.
Pedro Lopes, 26 anos, analista de marketing, conhece bem essa trajetória. Ele começou a correr aos 15, incentivado pela mãe que sempre foi corredora. Parou por um tempo, como acontece na vida, e voltou aos 24 e desta vez não parou mais.
“Acredito que muitas pessoas começaram a correr por conta do lifestyle saudável ter crescido”, explica Pedro, ele tem o entusiasmo característico de quem adora o que faz. “E outro fator que incentivou esse aumento foram as redes sociais, com influenciadores compartilhando suas rotinas. A corrida é um esporte muito acessível para o início, é algo que levam muito em consideração.”
Márcia Rodrigues, 56 anos, médica e funcionária pública, corre há mais de dez anos e conhece bem tanto os benefícios quanto os cuidados necessários. O esporte sempre fez parte da sua vida, e ela acabou entrando na corrida por ser boa nisso. Já completou diversas meias maratonas, mas atualmente está se recuperando de uma lesão na perna, respeitando seu tempo e os limites do próprio corpo.
Como médica, Márcia explica o que acontece quando corremos: durante a atividade física, o corpo libera endorfina, neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar e que funciona como um analgésico natural. “A corrida melhora a saúde cardiovascular, fortalece a musculatura, aumenta a densidade óssea e ajuda no controle de peso”, explica. “Mas é fundamental respeitar os limites do corpo. Lesões acontecem quando ignoramos os sinais de sobrecarga.” A experiência de Márcia serve de lembrete: a corrida é benéfica, mas exige responsabilidade, acompanhamento adequado e, principalmente, paciência no processo de evolução e recuperação.
A acessibilidade que Pedro menciona não é algo que incomum a ser comentado. Corrida exige pouco equipamento inicial: um tênis, roupas confortáveis e disposição. Pode ser praticada ao ar livre, sem mensalidade, sem horário marcado ou talvez entre aquela esteira que você nunca realmente pensou em usar na academia. É fácil começar sozinho.
Ou pelo menos era essa a promessa.
Hoje, corredores fazem piadas nas redes sobre como isso é mentira. Primeiro vem o tênis básico de R$ 200. Depois você quer o relógio GPS de R$ 1.500 porque precisa saber seu pace em tempo real. Entram as roupas técnicas que “não retêm suor”. O óculos especial. A pochete para hidratação. O boné com proteção UV. Aquele gel energético importado. O que começou simples se transforma, lentamente, em paixão equipada e cara.
Pedro durante corrida em Florianópolis, 2024 | Arquivo pessoal
O efeito da corrida
“Se eu pudesse convencer alguém a correr, diria para não começar”, Pedro comenta com um grande sorriso “Senão com certeza a pessoa vai se viciar nos benefícios que ela vai trazer.”
É uma piada recorrente entre corredores, mas carrega uma verdade incômoda: a corrida vicia. Não no sentido químico, embora a liberação de endorfina ajude. Vicia no sentido de que transforma a maneira como você enxerga seu próprio corpo, sua disciplina, seu dia.
Pedro compartilha os benefícios com propriedade de quem os experimenta: “Auxilia na melhoria de saúde por estar constantemente realizando atividade aeróbica e anaeróbica. Além disso, a corrida ajuda na disciplina de horários, alimentação e sono. E na parte estética, ajuda totalmente a diminuir aquela gordura que aparece no físico.”
Ele faz questão de mencionar que a corrida o ajudou a evoluir em outros esportes, como futebol, comentou sobre elogios de sua velocidade e agilidade em jogos com os amigos, tudo melhorando desde que voltou a correr. Mas é pelo menos curioso como um esporte que parece tão específico — apenas correr, afinal — acaba sendo base para tantas outras coisas. Talvez porque ensine a lição mais básica e mais difícil de todas: constância.
“A maior lição que a corrida me ensinou foi que é preciso ter constância e disciplina para evoluir”, diz Pedro. É o tipo de frase que poderia estar bordada em almofada motivacional, mas que na boca de quem corre 21, 40 quilômetros por semana ganha peso pela experiência vivida.
A solidão que une
No Brasil, grupos de corrida e run clubs cresceram mais de 100% segundo o Strava. Em Sorocaba, esses coletivos se multiplicam: crews que dividem corredores por níveis — iniciantes, intermediários e avançados — e criam redes de apoio que vão muito além do treino semanal.
Yara Guariglia, 40 anos, pedagoga e professora, começou a correr em 2017 por um motivo que muita gente no meio compartilha: a ansiedade. “Eu já treinava corrida desde 2017 e triathlon desde 2020. Comecei a correr pra me ajudar com ansiedade”, conta. Em 2023, porém, uma decisão a diferenciou da maioria dos corredores comuns.
Ao lado do amigo Renato Rezende, em diversas situações dentro dos esportes que praticava, Yara percebeu algo que a incomodava. “Ambos sentíamos a corrida, de modo geral, um ambiente muito elitista, pouco inclusivo e acessível, não sendo tão convidativo para as pessoas’’, explica. ” A gente já brincava que éramos a parte underground da corrida e triathlon”
Inspirados por matérias sobre o movimento das crews, que já tinha grande força fora do país, a dupla começou com um plano simples, mas com as melhores intenções. A agenda da vida adulta nunca batia entre amigos e conhecidos, mas o convite para iniciarem algumas corridas entre colegas — que chamariam outros colegas — deu início ao projeto. A intenção era tornar a corrida mais agradável e diversa, mostrando que o esporte poderia fazer jus à sua fama de acessível. E assim nascia a UDG — Underground.
Hoje, a UDG corre com 500 pessoas em uma simples quarta à noite. “A crew cresceu em uma proporção que eu jamais imaginaria”, admite Yara. “Sinceramente, deixou a minha vida muito mais corrida. Mas isso mudou a minha vida também em um ótimo sentido, de poder proporcionar para muito mais pessoas um acesso à corrida que antes era mais dificultoso por conta de várias barreiras, inclusive sociais. Ganhei muitos novos amigos, estou rodeada de pessoas que me agradecem diariamente pela transformação em suas vidas e isso tem sido enriquecedor pra mim. Comunidade é algo que se constrói e eu sinto que construímos uma verdadeira comunidade com a UDG.”
Yara durante prova de corrida, 2025 | Arquivo pessoal
Dentro do universo esportivo já é interessante observar, mas o fenômeno fica ainda mais intrigante quando você olha de fora. A corrida é, por natureza, um esporte individual. Muitos comentam sobre como a corrida é um esporte simplesmente mental. Além do fortalecimento físico, a mente precisa estar forte para que você esteja pronto para passar os quilômetros necessários, você contra você mesmo. Você contra o relógio. Você contra aquela voz na cabeça que diz “para, você já fez o suficiente”. Mas justamente por ser tão solitária, ela criou uma das comunidades mais unidas do universo esportivo.
É algo comum entre a comunidade, você estar correndo e ouvir um desconhecido gritar “vamos lá! bora lá!” quando te ultrapassa. Ou sentir o apoio de alguém que você nunca viu na vida quando seus pés parecem pesar toneladas e você duvida que conseguirá completar aqueles últimos quilômetros. Existe um companheirismo silencioso entre quem corre, uma empatia construída no sofrimento compartilhado. Quase como uma promessa que nunca foi dita em voz alta: “eu não desisti, você também não vai”.
Além de Yara e Renato, que a partir de um sentimento mútuo de falta de pertencimento acabaram criando uma comunidade acolhedora de corrida, você encontra exemplos perfeitos de solidariedade entre corredores sem grupos. Pedro Arieta tinha uma meta de 2h40min em sua maratona de Boston. Ele cruzou a linha de chegada em 2h41min. O minuto de diferença? Foi o tempo que ele parou para ajudar outro corredor norte-americano que estava caindo e não conseguia continuar. Ergueu o desconhecido, deu apoio, fez com que atravessasse a linha de chegada. A notoriedade mundial que a atitude gerou rendeu até patrocínio da Rexona, que viu nele “a personificação de que o movimento vai além da performance, inspirando pessoas com propósito e empatia.”
Pedro resumiu tudo em suas redes: “Correr não é individual”.
É bonito. É inspirador. A corrida tem sido não só o motivo de muitas pessoas estarem tentando uma vida mais saudável como comprova a ciência: um estudo recente comparou um grupo que tomou antidepressivos com um grupo que fez corrida supervisionada (2–3 sessões por semana, 45 minutos, por 16 semanas). No final, cerca de 44% dos participantes de ambos os grupos relatavam melhora nos sintomas de depressão e ansiedade. O Colégio Europeu de Psicofarmacologia, em Barcelona, apresentou dados mostrando que a corrida tem o mesmo efeito que antidepressivos.
E por corredores com o perfil da Yara, e de Pedro, o esporte continua crescendo. Sua comunidade solidária é o que atrai as pessoas e muitos estão buscando conforto, seja pelo alívio da ansiedade ou pelo condicionamento físico.
Mas Yara faz questão de desmistificar a romantização excessiva do esporte. “Eu acho que ninguém deveria ser convencido a começar a correr. É uma vontade que precisa partir de cada um, principalmente agora que o esporte está mais popular que nunca. Para correr precisa ter responsabilidade com a própria saúde, conhecer e respeitar os limites do corpo e precisa ter a vontade própria de fazer isso, para que a corrida não se torne um peso.”
Márcia reforça essa visão do ponto de vista médico. “Vejo muitos pacientes que começam a correr sem avaliação prévia, sem respeitar a progressão adequada, e acabam com lesões que poderiam ser evitadas”, alerta. Ela explica que o corpo precisa de tempo para se adaptar ao impacto da corrida — tendões, ligamentos, articulações e músculos precisam de fortalecimento gradual. “A empolgação inicial é ótima, mas precisa vir acompanhada de bom senso. Começar devagar, alternar corrida com caminhada, respeitar dias de descanso e fazer fortalecimento muscular são fundamentais para que a corrida seja sustentável a longo prazo.” A própria lesão de Márcia veio como lembrete dessa necessidade de equilíbrio entre paixão e prudência.
É uma visão honesta, longe dos discursos motivacionais genéricos. “Correr não é fácil, demora um tempo para encaixar no ritmo, ninguém começa correndo direto por alguns quilômetros, é um processo muito gradual e particular, mas que a pessoa precisa querer e respeitar cada etapa”, explica Yara. “Eu gosto de falar e mostrar o quanto a corrida faz bem pra mim, e acho que nada melhor que o exemplo para motivar e incentivar as pessoas.”
A linha de chegada que não existe
A verdade é que não existe linha de chegada neste esporte. Não de verdade. Sempre há um próximo objetivo, uma próxima prova, um pace a melhorar, um quilômetro a mais a somar. É um esporte que te ensina que a meta não é o ponto final — é o próprio movimento.
Pedro nos apresenta isso sem perceber quando fala da maior lição que o esporte lhe ensinou: constância e disciplina. Não é sobre o dia que você bateu seu recorde. É sobre todos os dias em que você não queria levantar da cama, mas levantou mesmo assim. O desconforto de fazer o que é certo sempre vai ser compartilhado entre atletas.
A constância e disciplina é algo que muitos correm atrás por uma vida inteira e nunca alcançam. E talvez seja exatamente isso que explique por que a corrida está em seu auge agora, em uma era de gratificação instantânea e que doenças mentais são consideradas as doenças do século porque o esporte exige o oposto: paciência, persistência, a aceitação de que alguns resultados não podem ser acelerados.
Você tem que colocar um pé na frente do outro. Repetidamente. Por quilômetros. Por meses. Por anos.
Não há atalho.
Particularmente, tenho passado por muitos eventos de corrida. Durante o ano, até participei de uma das corridas entre grupos. É exaustivo, é cansativo, mas a sensação de finalização é a mais satisfatória já criada. Para meu perfil, que vem de alguém competitivo, eu não suportaria estar ali e parar enquanto todos continuavam — e isso me fez finalizar os 3km mesmo que eu não gostasse.
Participar para entender é fundamental.
Estar na linha de chegada torcendo por alguém que eu sequer conhecia me ensinou algo: o simples fato de estar ali, completando qualquer quilômetro que seja, já é inspirador por si só. A maratona de Nova York costuma reunir cerca de 2 milhões de espectadores nas ruas, segundo o próprio organizador do evento, e muitos corredores relatam que esse apoio é justamente o gás de que precisam quando pensam em diminuir o ritmo ou parar.
Mães com seus filhos, pais com crianças, amigas e amigos, irmãos ou até mesmo pessoas que nunca se viram antes, todos cruzando a linha de chegada. Alguns pelo desafio de se superar, outros para provar algo a si mesmos, muitos simplesmente pelo prazer.
E admito: talvez não exista nada mais inspirador do que alguém se encontrar em uma comunidade que, voluntariamente, escolhe correr.
Os eventos continuam crescendo em Sorocaba. As crews continuam recrutando novos membros. Os tênis continuam se desgastando no asfalto. E a cada domingo de manhã, enquanto a maior parte da cidade ainda dorme, centenas de pessoas se encontram na linha de largada. Não pelo dinheiro. Não pelo troféu. Nem mesmo pela medalha.
Mas pela promessa silenciosa de cruzar aquela faixa erguida. De provar, mais uma vez, que conseguem.
Juntas, para correr sozinhas. Unidas pela mais solitária — e talvez mais humana — das paixões.
